Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Saudades talhadas em pó de pedra - as obras maiores de João Cutileiro

Pai é pai. João e Tiago Cutileiro, só muito mais tarde perceberam a dimensão do artista. Os dois miúdos, ao colo de João Cutileiro, na fotografia que aqui podemos ver, devolvem-nos o sorriso de uma infância feliz. O sorriso e o colo bastavam " aos filhos dos hippies", como eram conhecidos em Lagos. Uma Questão de ADN, com João e Tiago Cutileiro.

Aos 10 anos, Tiago foi acordado pelo pai, que lhe deu o número da conta bancária, para a eventualidade de lhe acontecer alguma coisa. Tiago Cutileiro, professor e compositor de música, recorda este episódio, sem dramatismos. Falar da morte e da obra era algo que podia acontecer nas conversas lá de casa. Muitos anos depois, e muitas obras depois, quando o escultor foi diagnosticado com enfisema pulmonar, o pressentimento do fim precipitou a decisão de doar parte do espólio e o atelier, em Évora, ao Estado português. Tiago Cutileiro espera que o saibam cuidar: "Mantenho essa fé."

João Cutileiro, o filho mais velho, fotógrafo, aguarda pelos próximos projectos, confessando a emoção sentida no último domingo, durante a inauguração da exposição Gravuras Recentes e outros Riscos, no Museu Arqueológico do Côa, em particular quando bateu de frente com dois autorretratos: " Do ponto de vista emocional foi uma viagem longa e dolorosa."

Hoje viajamos com as histórias que eles nos contam.

E com as memórias de um pai " que gostava muito do que fazia, e ganhava dinheiro com isso".

"Em Lagos, até nas gavetas havia pó", recorda Tiago, fixando a imagem do pai que circulava coberto do pó da pedra em que esculpia os corpos e os objectos. Era tanto assim que quando Mário Soares levou ao atelier François Miterrand, então Presidente de França, Cutileiro limitou-se a sacudir o pó maior, com uma pistola de pressão e recebeu-os tal qual. O mesmo interesse que ele punha na escultura ou nos desenhos, era o mesmo que punha quando fazia uma feijoada. Tudo era partilhado com o mesmo entusiasmo. A vida e a profissão combinavam-se, apaixonadamente.

Ouça aqui Uma Questão de ADN, um programa de Teresa Dias Mendes com cuidado técnico de José Guerreiro.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de