Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quinta-feira, depois das 19h00. Repete à sexta-feira, à 01h00 e domingo depois das 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Os "truques" da magia da rádio. Sonoplastia de Alexandrina Guerreiro

No dia mundial da rádio, ela senta-se no estúdio e dá-nos a escuta do som da vida dela. Alexandrina Guerreiro e Marta Pena. Uma questão de ADN.

Caiu de pára-quedas num curso de operadores/sonorizadores de Radiodifusão, promovido na então TSF - Rádio Jornal, nem sabia muito bem o que era isso da rádio, não se ouvia lá em casa, mas a vontade de ganhar autonomia e algum dinheiro (o curso era subsidiado pela União Europeia) foram a motivação. A irmã, recepcionista na RDP, acenou-lhe a ficha de inscrição e ao fim de três, quatro dias, Alexandrina Guerreiro já se tinha rendido ao ofício: "foi mágico". A descoberta do som da rádio mudou-lhe a vida toda. A viagem começa em 1988.

"Epá, deixas-me sem palavras. Bolas! Achas mesmo que o meu percurso interessa às pessoas?" Foi a resposta da Xana, quando a desafiei para estar no programa. Para quem gosta da zona muda do cardióide, aquele sítio mínimo que podemos identificar nos microfones de estúdio, semelhante à forma de um coração, para quem, como ela, assume que é ali que bate o seu coração, o convite provocou uma ligeira arritmia, o suave desconforto do estremecimento que nos dispara o gozo da rádio. E ela disse que sim.

Durante o estágio na TSF, a jovem Xana já pressentia a queda para a sonorização. Pouco tempo passou na redaccção das Amoreiras, era noutro ponto da cidade de Lisboa, sentada numa mesa de mistura multi-pista que se sentia feliz. A continuidade, os exteriores, nunca lhe encheram as medidas, "cumpri tudo, mas percebi que se algum talento tinha era na sonoplastia". O trabalho da continuidade tem o seu lado rotineiro, os exteriores faziam-na suar, "não dormia, perdia quilos", e os elogios, que cedo começou a ouvir, com o embrulho que dava aos sons, despertaram a vontade de fazer mais. A estética do som. O fazer bonito. Saber brincar e comunicar com o som.

Lembra-se do jingle "A Mosca"? É sonoplastia de Alexandrina Guerreiro, "o melhor trabalho do sonoplasta não é assinado em antena". Ela explica como é que, em menos de um minuto, se pode prender a atenção do ouvinte. Criar uma história, uma teia, um enredo. Um punhado de sons do Parlamento, uma música, uma mistura onde a manipulação dos sons é assumida e consentida pelos próprios protagonistas. E é isto."Havia uma mosca que, ao contrário das outras, não andava com as patas para baixo, andava com as patas para cima", começava por contar o então primeiro-ministro Durão Barroso. O jingle é uma folha em branco "não é uma receita de um bolo de laranja", leva tempo a levedar, a encontrar a mistura certa e o qb de ingredientes.

Marta Pena, a filha, 23 anos, criadora de conteúdos multimédia, foi espectadora privilegiada da criação de muitos dos trabalhos assinados pela mãe, "ficava a ver à porta do escritório e 'Uau, eu não seria capaz'". A Marta, que tantas viagens fez de carro, a ouvir a rádio TSF, com os pais, percebeu desde sempre que este não era um trabalho igual a tantos outros. Mesmo sem saber ainda que nos lugares da frente sentavam-se dois grandes nomes da rádio: Alexandrina Guerreiro e Jorge Pena. Mãe e pai. Companheiros e camaradas do mesmo ofício. Jorge Pena, foi o coordenador da técnica na TSF até morrer, em Março de 2011. Quando a rádio fez 25 anos, ele recordava os primeiros anos: "Cheguei a estar 72 horas sem dormir, éramos muito novos, a rádio era a nossa namorada".

Esta conversa não é uma viagem ao passado, apesar das tantas e boas memórias: "um técnico a pôr moedas numa cabine telefónica...plim plim plim, enquanto o repórter fazia o directo, do outro lado da rua, ligado a um cabo atarraxado ao aparelho", "as primeiras eleições livres em Angola, tinha 22 anos, e a responsabilidade de ligar todas as sedes de campanha", "as palmadas na mão e no pé, dadas por João Canedo, um dos formadores do curso", os loucos dias da rádio. Tudo muito intenso, tão intensamente rádio. "A rádio que mudou a rádio", lembra a Xana, a certa altura da conversa, outro dos jingles de estação, da autoria do jornalista Fernando Alves, "não era só uma coisa bonita, como as que ele faz, foi mesmo verdade".

Também falamos do presente e do futuro, de streaming e de detox, de férias na neve e de uns quartinhos de turismo rural que hão-de surgir em Castro Marim. Projectos em aberto, uns no computador, outros logo se vê.

É preciso arte para comunicar com o som, aí reside a essência de um bom sonoplasta. A 10 de Janeiro deste ano, a Alexandrina Guerreiro saiu da TSF. Mas o coração da rádio continua a bater com o som dela.

Uma questão de ADN, um programa de Teresa Dias Mendes, com sonorização de José Guerreiro, passa esta quinta-feira, depois das 19h00. Repete à 01h00 da madrugada e domingo, a seguir às 14h00.

A autora não escreve segundo a grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990.

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