Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Teresa Ricou e Nuno Ricou Salgado. A arte de aprender a tornar os sonhos realidade

"Nós fazemos coisas. Coisas ligadas à arte". Nuno é produtor cultural, fundador da Procur.arte, associação cultural e social que dá palco a todas as artes no espaço público. Teresa é Té Té, a eterna mulher-palhaço, que fundou o Chapitô, a escola de artes circenses que é o projecto da sua vida. Mãe e filho são operários em construção. Ajudar, transformar, cuidar. A arte cura.

"Inquieta, irrequieta, insatisfeita". Mulher de palco e do espectáculo, há mais de 20 anos que Teresa Ricou não pinta a cara " quero muito voltar a actuar, eu admnistro uma coisa, que no fundo gostava de ser eu a fazer". Nuno Ricou Salgado, o único filho de Teresa, prefere os bastidores " onde me sinto à vontade é nos camarins, por trás das câmaras. A exposição pública não é coisa que me agrade. Dou a cara, mas não faço isso com gosto". A vontade de fazer é gene. Para Teresa Ricou, a viagem começa no continente africano, para onde se mudou, muito pequena, quando o pai, médico, foi curar leprosos. O mesmo pai que anos mais tarde, haveria de a " declarar quase perdida", quando a rua se revelou o seu palco, e todos conhecemos Té Té, a primeira mulher palhaço portuguesa.

Nuno Ricou Salgado, cresceu no Brasil com o pai. Só aos 18 anos regressa a Portugal definitivamente, e vai trabalhar com a mãe, ajudando a erguer a escola, que é hoje o Chapitô ," foi um período muito especial, construindo e transformando o mundo" recorda o produtor cultural, " fui descobrindo a imagem, o vídeo, a fotografia, e produziram-se coisas incríveis". A escola de artes circenses, na Costa do Castelo, em Lisboa, ocupa o espaço outrora habitado pelo Tribunal de Menores. Onde Teresa perdeu a guarda do filho, é onde Teresa forma e ajuda hoje outros jovens. O reencontro entre mãe e filho é um momento importante na vida dos dois, mas é Teresa Ricou quem o expressa com mais à vontade: "O Nuno é mais pragmático , eu sou mais afectiva e emocional. A nossa separação , e depois o regresso dele a seguir ao 25 de Abril, foi muito emocionante. Um grande reencontro. Eu estava a começar a mexer na parte social e artística, e foi muito bom ter o meu filho ali ao meu lado".

Chegar aos jovens por via das artes. Cuidar dos outros. A missão nunca está cumprida. "Somos um bocadinho nómadas. O Nuno mais no plano internacional, eu mais ligada ao poder local. Faltam estruturas, e o país tem de acordar para isso. A cultura tem de ter uma retaguarda de estruturas, que facilitava o trabalho", reclama Teresa Ricou, e reforça Nuno Ricou Salgado "há um grande desconhecimento do trabalho cultural. Há um processo de não valorização da cultura. O orçamento para a cultura é ridículo, miserável, e o impacto da cultura na transformação da sociedade é fortíssimo".

São angústias que não os impedem de fazer caminho. A mala está sempre pronta.

E um dia ainda haveremos de assistir ao regresso da Té Té, a descer em rapell no Coliseu dos Recreios " gostava muito, é uma coisa que quero fazer". Para esse dia, fica aqui prometido um caril de camarão, confeccionado pelo filho. E a rádio em fundo, dando palco às artes destes dois. A rádio é para Teresa e Nuno, companheira, amiga e também palhaça.

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