Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Um chão comum. Delfim Sardo e António Sardo em Uma Questão de ADN

Talvez um dia possamos sintonizar a rádio e escutar-lhe a voz conversando com artistas no ateliê sobre as músicas que os acompanham durante a criação. O desejo é sussurrado por entre as muitas paisagens sonoras da vida e da arte de Delfim Sardo. "Gostava de ter sido arquiteto", mas formou-se em Filosofia, é professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, curador, programador e administrador do Centro Cultural de Belém. António Sardo, é o arquiteto e o mais velho dos três filhos. De Aveiro a Veneza, viajamos com os dois, por entre projectos e gostos "que se discutem."

Da Ria Formosa à Laguna de Veneza "é sempre a paisagem que me toca mais". Delfim Sardo nasceu em Aveiro: "seja a ria de Aveiro, a ria de Tavira, o sapal do Sado ou a Laguna de Veneza." O gosto pela arte acompanha-o desde cedo "e a formação ética que vem da família e da qual me orgulho muito." Delfim era o nome do avô paterno e Veneza é uma paixão antiga "desde o Inter Rail foi um deslumbre." Voltou uma e outra vez e regressa de "2 em 2 anos para a Bienal."

Em 1999 e em 2010 foi curador e co-responsável pela Representação Portuguesa, mas a " cidade improvável", como o ouvimos dizer, é um lugar de peregrinação a que nunca se furta, expondo uma ligação antiga e afetiva, "Veneza é uma cidade completamente literária, totalmente improvável, onde se descobrem recantos, ruas e ruelas a cada nova visita e a ligação com a água desperta o fascínio por tantas camadas de história." É o caso da Igreja de San Giorgio degli Schiavoni, onde se podem ver os painéis de pintura do italiano Vittore Carpaccio, que aprecia particularmente.

"Para mim é o pintor mais extraordinário na transição da Idade Média para o Renascimento, há ali uma vibração da História a mudar que é deslumbrante. Foram restauradas há uns anos e podem ver-se agora como nunca." Fica a sugestão anotada e ao lado.

António Sardo ampara cada palavra do pai com a memória de infância. "Ficava roído de inveja a ouvi-lo falar de Veneza." Foi uma das viagens partilhadas com o pai, uma de muitas. "As viagens, os passeios em família, a visita a exposições, os artistas que entravam pela casa", todo este caldo "enformou o meu percurso e influenciou a minha escolha."

É ele o arquiteto da família, ofício que Delfim Sardo gostaria de ter abraçado "se fosse hoje talvez trocasse o curso de Filosofia pelo de Arquitetura," mas a Filosofia "de que sempre gostou muito, é instrumental , uma ferramenta, ajuda-me a pensar e a pensar a arte."

As casas que ambos elegem como o lugar primeiro e, dentro da casa, "a cozinha", os projetos com GAS (Gabinete António Sardo) "que andam sem pressa", numa procura de expressão que possa esboçar uma dança entre a arquitetura e as artes visuais , as aulas onde Delfim Sardo procura o questionamento dos alunos através da História da Arte e a função de curador, que à luz de um mundo clivado, como aquele em que vivemos exalta "o poder reparador da arte."

Próximo dos seus artistas, só assim se permite alcançar "uma relação" transparente e esclarecida com "os públicos" que visitam as exposições. Delfim Sardo define o curador como alguém que "presta atenção e sabe escutar." Não se estranha, também por isto, a banda sonora que gostaria de fazer ouvir na rádio "à conversa com artistas sobre as músicas que ouvem no atelier, enquanto criam." E Delfim Sardo, que música nos deixa ele? A versão "absolutamente extraordinária" de Wuthering Heights, popularizada pela Kate Bush, na voz da cantora de jazz, Cecile McLorin Salvant. Vem ao CCB no próximo ano.

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