Uma questão de ADN

Podem ser irmãos, avós e netos, pais e filhos, companheiros, marido e mulher... São pessoas da mesma família que se juntam para uma conversa em que se fala de tudo. São percursos de vida e testemunhos que atravessam diferentes gerações. O que os une para lá do apelido, o que os separa para lá da diferença de idades.
Quarta-feira, depois das 13h00. Repete ao domingo, após as 14h00. Com Teresa Dias Mendes

Verdes Anos no corpo de uma guitarra portuguesa

"Está tudo no tempo certo e está tudo bem quando nós ouvimos a Mafalda." As palavras são de Luísa Amaro, que encontra na jovem do Porto "a respiração e a pulsação do Carlos Paredes". No passado sábado, elas foram duas entre seis mulheres, seis intérpretes, que na Voz do Operário, em Lisboa, prestaram tributo ao grande mestre, que dizia ser apenas um homem que sabia tocar guitarra. Mafalda Lemos tem 19 anos, começou pela guitarra clássica até que, ainda pequena, ouviu o som que a deixou "fascinada". E convenceu-se de que seria capaz. As mulheres, a guitarra portuguesa e os mágicos movimentos perpétuos, em Uma Questão de ADN.

"O primeiro embate é um pouco violento", exclama prontamente Luísa Amaro, "ela é muito nova e nós pensamos que tem uma maneira frágil de tocar, e tem uma mão pequenina, e ninguém está à espera de ouvir o que vai ouvir". Técnica, respiração sentida, o pulsar das cordas, "é isto que nos comove". Luísa Amaro e Mafalda Lemos conhecem-se há pouco tempo. Onde Mafalda confessa fascínio, Luísa Amaro coloca intenção, inocência. Está naturalmente rendida à arte da jovem do Porto que estuda atualmente composição na Escola Superior de Música em Lisboa.

Aos sete anos, Mafalda pisava as primeiras cordas. Começou pela guitarra clássica, mas um certo dia num clube de leitura, com a mãe, as batinas e os estudantes de Coimbra captaram a atenção. Começa aí o fascínio: "Chateei tanto a minha mãe que ela arranjou-me um professor, também teve a sua arte."

Segue para o Conservatório de Música, já de braço dado à guitarra portuguesa. No palco, Mafalda veste uma espécie de armadura invisível, protegendo-se da timidez e do olhar do público: "Eu tenho muita bolha, os meus pais até dizem que eu sorrio pouco. Eu estou a olhar mas não vejo nada."

A aparente fragilidade não é mais do que a sua simplicidade. "Toca com muita honestidade", reforça Luísa Amaro, "e é preciso força física para tirar aquele som". Talvez por isso Mafalda Lemos fale em "sofrimento" quando pisa o palco, onde sente que assim que começa a tocar "é só a música que fica no ar, o meu corpo não me pertence, está dado completamente à música".

No último sábado, na Voz do Operário, em Lisboa, a homenagem a Carlos Paredes foi celebrada folheando o livro editado pela Althum, de Paulo Sérgio dos Santos e seis mulheres a dedilhar, "cada uma com a sua personalidade, que é assim que deve ser, a guitarra portuguesa está bem entregue, e o Carlos Paredes sempre disse que as mulheres deviam tocar guitarra".

Hoje, no palco da rádio, Mafalda voltou a tocar, desta vez sozinha, abraçando a guitarra portuguesa com os seus verdes anos.

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