Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Alimentação, resíduos ou embalagens. A sustentabilidade nos festivais de verão

Com os festivais de verão quase de regresso, é importante perceber de que forma é que os festivaleiros podem combinar a diversão e o convívio com a sustentabilidade. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, dá várias sugestões no âmbito da alimentação, gestão de resíduos, reutilização de embalagens, bem como da energia e da mobilidade para que o principal objetivo seja sempre o aumento da sustentabilidade, tanto por parte dos organizadores, como dos próprios cidadãos que frequentam estes eventos de música.

Depois de uma interrupção de dois anos devido à pandemia de Covid-19, os festivais de verão estão de regresso nos próximos meses. A música e a diversão são os principais objetivos destes eventos musicais, mas também a sustentabilidade deve ser uma prioridade. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica que "é muito importante minimizar os impactos que decorrem da organização e realização" dos festivais, quer em termos de mobilidade, do espaço que ocupam no território onde se realizam, quer da produção de resíduos e gasto de água e energia.

"Há muitas áreas onde pode haver impactos muito significativos. É muito importante começar desde o início a pensar como é que eles podem ser minimizados ou mesmo evitados. Depois, estes eventos têm também um enorme potencial de sensibilização dos públicos que os frequentam e podem aprender e levar consigo algumas boas mensagens em termos de sustentabilidade", afirma.

Assim como acontece com os produtos em que, segundo estudos europeus, "80% do impacto é definido na fase da sua criação e desenho", também os festivais devem aplicar essa lógica.

"Só pensando isto de raiz, desde o primeiro momento, é que podemos garantir que o evento será sustentável, porque de outra forma será muito difícil. Para os eventos que ocorrem regularmente, como este tipo de festivais de verão, é também importante ter planos de melhoria contínua, olhar para estas áreas e pensar como é que no próximo ano posso fazer melhor. Ter sempre objetivos exigentes de tentar reduzir cada vez mais o impacto e termos a noção que é sempre melhor reutilizar e ter soluções duráveis", considera.

A localização é um dos primeiros aspetos a ter em conta aquando da realização de um festival de música. "Devemos ter o cuidado de evitar que eles se realizem em zonas que sejam importantes do ponto de vista da conservação da natureza, quer em termos do impacto de ruído para a fauna, quer do pisoteio em zonas com coberto vegetal relevante. Tentar afastar estes eventos de áreas que, do ponto de vista da conservação, tenham aqui uma riqueza maior e algo a preservar. Não olhar para esta questão numa lógica de minimizar os impactos, mas antes evitar e optar por outras localizações e ter também muito cuidado com a questão da limpeza e de todas as regras das atividades paralelas, como estacionamento ou alojamento."

Alimentação, "uma área crítica"

Há outras áreas em que a organização dos festivais pode atuar para reduzir o impacto ambiental, nomeadamente a alimentação, que "é uma área crítica". Susana Fonseca destaca a importância dos fornecedores locais, regionais ou nacionais, dos produtos da época e da oferta de opções vegetarianas ou veganas.

O desperdício alimentar também deve ser prevenido neste tipo de eventos. "Sensibilizar para o impacto e penalizá-lo se em determinadas situações as pessoas levarem mais do que aquilo que vão consumir; ter algum espaço para tentar garantir que as pessoas são mais conscientes e ter acordos com entidades que possam usar essas refeições quando elas não são consumidas", defende.

Reutilização de embalagens e gestão de resíduos

Do ponto de vista de Susana Fonseca, deve apostar-se "na reutilização com higienização no local, na disponibilização de bebidas em sistemas de 'refill', algo que já acontece em muitos festivais e no pagamento de uma caução que será devolvida depois da entrega das embalagens reutilizáveis".

"Cada vez mais temos que ter estes materiais reutilizáveis sem estarem associados diretamente a um evento. O importante, quando temos um produto reutilizável, é que ele seja reutilizado o maior número de vezes possível dentro das condições de qualidade alimentar", sublinha, referindo-se ao exemplo do NOS Alive que, em 2019, apostou no uso de copos reutilizáveis, vendidos a um euro, sendo o dinheiro posteriormente doado a duas instituições. "Optar por copos reutilizáveis é interessante como primeiro passo, mas é mesmo muito importante que estes copos sejam usados não apenas numa edição do NOS Alive, mas possam ser usados noutras edições do NOS Alive ou, melhor ainda, noutros festivais."

No que toca aos resíduos, Susana Fonseca alerta para a importância de "garantir que aquilo que não é reutilizável é reciclável. Temos este problema grave de muitos produtos que são recicláveis, mas não acabam reciclados. Relativamente aos resíduos orgânicos, que são uma parte importante dos resíduos produzidos nestes eventos, é importante canalizá-los para compostagem e garantir que voltam ao solo".

As beatas são um resíduo bastante comum nos festivais de música e, por isso, a especialista aponta a disponibilização de cinzeiros portáteis como uma "boa solução para evitar tanta poluição que depois fica no terreno e que é muito difícil limpar".

Com o projeto "Por um Mundo Melhor", o Rock in Rio, que está de volta a Lisboa já em junho, quer, por exemplo, até 2030, ser "lixo zero" e ter "zero desperdício em todas as edições", algo que Susana Fonseca vê com bons olhos. "É um objetivo muito exigente mas que é importante ir trabalhando e fazendo as alterações estruturais necessárias para o atingir."

"Às vezes, o conceito de lixo zero é lixo zero desde que vá para reciclagem e nós pensamos que temos de trabalhar num conceito um bocadinho diferente. O lixo zero é tentar mesmo que não haja produção de resíduos ou minimizá-la ao máximo", esclarece.

Água, energia e mobilidade

Já no que à água diz respeito, é aconselhado o consumo a partir da rede pública em vez de água embalada. Susana Fonseca dá o exemplo do Boom Festival que, na última edição, contou com cerca de 40 mil festivaleiros e conseguiu poupar 19 milhões de litros de água "só com a utilização de sanitas secas".

Devem também ser privilegiadas as energias de fonte renovável e, em termos de mobilidade, "até por razões de segurança e de maior conforto", é importante ter em conta os transportes públicos ou as plataformas onde se possam encontrar boleias conjuntas.

Susana Fonseca afirma ainda que os próprios festivaleiros podem também "ser exigentes com os organizadores dando a conhecer o interesse que há em soluções sustentáveis".

"É importante que os festivais sintam que não são só as ONG que falam, mas também quem frequenta estes espaços", assinala, acrescentando que é necessário "haver alguma regulamentação destes eventos no sentido de estimular algumas mudanças mais rápidas, tendo sempre como objetivo aumentar a sustentabilidade destes eventos".

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