Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

As pessoas e o planeta em primeiro lugar. O que é a economia do bem-estar?

No Verdes Hábitos desta semana, o bem-estar e o conforto dos cidadãos, bem como o equilíbrio e a saúde do planeta são as principais temáticas. Com o objetivo de "não deixar ninguém para trás" e "assegurar a prosperidade para todos", Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica como é que a economia do bem-estar está ligada à sustentabilidade, dando o exemplo do País de Gales, e fala sobre as estratégias que deveriam ser implementadas, tendo sempre em conta "os limites do planeta" e "as necessidades e os objetivos" de cada país.

Quando falamos em economia, pensamos, por exemplo, no Produto Interno Bruto, que é um dos principais indicadores. No entanto, tendo em conta o conforto, segurança e dignidade dos cidadãos, bem como o equilíbrio e saúde do planeta, o bem-estar é algo que deve ser uma prioridade para um crescimento económico sustentável a longo prazo. Mas, afinal, o que é a economia do bem-estar? Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, responde a esta pergunta:

"O que a economia do bem-estar procura é trazer um pensamento diferente, é pensar em estratégias e desenhá-las e aplicá-las no sentido de responder às necessidades fundamentais e prioridades. É uma economia que na base procura ser mais redistributiva, mais respeitadora dos limites do ambiente. É uma economia que é vista de uma lógica de estar ao serviço das pessoas e das comunidades e que potencia as atividades económicas que maximizam os impactos positivos e minimizam os negativos e sempre com esta lógica de respeito pelos limites do planeta."

A especialista reforça que "não vivemos num planeta finito" e, por isso, "não podemos imaginar que vamos continuar a crescer indefinidamente num planeta finito", porque "isso não é razoável".

"Pensando nesta economia do bem-estar, que está ao serviço das pessoas, tendo sempre presente a necessidade de respeitar os limites planetários, é importante que quando pensamos nos investimentos, políticas e decisões, haja esta lógica de tentar assegurar a prosperidade mesmo para todos. Hoje em dia, temos na Europa outro enquadramento importante. O Pacto Ecológico Europeu tem um objetivo que vai ao encontro da economia do bem-estar, que é 'não deixar ninguém para trás'. Há muitas iniciativas que estão no Pacto Ecológico Europeu e que podem ser uma excelente forma de concretizar uma economia do bem-estar na Europa", refere Susana Fonseca, trazendo à conversa o exemplo do debate sobre o aeroporto de Lisboa.

"Devíamos olhar para esta construção do aeroporto e pensar: Faz sentido investir tanto num transporte que é altamente impactante, que é uma das formas de mobilidade mais impactantes do ponto de vista ambiental, estando nós na situação que estamos em termos de alterações climáticas? Devemos apostar no transporte aéreo, quando sabemos que ele só é acessível a uma parte da população? Investir tanto num setor do turismo quando sabemos que em termos de impacto ambiental é um setor tão impactante ou que é suscetível a crises como vimos com a questão da pandemia?", questiona.

Bem-estar e sustentabilidade? Eis o exemplo do País de Gales

A economia do bem-estar está totalmente relacionada com a sustentabilidade. Como? Susana Fonseca dá o exemplo do País de Gales, que tinha um projeto para construir mais uma via na autoestrada, "uma vez que havia muitos problemas de congestionamento numa dada região".

"Quando eles começaram a analisar este projeto pela lógica do bem-estar, não olharam apenas do ponto de vista económico, procuraram aplicar outro tipo de lentes, mais baseadas no ponto de vista ambiental, social e cultural. Surgiram várias questões: uma delas foi que, no âmbito do trabalho que o país já está a fazer, perceberam que em termos de tendência está previsto terem problemas graves de obesidade, é uma tendência que parece estar a agudizar-se e tem que ser trabalhada. Perceberam que este projeto não iria contribuir em nada para resolver esse problema, bem pelo contrário. O que eles consideram que devem fomentar dentro do seu próprio país é uma mobilidade mais ativa, sustentável e que reduza o tempo que as pessoas passam sentadas dentro dos carros", explica.

"Depois avaliaram também até que ponto aquela iniciativa iria contribuir ou não para aumentar a resiliência do país à crise climática, a questão da biodiversidade, da poluição do ar e o impacto na saúde e até que ponto é que o projeto contribuía de forma positiva ou negativa para este problema", refere Susana Fonseca, acrescentando que "eles sabem que cerca de 25% das famílias mais pobres não tem sequer acesso a um automóvel e isso foi identificado como elemento importante, tendo analisado este projeto e grande investimento à luz do contributo que ia dar ou não a estas famílias, que são aquelas que mais precisam de ser trazidas para dentro desta lógica do bem-estar".

Susana Fonseca sublinha que, no País de Gales, "chegaram à conclusão que este investimento iria privilegiar aqueles que já têm mais e dificultar a vida àqueles que têm menos, porque se nós investimos de um lado, não haveria dinheiro para investir mais noutras áreas, nomeadamente no transporte público. Perante este debate, o projeto foi abandonado, muito embora estivesse bastante avançado. O que o País de Gales fez foi uma alteração da sua política, reduziu estruturalmente o investimento em rodovia e investiram no sistema de transporte público para tentar responder a estes diferentes desafios".

A economia do bem-estar na Europa e em Portugal

Tendo em conta o cenário europeu, Susana Fonseca dá conta de que "há uma rede global, não só europeia, a Wellbeing Economy Alliance, onde quer organizações, quer cidadãos podem envolver-se e da qual a Zero faz parte".

"É uma rede que está a procurar fomentar estes debates a nível nacional em cada país. Há também uma outra iniciativa que é a We Go (Wellbeing Economy Governments), que são os governos que já estão a trabalhar nesta linha da economia do bem-estar e na Europa temos vários, como a Escócia, a Irlanda, o País de Gales, a Finlândia ou a Islândia. Depois fora da Europa, temos o caso da Nova Zelândia, que não sendo um país europeu, já está muito avançado no seu trabalho nesta área, em que todos os investimentos são medidos tendo em conta os objetivos e necessidades que o país tem de promover o bem-estar. Gostaríamos que Portugal viesse a fazer parte desta rede de governos europeus e mundiais que já estão a concretizar. É uma rede que visa a troca de informação, porque ninguém sabe tudo, as soluções não estão todas definidas, temos que as ir trabalhando e este contacto entre governos passa muito por esta lógica de irem aprendendo uns com os outros", defende.

Portugal está em 22.º lugar no conjunto de 31 países no que toca ao cumprimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável. De acordo com um relatório que será divulgado esta semana pela associação ambientalista Zero, Susana Fonseca esclarece que, após um debate "com alguns representantes externos, nomeadamente do governo da Escócia e da OCDE", foi feito um "conjunto de workshops com diferentes instituições e personalidades da sociedade portuguesa para debater uma visão para Portugal em 2040 numa lógica de uma economia de bem-estar".

"Foram identificados diferentes eixos estratégicos de intervenção, alguns indicadores relevantes para monitorizar a evolução do país, quem deve estar envolvido... Quando nós olhamos para os dados de Portugal e se pensarmos também no momento a partir do qual nós usamos o cartão de crédito ambiental... Se a humanidade vivesse como vivemos em Portugal, teríamos que acionar o cartão de crédito ambiental a 7 de maio, já estávamos a usar recursos que só deveríamos mobilizar no ano seguinte com todo o impacto que isso tem em termos dos problemas ambientais que já nos assolam. Não podemos continuar a fazer mais do mesmo, temos mesmo que tentar dar saltos qualitativos significativos e é por isso que a Zero desenvolve este trabalho e espera que venha a culminar na adesão de Portugal a esta parceria de governos para uma economia do bem-estar", diz a especialista.

Bem-estar: que estratégias?

Para Susana Fonseca, a economia do bem-estar "é um trabalho que se vai fazendo e que se vai construindo".

"O mais importante é que haja um interesse da parte dos nossos decisores políticos, que esta causa seja abraçada e que se comece a trabalhar no sentido de haver uma reflexão interna", assinala, reforçando que é essencial "fazer um debate nacional muito mais alargado, inclusivo e transparente no sentido de conseguir perceber o que é que os cidadãos portugueses desejam de Portugal e é depois a partir dessa reflexão que se identificam as necessidades e ações que têm de ser desenvolvidas".

A especialista admite que, por se tratar de "um debate muito político", "as pessoas podem sentir alguma dificuldade em perceber como podem dar o seu contributo". No entanto, "já existem pelo país fora muitas iniciativas interessantíssimas que concretizam o Pacto Ecológico Europeu e esta economia do bem-estar".

"O conselho que podemos deixar é que as pessoas procurem estas iniciativas, apoiem-nas, comecem a fazer parte desta mudança, porque quanto mais pessoas estiverem envolvidas nestes movimentos que procuram modelos alternativos de desenvolvimento, mais facilmente teremos decisões politicas que nos possam levar a ter uma economia do bem-estar em Portugal", conclui.

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