Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Biodiversidade, nuclear e combustíveis. Os impactos ambientais da guerra na Ucrânia

São várias as consequências ambientais da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, fala em "catástrofe humana", sendo que o nuclear é um dos grandes problemas. A subida do preço do gasóleo e da gasolina é um dos efeitos desta guerra que já começa a afetar os portugueses. No Verdes Hábitos desta semana, para uma mobilidade mais sustentável e tendo em vista uma maior eficiência energética, deixamos algumas sugestões de alternativas ao uso dos combustíveis.

Foi há 12 dias que eclodiu a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Os impactos no ambiente são enormes e um dos efeitos do conflito já chegou a Portugal com a subida dos preços dos combustíveis. As vidas humanas, a saúde, a biodiversidade, os ecossistemas e os recursos naturais são os principais riscos deste conflito. Quem o diz é Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero.

"Um dos alvos que tem vindo a ser atingido nesta guerra são as unidades industriais, desde refinarias a outro tipo de fábricas, e isso significa impactos em termos de poluição da água, de tanques de petróleo, de armazenamento de combustíveis, de contaminação das águas subterrâneas, dos incêndios que estão a contaminar o ar, muitas das vezes com químicos perigosos", explica, em declarações à TSF.

Há várias cidades ucranianas que têm ficado sem eletricidade e, assim, os "mecanismos para conter a poluição deixam de funcionar".

"Além da catástrofe humana, estamos a hipotecar aquilo que é uma realidade de cidades, paisagens e infraestruturas cruciais para o futuro", indica Francisco Ferreira.

No campo ambiental, podemos associar a situação atual aos acidentes de Chernobyl, em 1986, e de Fukushima, em 2011. "No primeiro caso, tivemos acidentes nucleares que resultaram de falhas de conceção na central e um conjunto de erros humanos. No segundo caso, houve tsunami para o qual a central não estava preparada." Em ambos os acontecimentos as consequências "foram desastrosas", mas hoje, o que temos "é um cenário de guerra".

Que preocupações devemos ter com o nuclear?

Francisco Ferreira explica que uma central nuclear "tem um conjunto de infraestruturas para manter os reatores a uma temperatura baixa, a circulação de água, há geradores a gasóleo que, no caso de não haver eletricidade, asseguram esse funcionamento".

"Eu não preciso de atingir o reator com um projétil ou um míssil para ter um acidente nuclear, porque eu posso perder o controlo do funcionamento daqueles reatores", afirma, lembrando que a Agência Internacional de Energia Atómica "tem lançado alertas fortes e grandes para que tenhamos o máximo de cuidado com aquilo que é o funcionamento e a manutenção destas centrais nucleares para que não tenhamos acidentes semelhantes aos de Chernobyl ou de Fukushima".

A guerra representa um risco acrescido para as centrais nuclear e, por essa razão, "todas as questões de gestão de risco, de segurança das centrais nucleares estão agora mais ainda em cima da mesa", sendo que "o custo do nuclear vai, sem dúvida alguma, vai aumentar".

"Por isso há mais argumentos para que a Europa não classifique o investimento nestas centrais como sendo um investimento verde", considera.

O que fazer para eliminar o uso dos combustíveis?

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia deixou ainda mais visível a dependência da Europa no que toca aos combustíveis fósseis. "É impressionante o peso que a Rússia à escala mundial como produtora de petróleo", constata.

Francisco Ferreira deixa, assim, alguns conselhos para diminuir o uso dos combustíveis fósseis. "Fazermos investimentos na independência energética e isso só se consegue através da maior eficiência, ou seja, desde os veículos aos edifícios. Desperdiçarmos menos e fazermos um melhor aproveitamento da energia que temos disponível e depois que essa energia seja de fontes renováveis."

A luta pelo combate às alterações climáticas e pelo uso de energias renováveis já é antiga. "A ideia de fazermos uma aposta grande numa independência energética à custa de fontes renováveis é algo que podemos e devemos apostar. Temos essa possibilidade de fazer uma aposta mais barata e mais estruturante e que nos permita ser mais resilientes em relação a estes conflitos", assinala.

Preços dos combustíveis disparam em Portugal. Que medidas tomar para fazer face a esta situação?

A crise resultante da guerra entre a Rússia e a Ucrânia fez com que o preço do petróleo disparasse. Os portugueses já começaram a sentir esse efeito nas suas carteiras. Francisco Ferreira aconselha as pessoas a fazerem mais contas, recomendando o uso do transporte público.

"A aposta no transporte público é crucial", argumenta.

No entanto, a pandemia não acabou e, na perspetiva de Francisco Ferreira, ainda tem influência na hora de os portugueses escolherem os transportes públicos. "Ainda estamos longe da ocupação que tínhamos antes da pandemia, há pessoas com receios legítimos que temos efetivamente que ultrapassar."

A mobilidade elétrica também deve ser uma solução. "Temos que banalizar os postos de carregamento e garantir que com economias de escala temos veículos mais baratos", assegura, defendendo ao mesmo tempo a eletrificação dos transportes.

Além da mobilidade, há medidas práticas que podem ser adotadas também no setor da habitação. "Quer no inverno, quer no verão, temos de pensar num melhor isolamento, no uso mais regrado de equipamentos ineficientes, como o radiador a óleo, que poderia ser menos usado se tivéssemos melhores janelas, paredes melhor isoladas, e se fizéssemos investimentos mais estruturantes."

"O custo recorde do gás natural, da eletricidade, do petróleo deve fazer-nos pensar nesta visão de longo prazo e o Estado tem também uma função crucial em apoiar todos, mas principalmente os mais vulneráveis, aqueles que estão em pobreza energética", afirma, frisando que é essencial descartar o uso dos combustíveis fósseis e "fazer uma aposta mais resiliente na eficiência energética e nas energias renováveis".

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