Verdes Hábitos

Os hábitos também se mudam. No combate ao estado de emergência climática, todas as semanas damos a conhecer novas ideias para mudar velhas rotinas. Com Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo.
Para ouvir todas as sextas-feiras, às 18h40.

Cinco dicas para reduzir o desperdício na cozinha

Maria Antunes e Rui Catalão, os Kitchen Dates, deixam cinco dicas (mais uma extra) para reduzir o desperdício. Leia aqui a crónica completa.

Se o desperdício foi inventado pelo ser humano, cabe-nos também a nós revertê-lo. A urgência em partir da teoria para a acção está à vista de todos, é inegável. Felizmente, há passos simples que cada um de nós pode dar no dia-a-dia para reduzir a quantidade de comida que deita fora, o lixo que gera em embalagens e noutros materiais utilizados na indústria alimentar e, de uma forma geral, a sua pegada de carbono.

Comprar menos processados (e mais comida de verdade)

A primeira - e talvez mais fundamental - mudança que podemos fazer é deixar de comprar produtos processados. Aqui incluem-se coisas como bolachas ou batatas fritas, mas também cereais de pequeno-almoço, molhos e refeições pré-feitas. Ao cortar neste tipo de produtos, muito provavelmente, estamos logo a caminhar na direcção de uma alimentação mais saudável e sustentável. Porque, em vez deles, vamos comer alimentos inteiros (aquilo a que podemos chamar comida de verdade), que vêm com as embalagens que a natureza lhes deu - as cascas. No fundo, precisamos de desempacotar menos e descascar mais.

Reduzir a distância percorrida pelos alimentos que compramos

Outro aspecto a considerar é a distância dos alimentos que compramos. Numa perspectiva ambiental, de que serve cortar nos produtos processados e depois consumir feijão da China, aveia da Finlândia, gengibre do Peru, banana da Costa Rica, café do Brasil ou caju da Índia? A distância importa, e muito. No cálculo da pegada de carbono de um alimento, o transporte é frequentemente o culpado pela maior fatia das emissões de gases.

Por isso, faz todo o sentido comprar local e construir a nossa dieta à volta dos alimentos que crescem mais perto de nós. Além de estarem mais adaptados aos nossos climas e solos - e como tal serem potencialmente mais nutritivos -, a reduzida distância que têm de viajar até chegarem às nossas mãos traduz-se numa menor necessidade de embalar ou conservar por largos períodos de tempo. A diferença de um morango apanhado pelo produtor de manhã e entregue ao consumidor à tarde para um morango apanhado duas semanas antes a 2000 km de distância e posto à espera na prateleira de um supermercado é enorme.

Ser consciente nas quantidades

Quem nunca exagerou nas compras da semana que atire a primeira pedra. É um pecado comum, até no mais consciente dos consumidores. Tendemos a comprar muita coisa 'só para o caso de...', mas depois deixamos sempre algo esquecido no fundo da despensa e do frigorífico a ganhar pó - e, o mais certo, bolor.

É neste processo que uma grande parte dos 100 a 132 kg/ano (conforme o estudo) de comida desperdiçados por um português, por ano, acaba por se perder. O problema começa de facto no (super)mercado e prolonga-se pela cozinha, onde também somos negligentes na altura de preparar, confeccionar e consumir. O que nos leva ao ponto seguinte.

Armazenar e conservar adequadamente

Alimentos diferentes precisam de ser guardados de formas distintas. Um tomate, por exemplo, nunca deve ser guardado no frigorífico. Da mesma forma que um molho de rúcula ou de espinafres não terá uma vida longa se for deixado a temperatura ambiente num recipiente exposto ao ar. Não vamos fazer aqui uma lista interminável de como armazenar os alimentos (há muita informação na internet sobre isso), mas é importante saber distinguir as necessidades de cada ingrediente.

Da mesma forma, temos ao nosso dispor um leque de opções para prolongar a vida de um alimento: cozinhar, desidratar, fermentar, conservar em salmoura ou em pickle, fazer uma compota, congelar, etc. Cada uma destas técnicas traz os seus benefícios, mas não há respostas certas ou erradas. Outro exemplo: na época alta do mirtilo costumamos congelar, fermentar, fazer compotas, juntar ao pequeno-almoço, cozinhar em bolos e noutros doces - entre muitas outras utilizações que conseguimos encontrar. É uma questão de expandirmos os horizontes.

Repensar a forma como olhamos para os alimentos

Pergunta com rasteira: qual é a parte mais saborosa do alho francês? Não percebemos bem como isto foi acontecer, mas a certa altura, ainda durante o século XX, convencionou-se que a parte branca era a mais saborosa - e por isso valiosa. Criou-se então o hábito criminoso em muitas casas de cortar a extremidade verde e deitá-la imediatamente fora. Pela simples razão de ter uma textura ligeiramente diferente e de não ser branca. O mais engraçado é que a parte mais saborosa do alho francês são as barbas - as pequenas raízes que quase todos ignoram. Salteadas com um fio de azeite e um pouco de alho picado ficam uma maravilha.

Reduzir o desperdício passa também por mudar a forma como olhamos para um alimento. Aquilo que fomos educados a considerar desperdício pode na verdade ser um precioso ingrediente. Como acontece com as sementes do melão, a primeira coisa que 99,9% das pessoas deita fora quando abre o fruto. Ora, as sementes dão uma óptima bebida fresca - da mesma forma que se faz uma bebida de amêndoa ou aveia. E as cascas ou as ramas? Salvo raras excepções, todas são comestíveis e quase todas elas podem acrescentar sabor a um preparado ou a um prato - seja num pesto, num caldo ou reduzido a pó.

Dica extra: compostar

Só quando esgotamos todas as possibilidades de extrair nutrientes e sabor de um alimento devemos finalmente considerar a hipótese de lhe dar um fim de vida. E não, não falamos de pôr num saco preto, que depois seguirá para o caixote do lixo e por sua vez para o camião que o levará ao aterro ou à central de incineração. O fim de vida deve, na verdade, ser um recomeço. É isso que a compostagem proporciona.

O processo de decomposição da matéria orgânica vai reduzi-la à sua forma mais básica, que depois pode servir para voltar a nutrir os solos que suportam o crescimento dos alimentos que comemos. Há várias formas de compostar, desde um contentor fechado à vermicompostagem (com recurso a minhocas), passando por processos mais mecanizados e até industrializados.

No limite, qualquer um deles é válido - desde que permita alcançar o objectivo de completar o ciclo de vida (e assim devolver a matéria orgânica ao solo). No nosso caso, em Telheiras, temos um pequeno compostor eléctrico que funciona com temperatura, trituração e uma cultura microbiana que acelera o processo. Mas, num contexto caseiro, um compostor de jardim será mais do que suficiente. Alternativamente, aparecem cada vez mais programas de compostagem comunitária - aqui em Lisboa utilizamos regularmente o compostor de Campolide.

Com tanta informação de fácil acesso, sempre na palma da nossa mão, já não há desculpas para continuarmos a gerar desperdício em volumes astronómicos. Com os Kitchen Dates queremos sensibilizar e inspirar todos à nossa volta para a necessidade de mudar e para a urgência em ganhar consciência do impacto que as nossas acções têm - na nossa saúde e na do planeta.

Os autores desta crónica não escrevem segundo o Novo Acordo Ortográfico

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