Verdes Hábitos

Os hábitos também se mudam. No combate ao estado de emergência climática, todas as semanas damos a conhecer novas ideias para mudar velhas rotinas. Com Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo.
Para ouvir todas as sextas-feiras, às 18h40.

Cinco passos para chegar a uma indústria têxtil mais sustentável

Leia a crónica de Salomé Areias, da Portugal Fashion Revolution.

Aqui há tempos, saiu um artigo de Martin Lukacs que explica como o Neoliberalismo tornou a luta contra as alterações climáticas estritamente individual, em vez de colectiva. Ou seja, seguindo um sistema em que só tu lutas pela mudança, mas não a tua empresa. Como se só tu tivesses o poder de mudar o mundo através dos teus hábitos de consumo e, só então, esperar que as marcas ajustem a produção sem perder dinheiro (ou, idealmente, ganhando dinheiro com isso). Como se o acto de consumir per se fosse o único veículo para a mudança. Não é! E esta responsabilização do consumidor é, no mínimo, injusta e perigosa.

O Fashion Revolution, movimento global pela transparência na indústria têxtil, um dos sectores mais comprometidos com a escravatura moderna e mais poluentes do mundo, vem relembrar cada cidadão: O poder não está só no teu cartão de crédito quando compras roupa. O poder está especialmente no teu direito de questionar e saber tudo sobre o que compras, na tua liberdade de escolher democraticamente quem te representa, que por sua vez vai influenciar as leis e os processos de produção e, se ainda assim tudo isto falhar, na tua vontade de participar activamente através da difusão desta informação e através da acção voluntária. Pelo menos um terço dos nossos dias é passado a trabalhar. As empresas são feitas por pessoas. E diferentes níveis de poder de decisão permitem tomar decisões corporativas com diferentes impactos. Uns menores, outros maiores, mas todos seguramente com maior amplitude do que a tua compra individual.

As corporações posicionam-se convenientemente como agentes passivos no que toca a pegada ecológica, ainda que tenham de longe o maior peso da equação. Uma fotografia de Amer Ghazzal num mural em Londres, mostra-nos um grafitti de Lord Kitchener que aponta para nós e diz "Your country needs you... to recycle". O teu país precisa que recicles - o que consomes. O teu país precisa sobretudo que continues a consumir. E que penses que é a reciclagem, e não a redução do consumo, que vai salvar o futuro. O teu país precisa que acredites que o futuro de todos depende de ti, e não das marcas. Pois as marcas estão só à espera que lhes compres mais ténis de fio de pesca ou mais calças de ganga de algodão reciclado, para fabricarem mais produtos iguais no Vietnam ou no Bangladesh por tuta e meia. E quanto mais poliéster reciclado comprares, mais garrafas PET as empresas vão comprar para transformar.

Espante-se quem ainda não conhece a prioridade dos R"s: A solução não é a reciclagem, mas sim a redução. Sendo que reciclar sem reduzir é, em boa verdade, um problema ainda maior para o sector têxtil, que tem de lidar com a sobreprodução, destruição de stock, emissões de CO2, desperdício de água, contaminação do solo e oceano, desertificação, exploração laboral, entre vários outros problemas, e cuja reciclagem é altamente ineficiente. Embora hajam inúmeros esforços neste sentido, é sabido que reciclar roupa com mistura de fibras (algodão, poliéster e elastano, por exemplo) é quase impossível, e a ser possível, implica ainda métodos de difícil acesso e/ou tóxicos para o ambiente.

O futuro depende sim da desaceleração, supressão da obsolescência planeada e prolongamento do ciclo de vida da roupa que já existe, dispendendo a menor energia possível para esse efeito. Promover o que é reciclado, sem considerar o reciclável, e muito menos travar a produção, é trazer biliões e biliões de roupa todos os anos para este mundo, e vê-los a amontoar até à eternidade dos tempos, pois a grande maioria é feita de plástico, como é o caso do poliéster e da maioria dos casos da chamada "pele vegan", cruelty-free ou faux fur. Mesmo que reciclável, e por conseguinte, uma vez reciclada, cada peça criada em minutos vai cá ficar por centenas de anos a contaminar o solo, a água e o nosso organismo.

Podíamos escrever aqui uma lista de 5 passos sobre como ser um consumidor de Moda eticamente perfeito, mas em vez disso, vamos enumerar 5 passos para impulsionar a acção colectiva por uma indústria têxtil mais sustentável.

Na tua comunidade: Como explica Alberto Alemanno no TedX Brussels, num sistema democrático, dizem-nos que há duas maneiras de mudar o mundo: votando, ou candidatando-se a um cargo público. Contudo, há inúmeras outras maneiras de aproveitar o nosso potencial para o mesmo envolvimento cívico. Todos nós nos vestimos, queremos seguir códigos de beleza, queremos exprimir a nossa identidade na forma como o fazemos. A Moda é um tema de conversa tão mundano como qualquer outro. Um gesto tão simples como trazê-lo para a mesa do café e questionar a origem da nossa roupa pode, não só trazer respostas úteis para todo o grupo de participantes, como também estimular a sua difusão por outras mesas de café Portugal fora. Por outro lado, podes começar a ler sobre um assunto que te desperte a curiosidade e a questionar directamente orgãos públicos locais com maior capacidade de resposta, como associações têxteis, ou até mesmo dirigentes partidários. Escolhe o lado do problema que mais te preocupa e une-te a uma organização que acreditas poder ajudar com o teu talento ou conhecimento, durante algumas horas por semana. Para além do Fashion Revolution Portugal, há outras associações dependentes do trabalho voluntário para atenuar o impacto ambiental da indústria têxtil. Entre várias tarefas, podes ajudar na organização de eventos (mercados de trocas, conferências, manifestações, exibição de documentários), usar as tuas plataformas de media, falar em palestras ou dar formações que capacitem as pessoas a criar a própria roupa ou a prolongar a vida da roupa que já existe. Para saber mais, envia mail para portugal@fashionrevolution.org

No trabalho: Nem todos os empregadores podem corresponder a cem por cento aos valores do colaborador, mas até onde vai a tua liberdade para mudar as políticas internas da empresa, começando por pequenos passos? Dentro daquilo que podes controlar, o que podes alterar para melhor? A mudança pode ser tão simples como acabar com as colheres de plástico no escritório. Mas se trabalhas na indústria têxtil ou do calçado, seja no sector da educação, design, produção, distribuição, gestão de produto, ou vendas, estás seguramente a par da toxicidade do sistema do ponto de vista operacional. E, felizmente, há zonas cinzentas que são mais ou menos passivas de ser revistas, e espaço suficiente para novas ideias de grande impacto, cuja implementação não interfere nem com o modus operandi, nem com o modelo de negócio, tampouco com o orçamento. Pode acontecer que nunca ninguém tenha questionado porque vêm as encomendas embaladas em plástico à unidade, ou que simplesmente nunca ninguém tenha posto certas propostas na mesa, como favorecer a escolha de tecidos com uma só fibra têxtil, por exemplo. Em muitos casos, há chefias que nunca foram sensibilizadas para determinados problemas.

Na escola: Se és estudante de Moda ou de uma área similar, a tua insistência em adquirir determinadas valências ou informação tem boas probabilidades de ser atendida pela instituição. Podes reunir os teus colegas, professores, associação de estudantes, ou até conselho directivo, tanto para pedir nova bibliografia, introduzir novas temáticas ou novas técnicas mais sustentáveis no plano curricular, ou sugerir novas questões de investigação para resolver problemas emergentes da indústria que não estão a ser resolvidos. Para além da tua

formação, há muitos outros eventos que podes organizar na tua escola, como conversas, conferências, documentários, ou mercados de trocas. Se gostavas de tornar-te um embaixador-estudante do Fashion Revolution e organizar eventos na tua escola, envia mail para portugal@fashionrevolution.org

Nas redes sociais: Podes atenuar a tua pegada ecológica mudando os teus hábitos de consumo. Mas podes também começar já hoje a usar o poder das redes sociais para perguntar às marcas quem fez a tua roupa, a que comprares e a que já compraste. Tira uma fotografia a uma peça de roupa e à respectiva etiqueta e escreve um post direccionado à marca em questão, com o hashtag #whomademyclothes. Em muitos países no mundo, as marcas de fast-fashion já respondem a esta campanha do Fashion Revolution, fruto do mediatismo e pressão do consumidor. Mas mesmo que não respondam ao teu post, se conseguires inspirar os teus pares a fazerem o mesmo, em breve a voz colectiva terá mais força. As tuas redes sociais podem ser usadas, não só para obteres mais informação sobre as marcas e o seu produto, mas também para difundires essa informação com os teus seguidores. Questiona sobre a quantidade de roupa que produzem por ano, quanta roupa não vendida destroem por ano, quem são os seus fornecedores, qual a percentagem de uma peça de roupa alocada à mão-de-obra, qual a percentagem de plástico, ou tudo aquilo que sempre quiseste saber. Tens esse direito.

Enquanto consumidor: Por fim, do ponto de vista individual, também há uma série de decisões que podes tomar no teu dia a dia, que segue também uma ordem de prioridades. Em primeiro lugar, ajuda ter uma lista que detalhe o mais possível o que te faz falta, evitando ir directamente ao centro comercial para encontrar "algo que gostes" de forma aleatória. Podes até encontrar o que precisas na tua casa, pois em média acredita-se que cerca de um terço da nossa roupa está por usar nos nossos armários, há pelo menos um ano. Com objectivos mais definidos, aquilo que procurares em tua casa, podes procurar na casa dos teus amigos ou familiares. A roupa poderá ser-te dada, emprestada, ou trocada por algo que tenhas e já não te faz falta. Os mercados de trocas, onde é possível levar artigos que já não usas e trocar por outros, são lugares perfeitos para quem não quer gastar dinheiro e precisa de uma oferta maior e mais diversificada. Insistir nos cuidados com a roupa (como é usada, lavada, engomada, e guardada) e aprender algumas técnicas de costura como fazer bainhas, colocar remendos, ou coser um botão, pode fazer a diferença entre deitar mais poliéster no oceano ou prolongar o seu ciclo de vida por mais um par de anos. As lojas em segunda mão são uma maneira barata e criativa de reintroduzires o desperdício no ciclo de consumo, mas se a habilidade para a costura for ainda maior (ou se tiveres disponibilidade fina nceira para pagar a um costureiro), podes ter o previlégio de usar roupa feita à medida e para o teu estilo. Recomendamos a compra de uma peça nova - de preferência directamente ao artesão no comércio local, produtos resultantes de upcycling de resíduo têxtil, e/ou numa marca que te saiba explicar com absoluta transparência como a sua produção é ética e sustentável - apenas depois de esgotadas todas as hipóteses anteriores. A indústria têxtil produz 150 biliões de artigos todos os anos. Se parássemos de produzir neste preciso momento, haveria roupa e calçado de sobra para todos os 8 biliões habitantes deste planeta, durante vários anos.

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