Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Desporto e sustentabilidade ambiental: uma relação "excelente" mas "problemática"

Numa altura em que ainda decorre o Mundial de futebol no Catar, no Verdes Hábitos fala-se de sustentabilidade ambiental, da relação entre o desporto e o ambiente e da importância da Agenda 21 do Movimento Olímpico. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, afirma que o desporto "pode ser o despertar" para se olhar para as questões ligadas às alterações climáticas, como a poluição do ar.

Se é verdade que o desporto traz qualidade de vida, também é verdade que pode limitá-la, por exemplo, através dos grandes eventos desportivos que atraem multidões, desde logo devido aos impactos ambientais, ao nível do ruído, da ocupação de áreas naturais sensíveis e do aumento das emissões de gases com efeito de estufa e da poluição do ar. Num momento em que estamos praticamente a meio do Mundial do Catar, Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, explica que o desporto, o ambiente e o desenvolvimento sustentável podem ter uma "relação excelente" mas também "problemática".

"Podemos e devemos olhar para o desporto como uma forma de envolver ainda mais as pessoas naquilo que é a salvaguarda do ambiente, o papel da melhoria da qualidade de vida, o olharmos para o desporto não apenas como desporto mas para a atividade física que temos no dia a dia e que pode ter a ver com o andar a pé nas cidades, o utilizar de espaços verdes. Esta ideia de olharmos para o desporto de uma forma efetivamente abrangente é absolutamente crucial", afirma o especialista.

"No nosso dia a dia em Portugal, podemos ter viagens partilhadas, usar transportes públicos, os resíduos que são gerados antes, durante e depois do jogo de futebol, as condições do estádio em termos de iluminação, de relvado, de materiais utilizados e quando olhamos para o Catar vemos a pegada enorme que temos para aqueles espaços estarem todos condicionados do ponto de vista da climatização e os custos energéticos que isso tem e o facto de eu estar a ir buscar essa energia a combustíveis fósseis", refere.

Os problemas e as vantagens do desporto no ambiente

Cada modalidade desportiva tem a sua pegada ecológica. "Se temos um desporto de massas, com muitas pessoas a assistir, ou com muitas pessoas a participar, aí tenho um forte impacto da construção da infraestrutura, um forte impacto nas deslocações, um forte impacto em tudo aquilo que é o consumo, como a compra de camisolas ou calções."

Francisco Ferreira dá o exemplo do golfe, que "implica estar a destruir paisagem natural importante". "Mas se escolher bem o sítio posso reduzir essa pegada, se estiver a utilizar águas residuais ou urbanas para a rega é completamente diferente de estar a usar água de um furo. A mesma coisa numa piscina: posso ter a piscina com água aquecida a gás natural, ou posso ter todo um conjunto de coletores solares que ajudam a reduzir essa pegada", sustenta.

No caso da orientação, "um desporto de natureza", "tenho que ter cuidado para não a danificar, e não deixar resíduos".

"Cada caso é um caso, o importante é que, ao concebermos qualquer atividade desportiva, seja ela permanente, seja numa atividade esporádica, tenhamos a sustentabilidade em todo o nosso pensamento e consigamos fazer essa minimização dos impactos e utilizar a força do desporto em comunicar, quer aos atletas, quer a quem está do lado de fora, aquilo que são comportamentos sustentáveis."

Mas também há vantagens para o ambiente no que toca às práticas desportivas. "Quando falamos de sustentabilidade falamos de qualidade de vida, que está relacionada com uma boa saúde e o desporto é um elemento fundamental. Em muita da atividade desportiva queremos ter um ar puro, queremos uma natureza que pode ser usufruída, queremos ter um pavilhão com uma boa qualidade do ar interior. Tudo isto obriga-nos, através da prática desportiva, a defender e a pugnar por estes valores", diz Francisco Ferreira.

O presidente da associação Zero recorda que já houve jogos olímpicos em cidades "muito poluídas", onde estava em causa a "saúde dos atletas e das pessoas que vão assistir". "O desporto pode ser o despertar para eu olhar para o ordenamento do território e todo um conjunto de valências e questões que permitem a atividade desportiva nas devidas condições, para não prejudicar os atletas à custa do papel que a poluição possa vir a ter."

Como organizar um evento desportivo sem por em causa a sustentabilidade?

Para a organização de um evento desportivo ou de uma infraestrutura como um estádio, é "fundamental que nós comecemos por olhar logo para o território". "O local é muito importante não apenas para garantir que não estou a por em causa o funcionamento da minha cidade ou determinadas zonas que devem ser salvaguardadas do ponto de vista natural, mas também para garantir a acessibilidade das pessoas."

Voltando referir o Catar, Francisco Ferreira reforça que, quando se fala de desenvolvimento sustentável, "eu não posso olhar apenas para o aspeto ambiental, tenho que também olhar para o aspeto social". "Sabemos das questões associadas aos trabalhadores que estiveram na construção de muitos desses estádios e do respeito pelos direitos humanos", reforça.

A sustentabilidade no movimento olímpico

Foi em 1994, nos Jogos Olímpicos de inverno, que a questão da sustentabilidade entrou no discurso do Comité Olímpico, mas é apenas em 1999 que o assunto começa a ganhar peso com a Agenda 21.

Francisco Ferreira dá o exemplo dos Jogos Olímpicos de verão, em Londres, em que houve "um conjunto de preocupações absolutamente brutais, desde transportar materiais de barco para evitar ir de camião, ao tipo de materiais utilizados".

"A partir daí a fasquia ficou mais alta, os Jogos que viriam a ter lugar em Pequim ou Rio de Janeiro tiveram já esta matriz da sustentabilidade em jogo e cada vez mais as exigências vão ser maiores."

O papel do desporto escolar no ambiente

As escolas também têm um "papel crucial" na promoção da sustentabilidade no desporto. Segundo Francisco Ferreira, "o desporto escolar faz parte da ética no desporto" e, por isso, "as escolas deveriam assegurar que, do ponto de vista dos seus equipamentos, estão em linha com a salvaguarda de valores ambientais e de minimização da pegada", através, por exemplo, da utilização de águas quentes nos balneários ou dos painéis fotovoltaicos nos ginásios.

"Acima de tudo, passar a mensagem de que o desporto nos deve levar a promover a qualidade de vida e o trabalho em equipa. A sustentabilidade é tudo isso: valores económicos, sociais e ambientais. A escola é uma altura de crescimento, de aprendizagem e de capacitação que temos que aproveitar para uma visão que não é a da competição, mas sim da valorização daquilo que é a ética desportiva nesta componente ambiental."

"Tomara nós termos muitos atletas a passarem, nos eventos desportivos, a mensagem da importância da salvaguarda do ambiente. Termos nos atletas verdadeiros embaixadores das causas da sustentabilidade e é esta mensagem que deve começar nas escolas", defende o especialista.

Quais as boas práticas ambientais no desporto?

A sustentabilidade no desporto pode também ser praticada um pouco todos os dias, por exemplo, andando a pé sempre que possível.

Francisco Ferreira dá outras sugestões: "Olharmos para o espaço que nos rodeia para cuidarmos dele. Acima de tudo, quando usamos espaços naturais, termos o máximo de cuidado; quando utilizamos ginásios ou outras infraestruturas desportivas perguntarmos às câmaras municipais, às escolas ou a quem gere estes espaços se estão a ter cuidados ou não; garantir que o espaço que utilizo não é degradado nem prejudicado em termos de resíduos."

"Se eu for andar à vela num barco ou usufruir de um rio, perceber que aquele rio é extremamente importante e, para isso, eu tenho que o salvaguardar em todas as vertentes. Quer pratiquemos desporto ou não, nós precisamos de garantir que o ar, a água, os solos e a biodiversidade estão preparados para a nossa prática desportiva e que nós, através dessa prática desportiva, conseguimos melhorar a nossa qualidade de vida e, ao mesmo tempo, promover essa mesma sustentabilidade", conclui.

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