Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

"Epidemia mundial." A luta contra os plásticos e a aposta em soluções "alternativas" e "reutilizáveis"

A ONU deu "um passo muito importante" ao aprovar um mandato para as negociações de um tratado mundial sobre os plásticos, que vai permitir um novo tipo de debate internacional sobre este tipo de poluição e "abrir a porta para uma abordagem que olha para todo o ciclo de vida do plástico" e não apenas para o fim da linha, como tem sido até aqui. No Verdes Hábitos desta semana, Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, sublinha a urgência de "fechar a torneira da entrada dos plásticos", dando algumas sugestões para uma maior durabilidade e reutilização dos produtos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, no início deste mês, um mandato para as negociações de um tratado mundial sobre os plásticos. Segundo Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, dados recentes demonstram que nos últimos 20 anos houve uma duplicação da quantidade de plástico que entra no mercado. Por isso, a aprovação deste mandato é considerada como "uma decisão histórica".

Em declarações à TSF, Susana Fonseca explica que o que saiu da reunião da ONU foi um mandato para que "seja negociado um tratado global sobre plástico que seja vinculativo". "Este tratado é muito importante porque tem uma abordagem nova em termos do debate internacional sobre os plásticos", afirma, sublinhando que "foi um passo muito importante e uma grande vitória para todos os envolvidos".

Até ao momento, o debate tem sido centrado no fim da linha, ou seja, na forma "como vamos resolver o problema de resíduos de plástico que são omnipresentes, desde os de grandes dimensões aos de menor dimensão, como os microplásticos". Este mandato, que foi agora aprovado, "abre a porta e apresenta como a abordagem correta o olhar para todo o ciclo de vida do plástico".

"Agir numa área fundamental, que é no início. Ou seja, quando o plástico está a entrar, perceber se ele realmente tem que entrar, se não podemos encontrar soluções alternativas e reutilizáveis em vez de descartáveis. Fechar a torneira da entrada de plásticos", diz.

O futuro tratado mundial é encarado como "uma esperança" de que possa "trazer uma lufada de ar fresco na forma como se olha para os plásticos e perceber que temos de trabalhar a montante, logo no início na cadeia".

Antes da elaboração deste tratado falta, no entanto, toda a parte de negociações, que "é o passo maior". "Vai ser difícil, mas há um relativo consenso na comunidade cientifica, até a nível político, há um reconhecimento de que não podemos continuar a fazer mais do mesmo."

Para Susana Fonseca é importante fazer mais do que apenas reciclar. "A reciclagem não nos vai salvar dos plásticos. É um aspeto muito importante, um setor que temos muito a fazer em termos de desenvolvimento, mas precisamos de agir antes disso e fazer com que aquilo que entra no mercado seja mais durável, seja reutilizável."

A "epidemia" dos plásticos

O presidente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente classificou o plástico como uma "epidemia". Susana Fonseca reforça que o plástico está por todo o lado, "desde o plástico de grande dimensão até à questão dos microplásticos, que até estão a ser detetados na placenta", sendo também "uma grande preocupação para a saúde humana".

"É de uma epidemia que estamos a falar, uma epidemia mundial. Os plásticos não param nas fronteiras, eles vão pelo ar, pelo mar. O mundo é só um e o plástico já tem esta omnipresença por todo o globo e é por isso fundamental que haja esta ação concertada a nível internacional para se resolver o problema."

Pandemia de Covid-19 e o aumento dos plásticos. "As pessoas acabam sempre por cair no uso do descartável"

Durante a pandemia de Covid-19, houve um aumento da poluição causada pelos plásticos. Na perspetiva de Susana Fonseca, "não tinha de ser assim", dando o exemplo das máscaras faciais.

"Não obstante, por exemplo, no caso do exemplo português, termos a indústria têxtil mobilizada a produzir máscaras certificadas, infelizmente aquilo que vimos foi um progressivo depender das máscaras descartáveis. Numa circunstância em que podíamos estar a apoiar a indústria nacional ao mesmo tempo que estávamos a apoiar o ambiente, vimos que as pessoas acabam sempre por cair no uso do descartável", lamenta, assegurando que as máscaras reutilizáveis "duram muito tempo e são economicamente mais vantajosas".

O facto de as pessoas recorrerem aos descartáveis "representa a forma como pensamos enquanto sociedade". "Perante um problema, vamos usar o descartável, não pensamos noutras soluções. Não pensamos que a crise pandémica, que ainda atravessamos, não é a única crise que temos em cima da mesa. Temos outras, nomeadamente, do ponto de vista ambiental. Não podemos esquecer essas outras crises só porque temos uma nova crise em cima da mesa. Não foi nada animador a forma como a sociedade reagiu perante uma nova crise."

Sistema de depósito com retorno atrasado implica desperdício de quatro milhões de embalagens por dia

Em Portugal, em 2018, foi aprovada na Assembleia da República, um sistema de depósito de embalagens descartáveis com retorno, em que "ao comprarmos embalagens de bebidas, pagamos um depósito e, para recebermos o depósito, temos de entregar essa embalagem num local qualquer".

Susana Fonseca considera que este sistema já "demonstrou ser altamente eficaz na recolha de resíduos". "Infelizmente era para ter entrado em vigor a 1 de janeiro de 2022, mas ainda não foi para a frente porque o Governo não implementou as medidas necessárias, nomeadamente a regulamentação deste sistema para que depois os agentes do setor se organizassem e desenvolvessem as soluções."

"Temos a esperança que em breve haja pelo menos a consulta pública da regulamentação deste sistema de depósito. Depois terá que haver uma versão final, que é publicada em Diário da República, e temos que esperar mais um ano a partir dessa data para que os retalhistas e as marcas se organizem no sentido de ter o sistema montado e termos as máquinas para recolher as embalagens", refere, adiantando que haverá pelo menos um ano e meio de atraso na implementação deste sistema, o que significa que, por dia, serão desperdiçadas quatro milhões de embalagens de plástico, metal ou vidro.

Como ser mais ativo na luta contra a poluição causada pelos plásticos?

Susana Fonseca deixa algumas sugestões para a eliminação dos plásticos no dia a dia. É fundamental a utilização de materiais mais seguros, como o vidro ou o aço inox, para, por exemplo, "armazenar ou colocar no micro-ondas".

O maior desafio está nas embalagens. Quando vamos às compras devemos apostar em sacos ou recipientes próprios para "evitar embalagens desnecessárias", bem como nas compras a granel. "Soluções que nos permitam reencher os recipientes, em vez de estarmos sempre a trazer embalagens novas para casa."

Outra prática que pode ser adotada é fazer com que a vida dos produtos seja "longa". "Cuidar bem deles, repará-los se possível. Se já não precisam, em vez de deitar fora, vender ou trocar. Ser cidadãos ativos nesta troca e procura de encontrar novas soluções antes de colocar como resíduo", alerta.

"Se vai, de facto, colocar algo como resíduo, deve colocá-los nos locais corretos, nunca abandonar no ambiente e contribuir para uma maior separação seletiva dos materiais", remata.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de