Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

"Estão por todo o lado." Os perigos da poluição causada pelas substâncias químicas

A poluição química contribui não só para o aquecimento global, a destruição de habitats selvagens e a perda da biodiversidade, mas é também um perigo para a vida e saúde humana, podendo resultar em doenças graves, como a diabetes ou o cancro. Tendo em conta o cenário europeu, no Verdes Hábitos desta semana, Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica que substâncias estão em causa e quais as consequências do seu uso, e dá algumas dicas para reduzir a nossa exposição a este tipo de produtos.

As substâncias químicas e produtos tóxicos são um verdadeiro perigo para o planeta Terra, sendo que a poluição deles resultante afeta não só o ambiente, contribuindo para o aquecimento global, a destruição de habitats e a perda de biodiversidade, mas também tem consequências ao nível da saúde e vida humanas. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, reflete sobre este tipo de poluição, explicando que os produtos químicos estão "por todo o lado" no nosso dia a dia, nomeadamente, no que "comemos, vestimos, produtos que usamos, ar que respiramos, água que bebemos, cosméticos, materiais de construção, no carro".

"Quando pensamos nos alimentos que consumimos, sabemos que, por vezes, existem resíduos dos pesticidas, que foram usados durante a produção e podem ir acumulando no nosso corpo. Quando compramos uma peça de roupa, por exemplo, mais ligada ao uso no exterior, ou até em utensílios que temos na cozinha, podemos ter substâncias que são usadas para impermeabilizar e que são também elas perigosas. Os microplásticos também já se encontram em praticamente todo o planeta, nos nossos alimentos, no sal, na água, nos cosméticos, detergentes, tintas. Felizmente o nosso corpo tem algumas barreiras e consegue proteger-nos e livrar-se destas substâncias perigosas, mas nem sempre isso acontece", explica, sublinhando que, "de qualquer modo, a União Europeia é o conjunto de países, a nível mundial, mais avançado na proteção da saúde humana em relação à presença de substâncias químicas perigosas".

Um estudo científico divulgado este mês alerta que o "cocktail de produção química" está a ameaçar os sistemas terrestres, tendo um "impacto direto em processos biológicos e físicos fundamentais para a nossa vida".

"Por exemplo, quando usamos pesticidas eles não têm apenas um impacto positivo no sentido de irem combater determinado tipo de pragas, mas acabam também por ter um impacto em insetos que não são alvo e que são importantes para o funcionamento dos ecossistemas. Através da poluição estamos a criar mudanças nos ecossistemas que podem vir a por em causa a estabilidade que nós necessitamos para podermos viver com qualidade no planeta Terra", explica Susana Fonseca.

Recorrendo a várias fontes de informação, os cientistas responsáveis por este estudo referem-se a esta questão "do aumento da produção e libertação no ambiente" com aquilo que designam por "novas entidades", ou seja, "substâncias que estão a ser introduzidas no ambiente, muitas delas, novas, ou seja, que não existiam na natureza", dado que "somos nós, humanos, que as criamos, mas também de outras, que já existindo na natureza, estamos a libertá-las de uma forma muito significativa".

"Estamos a falar de uma poluição onde se nota que a quantidade de poluentes que estamos a colocar no ambiente não é compatível com a capacidade que o próprio ambiente tem para processar essa mesma poluição. Mesmo do ponto de vista da nossa capacidade enquanto sociedade para avaliar e monitorizar os impactos, já estamos a introduzir mais substâncias do que as que podemos controlar. Começamos a ter contacto com substâncias antes mesmo de saber se elas são seguras e isso é algo que tem de ser alterado a bem não só da nossa geração, mas das gerações futuras", considera, dando o exemplo de que a "massa total de plásticos existente no planeta atualmente excede a massa total de todos os mamíferos vivos". "Este é um claro exemplo de como há um limite que foi ultrapassado no que toca às substâncias novas que estamos a introduzir no ambiente sobre as quais não temos ainda uma noção clara de todos os seus impactos."

Consequências da poluição química, o cenário e as estratégias na Europa

Susana Fonseca nota que há vários estudos que indicam que a presença de substâncias químicas, desde pesticidas, biocidas, produtos farmacêuticos e metais pesados, está a crescer, quer no sangue ou noutros tecidos do corpo humano.

"Há cada vez mais provas de que estes químicos estão a ter impactos na nossa saúde, desde a diabetes, problemas de cancro, infertilidade e em termos de desenvolvimento cognitivo. Os estudos são muito claros de que há riscos e consequências na nossa saúde da presença desta diversidade de químicos perigosos com os quais temos contacto todos os dias", afirma.

Na Europa, dados do eurobarómetro referem que "a área das substâncias químicas é uma das que mais preocupa os europeus".

"As pessoas têm muitas dúvidas, muitos receios. É importante que, do ponto de vista politico e técnico, seja dada uma resposta para que as pessoas possam acreditar que não estão a ser ameaçadas por esta presença de químicos. O que sabemos é que, até 2007, até entrar em vigor o regulamento Reach, 90% das substâncias químicas que circulavam no mercado europeu, não tinham informação sobre a sua segurança para a saúde humana e o ambiente."

Com a entrada em vigor do regulamento Reach, a situação mudou e foram instituídos princípios "muito importantes". "Desde logo, se a substância não estiver registada no registo europeu não pode circular no mercado."

Além disso, "a responsabilidade passou a ser de quem coloca no mercado garantir que a substância é segura e foram dados novos poderes em termos de restrição de utilização de determinadas substâncias que têm estes impactos significativos na saúde humana e no ambiente".

A nova estratégia de Bruxelas passa por abordar as substâncias químicas em grupo, em vez de substância a substância. "Aquilo que esta estratégia europeia pretende é olhar para os químicos como um grupo e identificar as características que naquele grupo de substâncias podem apontar para a perigosidade dessas mesmas substâncias."

"Depois, aplicar mais o princípio da precaução, no sentido de só permitir a utilização de químicos que já estão identificados e apenas em situações muito específicas em que se considere que é um uso essencial", acrescenta, sublinhando a importância do "efeito cocktail". "Durante o dia temos contacto com muitas substâncias diferentes, mas quando estamos cientificamente a analisar uma substância, fazemo-lo em isolado e nós não vivemos em isolamento. Há que ter em conta este efeito cocktail, a interação entre as diferentes substâncias e as fontes que podemos ter de cada substância e isso também está a ser ponderado como uma linha estratégica para o futuro."

"Infelizmente, a UE, sendo este local no mundo com maior cuidado em relação aos químicos, continua a produzir no seu espaço e a exportar para outros países, que não têm ainda essas proibições, químicos que sabemos que não deveriam circular. As substâncias químicas não param nas fronteiras. Podemos estar a exportá-las para serem utilizadas em produtos, por exemplo, na Ásia e depois esses produtos voltam a entrar nas nossas fronteiras", alerta ainda Susana Fonseca.

Em Portugal, "não há grandes diferenças" daquilo que acontece no espaço europeu. "A legislação, essencialmente, é a mesma aplicável a todos os países. Pode haver algumas diferenças, porque Portugal não tem, muitas vezes, os recursos afetos a esta área que outros países têm, mas, no geral, podemos dizer que Portugal, em termos de legislação, está em linha com aquilo que acontece a nível europeu."

O que fazer para nos protegermos das substâncias químicas?

A nível estrutural, Susana Fonseca defende a criação de "uma sociedade em que as pessoas tenham a confiança de que os produtos que estão a usar não têm substâncias que possam ser cancerígenas ou tóxicas". "Aplicar o princípio da precaução e proteger, em primeira linha, a saúde humana e o ambiente."

Também é fundamental atuar a nível individual: "Usar menos produtos no nosso dia a dia, procurar produtos com menos ingredientes, mais simples, ingredientes naturais, com rótulos ecológicos, nomeadamente, o rótulo ecológico europeu, bem como uma alimentação biológica."

Susana Fonseca sugere ainda uma visita à página da Zero para mais informações sobre como os cidadãos podem proteger-se dos químicos perigosos no dia a dia. Através da aplicação Scan4Chem, que resulta do projeto europeu LIFE AskREACH, que envolve 13 países europeus e do qual a Zero é parceira, é possível também enviar pedidos de informação às marcas "para que todos possamos pressionar as empresas a deixarem de utilizar estas substâncias".

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