Verdes Hábitos

Os hábitos também se mudam. No combate ao estado de emergência climática, todas as semanas damos a conhecer novas ideias para mudar velhas rotinas. Com Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo.
Para ouvir todas as sextas-feiras, às 18h40.

Plasticus maritimus, afinal que espécie é esta?

Leia a crónica da convidada do Verdes Hábitos, Ana Pêgo, a criadora do projeto Plasticus maritimus.

A minha praia fica a 200 metros da casa onde vivi até ser crescida. É uma praia especial porque tem uma área de rochas muito propícia à formação de rochas de maré. Na maré vazia, estas rochas cheias de água do mar servem de refúgio a uma grande variedade de animais e plantas. Há pessoas que têm um quintal nas traseiras, eu tive a sorte de ter uma praia a dois minutos de casa, o quintal mais incrível que alguém pode ter.

Muitas vezes perguntam-me quando é que a minha preocupação com os plásticos marinhos começou. Eu nunca sei responder muito bem, talvez porque não tenha havido um dia exato em que tive uma revelação, no entanto, desconfio que os momentos que passei junto a estas poças de maré tiveram um papel decisivo. Foi lá que aprendi a gostar do mar. E quando se gosta de uma coisa, o mais natural é não sermos indiferentes a tudo o que com ela esteja relacionado.

Com tantos problemas no mar, porquê o plástico?

A lista de problemas relacionados com o mar é longa. Alguns exemplos: a subida da temperatura das águas devido às alterações climáticas; os problemas ligados à pesca excessiva; a poluição sonora provocada pelo tráfego marítimo; a poluição química (e por vezes invisível) proveniente de fontes diversas (derrames de petróleo, esgotos não tratados, etc.); a conservação das espécies.

Os plásticos foram a minha escolha porque representam 80% do lixo que existe nos oceanos. Para além disso, todas as evidências parecem apontar para a relação entre a presença de microplásticos nos oceanos e muitos problemas de saúde. As algas, os peixes e muitas espécies estão já a ser afetados. E o mais certo é que nós, humanos, estejamos já a sofrer também as consequências desta contaminação.

Beach cleaner ou beachcomber?

Beach cleaner é uma pessoa que faz limpezas das praias, em grupo ou de forma individual; beachcomber é alguém que recolhe lixo nas praias, mas não só. Um beachcomber torna-se uma espécie de colecionador que se interessa também pela origem e pela história dos objetos que encontra. Com o tempo, foi nisso em que me tornei. Para além das recolhas nas praias, tenho usado as coleções de objetos para fazer palestras, workshops e exposições e, deste modo, mostrar às pessoas de todas as idades as histórias incríveis dos objetos que aparecem na nossa costa.

Uma espécie que não existe, mas existe

Quando comecei a ter um contacto maior com este problema, pensei que seria importante dar a esta espécie invasora um nome científico, pois as coisas tornam-se mais concretas quando lhes damos uma identidade. Chamei-lhe Plasticus maritimus por razões óbvias: Plasticus porque é uma espécie feita de plástico e maritimus porque pode ser encontrada em todos os mares e zonas costeiras.

Desde então, e com o objetivo de alertar para as consequências deste problema na vida do planeta e para um uso mais sensato do plástico, criei um projeto de sensibilização e uma página de Facebook com este mesmo nome. Informar passou a ser a minha palavra de ordem.

Hoje já não podemos dizer "Ah, não sabia...."

A falta de informação leva a que nem sempre tenhamos consciência dos problemas ambientais. É o caso do plástico nos oceanos. Dois exemplos: há pessoas que continuam a usar pratos e copos descartáveis porque não sabem que esses objetos nem sempre são reciclados. Da mesma maneira, algumas pessoas lançam cotonetes pela sanita talvez porque nunca lhes passou pela cabeça que estes objetos fossem parar aos oceanos. De certeza que tudo seria diferente se todas as pessoas tivessem acesso à informação e conhecessem as consequências dos seus gestos.

É a verdade é que só há relativamente pouco tempo o plástico se tornou um problema e se começou a falar do assunto e, por isso, a informação ainda não chegou a todo o lado. Mas, quem já sabe, tem de começar a agir e a passar palavra, ainda por cima porque o problema se está a agravar.

Como vou muito a escolas, aproveito para deixar umas dicas/ alertas para a desplastificação destes espaços (vão reparar também que, ao banir o plástico, estamos a melhorar a alimentação):

- incentivar cada aluno a ter a sua garrafa reutilizável;

- guardar as sandes em caixas reutilizáveis (em vez de utilizar película aderente ou papel de prata para as embrulhar diariamente);

- criar um kit da escola para festas de aniversário, com copos, pratos e talheres reutilizáveis (mesmo que sejam de plástico, não serão de "usar e deitar fora")

- substituir pacotes de sumo de fruta por uma peça de fruta;

- colocar bolachas em caixas reutilizáveis (em vez de comprar embalagens com muito pacotinhos lá dentro);

- banir as largadas de balões.

Espero que todos tenham vontade de arregaçar as mangas, isto é: recusar todo o plástico que não é indispensável, procurar soluções alternativas e inspirar-se nas boas ideias que muitas pessoas vão tendo por esse mundo fora.

Porque já somos muitos, uma rede cada vez maior de pessoas que quer acabar com o plástico dos oceanos.

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