Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

"Problema grande" e "cada vez mais dramático". Eis o cenário de seca em Portugal

A falta de chuva e de água armazenada faz com que a situação de seca em Portugal continental se tenha agravado nos últimos tempos. A culpa é das alterações climáticas e a agricultura é uma das atividades mais afetadas. No Verdes Hábitos desta semana, Francisco Ferreira enumera algumas das soluções que devem ser consideradas para reverter o cenário atual de seca e, tendo em conta que, em casa, cada metro cúbico corresponde a uma tonelada de água, o especialista dá algumas dicas para um uso mais eficiente deste recurso no dia a dia.

De acordo com os últimos dados disponibilizados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), quase todo o território de Portugal continental está em seca severa ou extrema, um cenário que tem consequências não só para o ambiente, mas também para a vida animal e humana. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, fala de uma "situação que está a ficar cada vez mais dramática", dado que "em maio tínhamos quase todo o território em seca severa e um bocadinho em seca extrema e, neste momento, já temos um agravamento dessas condições".

"Temos a chamada meteorológica que tem a ver com a falta de chuva em relação àquilo que seria o normal para um conjunto de meses. Temos depois a chamada seca hidrológica, que é quando nós olhamos para os níveis dos rios e das albufeiras e se, do ponto de vista da precipitação e da pluviosidade nós estamos com uma situação complicada, não estamos muito melhor quando olhamos para a seca hidrológica. Temos, por exemplo, o Barlavento Algarvio com um nível de armazenamento na ordem dos 13%, quando o normal em junho seria na ordem dos 71%, o que significa que praticamente não temos água disponível para poder ser utilizada. Dependendo do local, temos mais usos agrícolas, mais usos para consumo humano, mas a agricultura tem sempre um peso muito grande", explica, dando ainda os exemplos das "bacias do Lima, com 18% quando o normal é 73%, a zona do Cávado, com 39% quando o normal é 72% e também os grandes rios, sendo que o Douro está com menos praticamente 16% em relação ao normal, o Mondego está dentro do normal, o Tejo com menos 20% e o Guadiana com menos 10%".

"Temos aqui um problema grande do ponto de vista da falta de chuva no território como um todo, temos uma situação particularmente grave nalgumas zonas à custa desta seca hidrológica, não temos água disponível para as atividades", alerta Francisco Ferreira.

Não se sabe se este será ou não um cenário permanente ou se poderá reverter em algum momento. "O que é facto é que quando nós olhamos para o total da precipitação dos últimos 50 anos, percebemos que a falta de chuva começa a ser muito mais sistemática. Enquanto no final do século XX havia um ano ou dois de seca, mas depois havia um ano mais húmido, chuvoso, e tínhamos um equilíbrio entre os vários anos, agora começamos a ter realmente anos seguidos de seca e de muito pouca chuva", afirma o especialista.

Seca? A culpa é das alterações climáticas

Para Francisco Ferreira, uma das principais causas para a seca são as alterações climáticas. A prova disso é, por exemplo, o anticiclone dos Açores, que está a ficar "mais forte e mais extenso, afetando a Península Ibérica. Muitas das superfícies frontais que passavam pela Península Ibérica e nos deixavam com chuva estão a deixar de passar por cá", esclarece, assinalando aquilo que se passa também no Norte de Itália, uma "situação verdadeiramente dramática com enormes restrições por causa da seca".

"Aquilo que se está a passar corresponde, infelizmente, àquilo que os cientistas já estavam a prever, principalmente, para a zona do Mediterrâneo e, nomeadamente, para a Península Ibérica, onde a par da falta de chuva, também podemos ter eventos meteorológicos extremos", refere. "Lembramo-nos daquilo que aconteceu na Alemanha no ano passado, ou seja, de um momento para o outro tivemos uma chuvada brutal e duradoura durante um conjunto de horas que levou a inundações com consequências efetivamente graves", recorda, exemplificando ainda o que se passa atualmente em Sydney, que está "numa situação extrema".

"É bom que nós realmente façamos esta leitura do que é um clima em mudança em todo o mundo. Infelizmente, no que respeita à seca, já sabíamos que a Península Ibérica seria uma das zonas que iria sofrer mais com estas variações da precipitação", lamenta.

Consequências da seca: agricultura é o setor que mais sofre

As consequências da seca são "efetivamente graves" para muitas das atividades económicas, mas a agricultura é "de longe" a mais afetada, seja ela de sequeiro ou regadio.

"A agricultura é responsável por um consumo muito grande, na ordem dos 70-75% do total de água utilizada nas diferentes atividades e isto põe em causa a produção agrícola. No momento em que estamos, com uma crise mundial de abastecimento e quando temos muitas pessoas dependentes dessa atividade, os prejuízos vão ser certamente muito grandes, não apenas na produção de cereais e de outros produtos, mas também depois na produção animal", defende Francisco Ferreira.

Além da agricultura, também o consumo humano é afetado, bem como a produção de energia hidroelétrica, "que é uma produção considerada renovável".

"À custa desta situação de seca, o Guadiana e o Douro já estão num regime de exceção naquilo que é o acordo entre Portugal e Espanha. Por causa de não ter chovido em Espanha, Espanha declarou esta situação e não nos precisa de enviar os caudais que estão na Convenção de Albufeira, ou seja, naquilo que é o acordo entre os dois países, e depois ainda temos os ecossistemas. Se tivermos ecossistemas autóctones, esses estão relativamente bem preparados para este clima mediterrâneo que, por vezes, é bastante severo, mas sem dúvida alguma que também a sua resiliência tem limites e, obviamente, podemos ter várias espécies que serão progressivamente afetadas", assegura.

Relativamente ao menor caudal dos principais rios portugueses, Francisco Ferreira reforça a importância do planeamento. "Nós vamos ter planos de região hidrográfica que vão estar em consulta pública e vamos precisar cada vez mais de nos entendermos com Espanha. Não é construindo mais barragens, porque não havendo água, não precisamos de a armazenar. Temos, acima de tudo, que aumentar - e muito - a eficiência e garantir caudais ecológicos. Essa é a prioridade para não pormos em causa a vida dos rios e dos estuários."

Mas o que são caudais ecológicos? Francisco Ferreira responde: "É uma avaliação daquilo que os rios necessitam para garantir a sua vida, que o ecossistema funciona e que tenho água doce a chegar ao estuário do Tejo ou do Sado, porque lá eu tenho mais de 60% das espécies oceânicas que precisam de um meio que não é nem totalmente salgado, nem de água doce. Precisamos de rios onde a salinidade não seja demasiado grande para determinadas espécies se reproduzirem. O caudal ecológico é, do ponto de vista biológico e hidrológico, aquilo que me garante que as funcionalidades do rio e das atividades humanas são asseguradas com o menor prejuízo possível."

Uso eficiente de água: um longo caminho ainda a percorrer

Francisco Ferreira garante que ainda há muito trabalho para fazer no que toca à mitigação dos efeitos da seca em Portugal. "A própria Assembleia da República disse-o e o Governo também reconhece que precisamos urgentemente de um plano de uso eficiente de água. Na prática, o Governo acabou por anunciar um conjunto de medidas de emergência para procurarmos ultrapassar esta situação, mas eu acho que as campainhas ainda não estão a soar suficientemente alto para as pessoas perceberem que nós não sabemos quando esta situação vai reverter e, portanto, precisamos de mais sensibilização, mas acima de tudo de mais ação. Deve fazer parte do nosso dia a dia este esforço de pouparmos e fazermos um uso sustentável da água para todas as valências", avisa.

Para a agricultura, o especialista considera que é "crucial" escolher as "culturas certas". "Não tem sentido estarmos a expandir para mais e mais regadio porque não vamos ter água suficiente, portanto, fazer seleção do tipo de culturas agrícolas e aumentarmos a eficiência e a forma como distribuímos a água para estes diferentes locais no país deverá ser suficiente se for bem planeado. Não tem sentido fazermos obras faraónicas, de passarmos água do Norte para o Sul, fazermos aquilo que se chamam os transvases. No nosso entender, isso é não apenas contraproducente, mas também contra uma gestão sustentável e respeitadora da dinâmica das diferentes bacias hidrográficas", sustenta.

Como poupar água no dia a dia?

Francisco Ferreira deixa algumas sugestões para que todos possamos poupar água no dia a dia. "Acima de tudo, temos que olhar para as nossas casas e perceber onde é que se gasta mais água. Vamos ver a nossa fatura de água, quanto é que nós gastamos de água por mês. Não sei se muitos têm noção, mas cada metro cúbico é uma tonelada de água e, portanto, vale a pena nós vermos esse gasto e tentar identificar onde é que podemos mexer."

Mas onde é que gastamos mais água? O especialista deixa alguns exemplos: "No banho, temos que reduzir um bocadinho o tempo que demoramos ou apostar em chuveiros de elevada eficiência, também ter cuidado com o autoclismo para garantir que usamos uma quantidade menor de água e ter atenção àquilo que se gasta na cozinha, na lavagem dos alimentos ou da louça."

"Isto partindo do princípio que não temos zonas para regar, que aí também os consumos são elevados e devemos limitar", conclui.

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