Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Renováveis, eficiência e eletrificação: os passos para a neutralidade climática

A Climate Analytics revela que a União Europeia não está a agir o suficiente para limitar a temperatura média global a 1,5 ºC, tal como define o Acordo de Paris. No Verdes Hábitos desta semana, Francisco Ferreira fala sobre a importância de alcançar a neutralidade climática até 2040, algo que poderá ser possível se a União Europeia apostar na "rápida eletrificação", "nas energias renováveis" e "na eficiência e poupança energética". Em Portugal, um dos passos mais importantes para a redução das emissões de gases de efeito de estufa é a preservação da floresta.

O Acordo de Paris, adotado em 2015, surgiu como uma nova etapa na resposta aos desafios das alterações climáticas, com o objetivo de travar o aumento da temperatura média global, descarbonizando as economias globais e limitando o aumento da temperatura a 1,5 ºC. Um novo estudo da Climate Analytics indica, no entanto, que a ação global continua "insuficiente" para cumprir estas metas. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, explica que o objetivo de neutralidade climática na União Europeia deveria ser atingido em 2040 e não 2050, como está previsto na Lei Europeia do Clima.

"Para estarmos em linha com o Acordo de Paris à escala mundial, temos de o fazer em 2044 e havendo uma responsabilidade ainda maior por sermos países desenvolvidos, em 2040 seria realmente a data para conseguirmos. Se na Europa estivéssemos em linha com o Acordo de Paris, o nosso objetivo de neutralidade climática deveria ser 2040 e não 2050", reconhece o especialista.

Mas o que significa o limite de temperatura a 1,5 ºC, definido no Acordo de Paris? Francisco Ferreira afirma que esta meta baseia-se "num conjunto de avaliações feitas por cientistas sobre aquilo que serão os impactos de um aumento de temperatura em relação à era pré-industrial, antes de continuarmos a queimar quantidades significativas de combustíveis fósseis, tendo em conta também toda a informação que já vinha sendo recolhida sobre aquilo que está a acontecer nas últimas décadas face às consequências das alterações climáticas".

"Durante vários anos, os cientistas diziam que um aumento de 2 ºC em relação à era pré-industrial era o limite. Acontece que, entretanto, estudos feitos na década anterior mostraram que bastava meio grau de diferença (entre 1,5 ºC e 2 ºC) para reduzirmos significativamente esses impactos. Com 2 ºC, populações ficariam com o seu território submerso e com um aumento de 1,5 ºC não. Sabe-se e assume-se neste momento que um aumento superior a 2 ºC e mesmo um aumento superior a 1,5 ºC terá efeitos catastróficos neste contexto das alterações climáticas. O Acordo de Paris, quando é traçado, em 2015, aponta precisamente esta ideia de 2 ºC no máximo, mas preferencialmente 1,5 ºC de aumento para minimizarmos tudo aquilo que é o aumento do nível do mar, as ondas de calor, os eventos meteorológicos extremos associados ao aquecimento global", esclarece Francisco Ferreira.

A importância da neutralidade climática

Desde a era pré-industrial, "tem vindo a aumentar a quantidade de gases com efeito de estufa que colocamos na atmosfera", reconhece o especialista. Uma situação que se traduz no aquecimento global e nas alterações climáticas.

"O nosso sistema terrestre funcionava em equilíbrio, ou seja, a quantidade de carbono que colocávamos na atmosfera era igual à quantidade de carbono que retirávamos da atmosfera. Só que, principalmente, nas últimas décadas, a atmosfera tem vindo a ficar com mais gases de efeito de estufa. O ideal é irmos além da neutralidade, ou seja, precisamos de retirar mais carbono da atmosfera. O ideal era que retirássemos mais do que aquele que pomos, nomeadamente através das florestas", sublinha, afirmando que "o dióxido de carbono é um gás importante" no âmbito das emissões de gases de efeito de estufa, porque "resulta dos combustíveis fósseis, do gás natural, do carvão ou do petróleo".

Há, no entanto, um passo intermédio ou um "equilíbrio": "Os cientistas apontam para 2044 como sendo o limite, ou seja, em 2044 o mundo deveria colocar uma quantidade de gases com efeito de estufa igual àquela que retira da atmosfera."

A União Europeia conta com o RePowerEU, um plano que surgiu no contexto da guerra na Ucrânia. "É uma proposta da Comissão Europeia para uma fortíssima aposta na eficiência energética e no investimento em renováveis para não ficarmos dependentes quer da Rússia, quer de outros países no que respeita aos combustíveis fósseis, nomeadamente ao gás natural, ao carvão e ao petróleo", indica Francisco Ferreira.

"Do ponto de vista político, esta aceleração a que estamos a ser obrigados é uma ajuda e temos aqui uma resposta mais rápida na descarbonização", admite o especialista da Zero.

Aposta nas energias renováveis, na eficiência e na eletrificação

O estudo da Climate Analytics mostra ainda que se a União Europeia seguir um dos vários possíveis cenários compatíveis com um aumento de temperatura de 1,5 °C, poderá atingir a neutralidade climática até 2040, ou seja, uma década antes do que está nos seus planos climáticos, o que seria em 2050.

E que cenário é esse? De acordo com Francisco Ferreira há três áreas "em que, se fizermos uma fortíssima aposta, conseguimos antecipar a neutralidade climática": "A rápida eletrificação dos processos industriais, mas também do uso doméstico e dos transportes - não há soluções verdes e sem impacto ambiental -, mas as apostas nas bombas de calor, nos veículos elétricos, nos transportes públicos, baseadas nos rápidos aumentos da capacidade solar, fotovoltaica e eólica, quer em terra, quer no mar, permite-nos ter um sistema energético completamente renovável até 2040 e utilizar o hidrogénio verde para descarbonizar setores de difícil redução de emissões; e a eficiência e poupança energética é algo que nos conseguiria reduzir a procura de energia final até 50% ao longo das próximas décadas."

Em Portugal, a Lei de Bases do Clima aponta que a neutralidade climática deverá ser atingida em 2050.

"Nessa lei temos que fazer uma reavaliação para antecipar a neutralidade climática para 2045 ou até mesmo para antes. O Governo deverá promover esses estudos o quanto antes, precisamos de não deixar atrasar muitos dos projetos, precisamos de mais [capacidade] fotovoltaica, eólica e, acima de tudo, de muito mais eficiência energética para conseguirmos avaliar e concretizar esta meta antes de 2050", adianta Francisco Ferreira.

Como ajudar à neutralidade climática?

"Todos nós, neste momento, vamos acabar por contribuir à força para estes objetivos da redução das emissões", defende Francisco Ferreira, frisando que um dos passos mais importantes é a preservação e o desenvolvimento da floresta. "Impedir os incêndios e ajudar a florestar Portugal é crucial para conseguirmos captar mais dióxido de carbono e retirar o dióxido de carbono da atmosfera", refere.

"O preço da eletricidade e do gás, a necessidade de medidas de eficiência energética, o aumento do custo de vida, e a inflação devem fazer-nos refletir sobre o setor dos transportes", afirma o especialista, que aconselha a um menor uso do automóvel. "Mesmo que decidamos comprar um veículo elétrico, não é isso que nos salva, é mesmo usarmos mais o transporte público."

A aposta nas energias renováveis, recorrendo a painéis fotovoltaicos, "nem que seja numa varanda", e a utilização de água quente solar são outras das sugestões da associação ambientalista Zero. "Vem aí um inverno difícil e dispendioso e todos estes contributos vão levar a que diminuamos o consumo de combustíveis fósseis", avisa Francisco Ferreira.

"O importante é apostar em medidas que fiquem para as próximas décadas e opções que emitam menos dióxido de carbono, numa altura em que vemos que as alterações climáticas estão a ter um impacto cada vez mais devastador à escala mundial", conclui.

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