Verdes Hábitos

Os hábitos também se mudam. No combate ao estado de emergência climática, todas as semanas damos a conhecer novas ideias para mudar velhas rotinas. Com Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo.
Para ouvir todas as sextas-feiras, às 18h40.

Tudo o que precisa de saber para fazer compras conscientes... e a granel

Leia a crónica da Eunice Maia, dona das lojas Maria Granel, que esteve à conversa com o programa da TSF "Verdes Hábitos".

O granel povoa a nossa memória coletiva, fazendo-nos viajar até às antigas mercearias de bairro: o cheirinho maravilhoso a café e a frutos secos, os cartuchos de cartão, o atendimento personalizado e atencioso de quem sabia sempre o nosso nome e os nossos gostos. Esse granel tradicional modernizou-se, adaptou-se aos tempos, está hoje mais consciente e comprometido com a redução do desperdício.

Além disso, obedece aos princípios HACCP, regendo-se por regras de higiene e segurança alimentar fiscalizadas e auditadas por entidades externas. Os dispensadores atualizaram-se, são neste momento mais sofisticados, seguros e desenvolvidos tecnologicamente; a oferta multiplicou-se, a escolha é muito mais vasta e inclui produtos biológicos certificados, dos frescos à mercearia seca, passando ainda pelos detergentes ecológicos e, até, produtos de beleza, como óleos corporais, champôs e condicionadores.

Comprar a granel é comprar à medida, adquirindo à unidade ou ao peso exatamente a quantidade de que se precisa. As suas vantagens passam precisamente pela redução da produção de resíduos de embalagens de plástico e ainda de desperdício alimentar ao nível do consumidor. Enquanto opção deliberada, consciente, tem um impacto considerável na redução das emissões de CO2 e na quantidade de resíduos destinados a aterros e incineradoras. Além disso, a aquisição apenas da quantidade de que efetivamente se necessita também contribui para diminuir o desperdício alimentar.

De acordo com o primeiro trabalho de investigação sobre este tema (a tese de mestrado de Diogo Fernandes Ribeiro em Engenharia do Ambiente, Perfil de Engenharia de Sistemas Ambientais), produzimos em Portugal 1 milhão de toneladas de desperdício alimentar por ano (96,8 kg per capita); 28,9% na distribuição; 31,4% ao nível do consumidor. Ora, o desperdício alimentar doméstico está associado (20 a 25%) ao consumo de embalagens. Dados fornecidos pela European Week for Waste Reduction revelam que cada família descarta 10% dos bens alimentares adquiridos, sendo que muitos não chegam sequer a ser desembalados.

A compra de quantidades de alimentos corretamente adaptadas às necessidades de consumo permite reduzir a produção de resíduos. Por esse motivo, a venda a granel é uma solução de futuro se Portugal quiser dar resposta às políticas europeias de Economia Circular na redução de utilização de embalagens de plástico. Faria todo o sentido, inclusivamente, uma redução do IVA para 6% para produtos adquiridos a granel. Assim, o granel é, sem dúvida, um compromisso com a sustentabilidade. E, quando conciliado com o biológico e o sistema BYOC ("Bring your own container"), mais ainda.

Como funciona o sistema BYOC ("Bring your own container")

A Maria Granel foi a primeira loja em Portugal, e uma das pioneiras na Europa e no mundo, a dispensar as embalagens e a vender exclusivamente a granel. Foi, aliás, referenciada internacionalmente como introdutora do sistema BYOC no mercado nacional. Quem nos visita pode trazer de casa o seu recipiente, para o reabastecer com os produtos de que necessita. Se se esquecer dele, ou se preferir, poderá adquiri-lo na loja. Temos ao dispor sacos de papel reciclado e frascos de diferentes dimensões, de acordo com a preferência.

Esta foi a inovação de que mais nos orgulhamos em termos de conceito e de negócio: não só permitir, mas incentivar, as pessoas a trazerem os seus próprios recipientes (frascos, contentores, sacos,...). Como funciona na prática? Os passos são muito simples e muito fáceis:

1. Pesar e registar a tara ao balcão;

2. Abastecer;

3. Descontar a tara;

4. Pagar apenas a quantidade que levamos, a nossa medida, à nossa medida.

É importante sublinhar que o sistema BYO pressupõe que o consumidor se responsabiliza pelo estado dos contentores e pela sua correta higienização e desinfeção. É muito importante preparar e garantir o cumprimento desse aspeto antes de reabastecer.

Um programa-piloto

Tentamos desde a abertura da nossa primeira loja (2015, Alvalade, Lisboa), graças a uma relação de grande proximidade com os nossos produtores e fornecedores, trabalhar para otimizar e reduzir embalagens. A verdade é que é um processo difícil, imperfeito. Continuamos a ter muitos produtos que chegam até nós embalados em plástico. Procuramos que cheguem em maiores dimensões (25 kg, 20kg, 10kg, 5 kg, dependendo do produto), para que o rácio plástico / produto seja menor, mas continuamos a gerar desperdício.

Às vezes é muito ingrato e frustrante encarar o desperdício que geramos, sobretudo, quando o coração da nossa missão é precisamente combatê-lo. Mas acreditamos muito na força do fracasso quando ele estimula a criatividade para perseguir o zero. E quando inspira pequenas vitórias.

Em 2015, grande parte dos nossos fornecedores nacionais apenas estava preparada para comercializar os produtos em pequenas embalagens de plástico; muitos repensaram o acondicionamento para se adaptarem ao nosso conceito: dimensões maiores, materiais diferentes. Tiveram a coragem de apostar e de acreditar em nós. Ouvimos muitos nãos. Mas também nos comovemos muito com alguns sins incondicionais e otimistas.

A partir daí o caminho tem sido feito em conjunto. Nos últimos meses, desafiámos um conjunto selecionado de fornecedores nacionais a testar um programa piloto circular de reutilização de baldes para acondicionamento do produto. Sempre cumprindo as regras de rotulagem e de segurança e higiene alimentar, o processo consiste em reusar baldes de 5kg que andarão sempre entre a loja e o local de produção. Desta forma, numa lógica circular, damos uma segunda vida aos baldes e acabamos com as embalagens. As amêndoas bio transmontanas são o primeiro de muitos produtos. E temos muita esperança de que este exemplo seja replicado por mais produtores.

Novidades fresquinhas, queridos fregueses! Tanto, tanto orgulho neste anúncio. As amêndoas bio transmontanas são o primeiro de muitos produtos de um programa piloto que estamos a testar em conjunto com os nossos fornecedores nacionais. Tentamos desde o início, graças a uma relação de grande proximidade com os nossos produtores e fornecedores, trabalhar para otimizar e reduzir embalagens. A verdade é que é um processo difícil, imperfeito. Continuamos a ter muitos produtos que chegam até nós embalados em plástico. Procuramos que cheguem em maiores dimensões para que o rácio plástico / produto seja menor, mas continuamos a gerar desperdício. Às vezes é muito ingrato e frustrante encarar o desperdício que geramos, sobretudo, quando o coração da nossa missão é precisamente combatê-lo. Mas acreditamos muito na força do fracasso quando ele estimula a criatividade para perseguir o zero. E quando inspira pequenas vitórias. Não sei se têm noção, mas, em 2015, grande parte dos nossos fornecedores nacionais apenas estava preparada para comercializar os produtos em pequenas embalagens de plástico; muitos repensaram o acondicionamento para se adaptarem ao nosso conceito: dimensões maiores, materiais diferentes. Tiveram a coragem de apostar e de acreditar em nós. Ouvimos muitos nãos. Mas também nos comovemos muito com alguns sins incondicionais e otimistas. A partir daí o caminho tem sido feito em conjunto. Nos últimos meses, desafiámos um conjunto selecionado de fornecedores a testar um programa piloto circular de reutilização de baldes para acondicionamento do produto. Sempre cumprindo as regras de rotulagem e de segurança e higiene alimentar, o processo consiste em reusar baldes de 5kg que andarão sempre entre a loja e o local de produção. Desta forma, numa lógica circular, damos uma segunda vida aos baldes e acabamos com as embalagens. As amêndoas de Trás-os-Montes são as primeiras. Mas já temos outra novidade em breve. Muita esperança de que este exemplo seja replicado por mais produtores. Muito obrigada aos nossos queridos agricultores transmontanos pela confiança. Estamos juntos! A revolução começa aqui. Um balde de cada vez! Até já!

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Tudo isto para dizer que o granel, inspirado no passado e no que de mais tradicional as mercearias antigas tinham, está de mãos dadas com o presente e com o futuro. Evoluiu. Adaptou-se aos tempos. Os relatórios de tendências do mercado apontam a vontade dos consumidores de terem acesso a este tipo de consumo. E está nas nossas mãos, enquanto comunidade, dar o sinal de que o granel é, de facto, o futuro.

Como é que isso se faz? Comprem a granel! Recusem as embalagens. Peçam que a legislação, tal como aconteceu em Itália e França (recentemente) e em tantos outros países da Europa e do mundo, se renove, reflita o espírito e as preocupações do Tempo. Poder ao consumidor! Escolher comprar a granel é por isso um sinal claro de recusa das embalagens de plástico e do tipo de consumo que ele representa. Façam ouvir a vossa voz. Apoiem as lojas a granel do vosso bairro, da vossa comunidade!

A revolução começa aqui.

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