Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Vai viajar de avião? Eis as consequências ambientais da aviação

A aviação é um dos setores que mais contribui para o aquecimento global. No Verdes Hábitos desta semana, Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, explica quais são os impactos ambientais e climáticos relacionados com as viagens de avião, nomeadamente ao nível da poluição do ar e sonora. Para proteger o ambiente neste setor, as prioridades devem passar pela transição dos combustíveis fósseis poluentes para combustíveis sustentáveis e pela aposta na utilização na ferrovia, sempre que possível.

Viajar de avião pode ser mais prático e rápido, tanto para curtas como para longas distâncias. Nos últimos dois anos, as viagens ficaram mais limitadas devido à Covid-19, mas com a pandemia aparentemente mais controlada, as pessoas voltaram a andar de avião, quase sem restrições. No entanto, a aviação é um dos setores que mais problemas causa no ambiente e no clima. Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, afirma que viajar de avião "tem diversos impactos", nomeadamente no ordenamento do território, na poluição do ar, devido aos gases de efeitos de estufa, e na poluição sonora.

No que toca à poluição do ar, o problema está na queima dos combustíveis fósseis ligados à aviação, como os óxidos de azoto e partículas ultra finas. Francisco Ferreira explica que já foram feitos estudos para o aeroporto de Lisboa, que "mostraram concentrações muito significativas na rota de aproximação". "Estas partículas são aquelas que acabam por penetrar mais facilmente no nosso organismo e são constituídas por componentes que podem ser prejudiciais à saúde", diz.

"Para termos uma ideia, a aviação globalmente é responsável por 5% do aquecimento global. Tivemos as emissões de carbono das companhias aéreas a crescerem 1,5% na Europa entre 2018 e 2019 e, desde 2013, esse aumento foi na ordem dos 28%. É por isso que, apesar de parecer um setor residual à escala global, é o que maior crescimento apresenta e, por isso, também uma grande preocupação", refere.

Francisco Ferreira destaca o Comércio Europeu de Licenças de Emissão. "Parte das emissões têm que ser compradas pelas companhias de aviação, mas a maior parte são gratuitas. Isto abrange apenas os voos intraeuropeus. Para se ter uma ideia, por exemplo, só a TAP, em 2019, foi responsável por 1,5 milhões de toneladas de emissões de gases com efeito de estufa, o que para o contexto do país é ainda bastante."

Relativamente à poluição sonora, o tráfego aéreo "é considerado um dos maiores prejuízos para a saúde de quem vive próximo de um aeroporto". "Em primeiro lugar, porque não permite o descanso durante a noite. Mesmo que as pessoas não acordem, têm perturbações nas suas fases mais cruciais do sono, que lhes permitem descansar e recuperar para o dia seguinte. Há todo um conjunto de estudos feitos à escala mundial que mostram que as crianças não conseguem ter os níveis de aprendizagem que teriam numa situação com menos ruído. A passagem dos aviões, às vezes a cada dois ou três minutos, é um fator perturbador, de enorme incómodo para o dia a dia. Estamos a falar de um prejuízo grande, não apenas de curto prazo, mas que leva, no limite, à morte. Porque temos desde o incómodo, depois ao stress, depois a todo um conjunto de problemas que conduzem a tensão elevada, a problemas cardiovasculares e é também um fator de mortalidade", considera Francisco Ferreira.

O problema do ruído é mais evidenciado em Lisboa, por ter um aeroporto no centro da cidade. Lisboa e Luxemburgo são os "casos mais dramáticos na Europa em termos do número de pessoas afetadas por causa de uma infraestrutura aeroportuária". "Obviamente que isso é um problema crítico quando, ainda por cima, nós, ao contrário de todo um outro conjunto de aeroportos, quer na Europa, quer à escala mundial, permitimos voos noturnos."

"É inqualificável como é que nós aceitamos um prejuízo para a saúde tão grande para que se consiga ajustar algumas escalas e otimizar, do ponto de vista económico, a operação de algumas companhias com voos às três ou quatro da manhã, sem o mínimo de cinco a seis horas contínuo sem movimentos aéreos", assinala.

No caso de Lisboa, Francisco Ferreira defende a relocalização do aeroporto. "Tem havido avanços tecnológicos na redução do ruído dos motores, mas há também planos de ação obrigatórios pela legislação que implicam melhorar o isolamento das casas mais próximas, mas isso são sempre medidas onde estamos a tentar remediar a situação e que estão longe de estarem implementadas."

Aviação mais sustentável: o que tem sido feito e quais devem ser as prioridades?

Além do Comércio Europeu de Licenças de Emissão, tem existido algum esforço para tentar reduzir os impactos ambientais da aviação, nomeadamente na contribuição, por parte das companhias aéreas, bem como do ponto de vista tecnológico. Contudo, Francisco Ferreira alerta para a necessidade de se olhar para "transportes alternativos, principalmente naquilo que são as rotas mais frequentes".

"No caso de Lisboa, são as viagens Lisboa-Madrid ou Lisboa-Porto aquelas que têm maior número de voos e passageiros. Já vários países proibiram este tipo de viagens e oferecem uma alternativa ferroviária", nota, compreendendo, no entanto, que no caso de Lisboa, que está na periferia da Europa, "atualmente é quase impossível não usarmos este meio de transporte para algumas deslocações essenciais e também de férias".

Para Francisco Ferreira, uma das prioridades deve passar pelo pagamento de impostos sobre os combustíveis, por parte das companhias aéreas. "Temos uma taxa de dois euros por passageiro que reverte para ser aplicada no estímulo à ferrovia. Mas há aqui uma enorme desigualdade na subsidiação que damos à aviação. Se eu utilizar um automóvel e utilizar gasolina ou gasóleo, eu pago imposto sobre os produtos petrolíferos, pago IVA sobre o combustível. Isso não acontece na aviação. Eu não pago estes impostos e ainda tenho o caso de grande parte das emissões e do seu impacto serem gratuitas. E também não pago o IVA sobre os bilhetes. Tudo isto é uma subsidiação que não deveria existir", aponta.

Outro dos aspetos cruciais é a transição dos combustíveis fósseis poluentes para combustíveis sustentáveis na aviação. "Começamos a ouvir falar do hidrogénio e de aviões elétricos para viagens mais curtas. Há aqui possibilidades tecnológicas, a par de mexermos na localização de aeroportos que estão em regiões com impactos críticos sobre a população, como é o caso de Lisboa."

Vai viajar de avião? Eis os aspetos que deve ter em conta para uma maior sustentabilidade

Com o objetivo de reduzir "fortemente as emissões para combater o aquecimento global", Francisco Ferreira deixa também alguns conselhos para quem vai viajar de avião. As decisões podem e devem ser tomadas individualmente para "salvaguardar o ambiente neste que é um setor muito pouco regulado à escala mundial".

"Em primeiro lugar, devemos perceber em que local é que estamos e a resposta é diferente. Se tivermos no centro da Europa, não há dúvida que a ferrovia tem uma oferta que nos leva a estimular este outro modo de transporte em detrimento do avião."

"A título pessoal e, neste momento, em Portugal, a primeira coisa que devemos questionar é quão desonestos são os preços de muitas das viagens que nos são oferecidas em que não se pagam os custos ambientais. E devemos lembrar disso quando temos viagens a cinco euros ou a quinze euros. Como é que é possível tantos quilómetros sem eu estar a pagar esse impacto ambiental?", questiona, sublinhando a importância da diminuição da necessidade de viagens.

"Para quem está no segmento de negócios, fazer algumas reuniões presenciais, mas outras podem ser virtuais. A pandemia mostrou que isso é possível, desejável e com um impacto climático e ambiental muito inferior", conclui.

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