A casa inundou e "ninguém sabia nadar"

Cinquenta anos depois das cheias de 1967, a Grande Reportagem TSF ouviu testemunhos de quem sobreviveu à força da água e de quem trabalhou para ajudar os outros perante a inércia e censura do regime.

Filomena Grilo adormeceu a olhar para a série de televisão "O Santo", com Roger Moore. Acordou, sobressaltada, com o toque do telefone, eram onze da noite. "Quando ponho o pé no chão sinto que tinha água. Mas o que é que se passa?"

Filomena Grilo, agora com 82 anos, mora na mesma casa no bairro da Grandela, em São Domingos de Benfica, onde, nessa noite, a água entrou por baixo da porta "estilo cascata".

"A água entrava cada vez com mais força" e sair com o marido, o sogro idoso e o filho deficiente motor com 12 anos era impossível. A família decide sair pela janela, onde era possível alcançar as escadas para a casa dos vizinhos do primeiro andar.

Filomena foi a última a sair e "por escassos segundos" não fica presa entre os dois grandes móveis que tombaram quando, com a força da água, o chão abateu sobre a cave.

Saíram em roupa de dormir, sem levar "nem fotografias, nem dinheiro", nem sequer a prótese que permitia ao filho andar sem dificuldade. "Salvar a vida era o importante naquele momento. A rua tinha uma corrente de água muito forte, levava frigoríficos, máquinas de lavar, tudo por aqui passava. E nós não sabíamos nadar".

Pelas quatro horas da madrugada o nível de água na rua começa a baixar. Às seis da manhã, a família decide descer para ver como estava a casa, com ajuda de uma vela.

A porta nunca cedeu. A água encheu a casa e destruiu quase tudo, mas nada saiu de casa. Havia lama por todo o lado, até dentro dos copos, "como os bolos que fazem as crianças".

"Graça no meio da desgraça"

Como a prótese que usava no pé ficou estragada nas cheias, o filho, Jorge, passou o dia de aniversário, e os seguintes, deitado na cama.

A vida para a família Grilo "começou do zero". Com a casa coberta de lama, o vizinho ofereceu guarida no andar de cima, onde a família acabaria por ficar durante semanas. No entanto, no dia depois das cheias, o marido de Filomena já ansiava por um regresso à normalidade.

"Isto não tem solução se não cada um fazer uma coisa", disse o marido a Filomena. "Tu fazes o comer, eu e outro rapaz vamos tentar salvar o que pudermos". Que almoço fazer no meio daquele caos, questionou-se Filomena. "Diz o meu marido com muita graça, no meio da desgraça: 'tens o bacalhau de molho, esteve toda a noite de molho, fazes bacalhau com batatas'".

Ouça a Grande Reportagem "Tão longe, tão perto", de Cláudia Arsénio e sonoplastia de Miguel Silva, na antena da TSF, depois das 20h00.

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