"A Inglaterra está num momento Monty Python"

Fernando d"Oliveira Neves, embaixador, é o convidado desta semana.

Com uma carreira diplomática em que a Europa e as Nações Unidas foram temas centrais, o embaixador Fernando d" Oliveira Neves confessa que o que mais o fascinou sempre foi a negociação. Filho de diplomata, só agora conseguiu viver sete anos seguidos no mesmo país - em Portugal, a saborear o sossego da reforma. Foi literalmente ele quem levou a carta do pedido de adesão de e Portugal à União Europeia, ainda CEE na época, e foi ele o organizador da operação da primeira presidência portuguesa do Conselho Europeu, no recém construído CCB, em 1992. Por ele passou a negociação da independência de Timor-Leste, tema do próximo livro. Por agora, está nas livrarias Um Passeio pela Europa, um "testamento diplomático" que ensina os meandros das instituições europeias e vem temperado por episódios divertidos. Nasceu em 1947 em Lisboa, onde se formou em Direito, e antes de entrar no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em 1975, fez o serviço militar em Angola.

Podemos começar pela história deliciosa da conferência "de alto nível", do embaixador inglês?

O nosso Ministério cada vez tem menos funcionários, como aliás toda a função pública portuguesa. Não sei porquê, criou-se uma ideia de que Portugal tem muitos funcionários públicos mas continuamos a ser, como sempre fomos, um dos países da União Europeia com menos funcionários. Como despediram para aí uns 20 por cento, agora não há. Todos os dias dizem "não há inspetores, não há enfermeiros". Não há nada, é evidente, mandaram-nos embora e não os substituíram. Entrei para o Ministério como adido, como toda a gente. Nessa altura entrava-se como adido e ao fim de três anos era-se confirmado como terceiro secretário. Fui encarregado do dossiê da CEE, como então se dizia, pois não havia União Europeia.

Era um tema longínquo?

Éramos membros da EFTA e tínhamos um acordo comercial com a União Europeia. Logo pouco depois de eu entrar houve um reforço desse acordo. Fui eu que preparei as cartas a fazer o pedido de adesão, era só copiar o que a Comissão nos mandou e fazer uns ajustes. E foram enviadas para o gabinete do Primeiro-ministro, na altura Mário Soares. Só vieram assinadas, não sei porquê pois nós tínhamos enviado com muito tempo, na véspera ou na antevéspera do dia que estava marcado para a sua apresentação.

No fim do prazo?

O pedido era uma coisa sem qualquer espécie de solenidade em que o presidente do país candidato apresentava as cartas ao representante do país que tinha a presidência - na altura o Reino Unido. Já era tarde e não havia tempo para fazer uma mala especial. Tentou-se recorrer a um piloto da TAP, como às vezes fazíamos. Mas ele disse que não podia assumir essa responsabilidade, podia não estar ninguém à espera. O meu diretor-geral, um homem extraordinário, o Lencastre da Veiga, todo impulsivo, mandou-me a mim. Lá fui eu.

Levar a carta a Garcia?

Sim, levar a carta a Garcia" mas um bocadinho com a sensação de "isto é um momento histórico, vou levar as cartas a pedir a adesão". Quando lá chegamos, o embaixador Siqueira Freire, um senhor extraordinário, que era o nosso observador - como ainda não éramos membros, não havia representante junto da União Europeia - disse-me: "já que cá está, venha connosco também". O Siqueira Freire era um bocado mais baixo do que eu, que não sou alto, e para nosso grande espanto o embaixador inglês era ainda mais baixo do que ele. Passados uns tempos, li um livro do Foreign Office - de que ele foi secretário-geral - em que ele contava que quando estava em Nova Iorque, na ONU, e havia aquelas guerras de pesca entre o Reino Unido e a Islândia, foi encarregado de fazer uma diligência ao mais alto nível junto do embaixador islandês que tinha dois metros. Chegou lá, subiu para cima da secretária e disse: "Eu fui encarregado de fazer uma diligência ao mais alto nível". Nunca me esqueci, fartei-me de rir. É o humor tipicamente inglês.

O seu livro não é um catálogo de anedotas da vida diplomática, é um livro sobre a adesão em que participou desde o início. Escreveu a carta, levou a carta...


A carta não foi difícil de escrever, reconheço. O João Amaral [do Grupo Leya] achou que eu dizia coisas que ninguém percebe - o que é o COREPER, por exemplo. E não sei se há muitos livros que expliquem aquele dificílimo processo de decisão da União Europeia. Não posso garantir que hoje seja como era. Ainda experimentei aquilo com 26 e 28 estados e já era um bocado diferente. Mas nos tempos áureos em que estive em Bruxelas andava-se sempre à procura de um consenso, de uma solução em que toda a gente se pudesse rever mais ou menos, de 2 por cento a 88. É a única maneira de fazer convergir as posições de 28 estados com História, como se vai vendo agora, com nacionalismos mais ou menos fortes. Não resisti a pôr outras histórias que têm graça, mas no fim digo que julgo que sou o funcionário do Ministério com a experiência mais variada, porque estive em todo o lado, desde a organização até ser secretário de Estado [dos Assuntos Europeus]. Na última presidência [portuguesa], quando eu era secretário-geral, ninguém me perguntou absolutamente nada. É uma constatação da vida, é assim.

Já lhe perguntaram alguma coisa para a próxima presidência, em 2021?

Espero que não me perguntem, porque...

...está jubilado?

Estou jubilado há cinco ou seis anos.

Pensou que Portugal ia chegar à Europa da maneira como chegou?

Sim, sempre. Nunca tive dúvidas. Quando comecei a trabalhar as questões europeias, lá no Ministério, toda a gente dizia...

Era um miúdo, nessa altura.

Não era tão miúdo quanto isso porque fiz a tropa antes. Entrei com 27 ou 28 anos. E tive muita sorte porque quando estava na tropa, ao fim de nove meses de quartel fui requisitado para a Secretaria Provincial de Angola, onde aprendi muito.

Não esteve em combate?

Nunca estive, felizmente. O pedido de adesão foi uma decisão histórica que devemos a Mário Soares, e depois a forma como ela foi levada a cabo devemos muito ao Medeiros Ferreira. Ambos tiveram muita coragem na forma como trataram o assunto. Tínhamos acabado de sair não só de uma ditadura como de um PREC, da confusão completa, havia ideias variadas, Portugal ia ser uma ponte entre não sei quem e não sei quem - as pontes não são precisas para nada - íamos ser uma espécie de não-alinhado alinhado. Felizmente o Mário Soares teve essa ideia absolutamente correta de pedir a adesão à então CEE. E toda a gente dizia "que disparate, alguma vez eles nos vão aceitar" - não sei por que diziam isto, eles tinham acabado de aceitar a Grécia. De facto, a coisa foi muito bem conduzida pelo Mário Soares com Medeiros Ferreira...

...que era ministro dos Negócios Estrangeiros...

...e com um extraordinário diretor geral que era o Alexandre Lencastre da Veiga, com coisas saídas da cartola, com uma força extraordinária. Secretariei a comissão do processo de adesão, de vários ministérios, e conheci pessoas fantásticas, aprendi, comecei a ver pessoas a negociar. Na fase da negociação propriamente dita, eu estava em Washington, e isso foi uma experiência extraordinária para mim. Mas nunca tive dúvidas de que nós íamos ter uma resposta que ia acabar por ser positiva. Quando entregámos o pedido, já estávamos garantidos. Mas não foi fácil em Portugal, quer da parte do CDS quer da parte do PSD, para já não falar do Partido Comunista. O Sá Carneiro publicamente era contra e inventava umas coisas, a pré-adesão, e quando lá chega o diretor-geral da Comissão para convencê-lo ele disse "não se preocupe, isto é tático, a seu tempo eu apoiarei a adesão".

Hoje perdemos de vista essas opiniões de então.

Li um artigo de alguém do PSD que dizia que o PSD sempre foi a favor. Mas não era... tático ou não, quem ler os artigos da época é isso que vê. Não era a favor de uma adesão plena, por razões económicas. Para mim há uma coisa muito óbvia. A União Europeia faz parte do dispositivo da paz americana do pós-guerra, que é uma das coisas mais extraordinárias do mundo. O Plano Marshall, a forma como os americanos conduziram a Europa à democracia. Antes da [II] Guerra, o movimento comunista na Alemanha, na França e na Itália era fortíssimo. Quando um país como o nosso, tal como aconteceu com a Grécia e depois com a Espanha, saía de um regime autoritário de direita, a solução política - aconteceu aliás pelo apoio que os partidos sociais-democratas e democratas-cristãos nos deram - era entrarmos para a União Europeia, como acho que era inevitável com os países da chamada Europa de Leste. A União Europeia também foi uma pressão para fazer propaganda junto desses países. É totalmente disparatado tentar pôr agora na União Europeia ex-repúblicas soviéticas.Os países bálticos são uma coisa à parte, nunca ninguém reconheceu a sua integração na União Soviética.

Mas ainda estamos longe disso, no processo de adesão de Portugal, que foi lento.

A lentidão teve muito a ver com a Espanha, sobretudo o cheque agrícola da Espanha era gigantesco - o nosso, coitado, era mínimo. Entrámos para a União Europeia, ao fim de sete anos de negociações, numa altura em que se estava a precisar de rever a política agrícola comum, com as grandes divisões que provocou. A certa altura, sempre que via uma vaca a pastar dizia "olha uma ameaça para a estabilidade orçamental", porque uma vaca custava fortunas e produzíamos a mais, fazíamos armazéns. Plantava-se girassol, depois tinha de se colher o girassol e receber o subsídio da União Europeia, e deitava-se fora o que se colhia. Lembro-me de um tipo perguntar - "não posso receber só o subsídio, sem ter este trabalho todo?" Era tudo um bocado disparatado. Mas nós entrámos para uma entidade com uma produtividade agrícola alta que queria controlar essa produtividade, e tínhamos uma produtividade mínima, ridícula, quase inexistente. Andámos sempre ao contrário. Confesso que pescas e agricultura é talvez o ramo cuja negociação teve resultados que não foram muito bons.

Temos andado sempre com o coração nas mãos nessas áreas, não é?

Destruímos a nossa frota de pesca, que não era grande coisa, mas ao menos devíamos tentar manter o que tínhamos. Este é um problema político. Nós fizemos tudo para fazer o pedido de adesão antes da Espanha, porque era óbvio que a Espanha ia pedir. E mal nós fizemos, a Espanha apressou-se, quatro meses depois fez o pedido. Depois era inevitável ligar uma coisa à outra. Portugal entrar e a Espanha não era politicamente absurdo. Quando eu estava secretário de Estado, a Bulgária e a Roménia ainda não tinham entrado, e as minhas duas colegas faziam junto de mim e dos outros todos uma pressão permanente: "Se nós não entramos, a popularidade da União Europeia vai descer e depois eles já não querem entrar, os riscos políticos que isto pode dar..." Quando esses doze países pediram a adesão, foi decidido, e bem, que seria pelo processo das regatas - iam entrando à medida que estivessem prontos. Não foi talvez muito feliz essa reforma, mas era politicamente inevitável.

Conta no livro que a dada altura foi ao aeroporto receber o negociador europeu, que vem de Espanha.

Ele vem de Espanha e diz: "Ah, finalmente vou respirar. Venho de negociar a adesão da União Europeia à Espanha! Agora vamos negociar a adesão de Portugal."

Refere que a Espanha não tinha experiência de negociação, não estava na EFTA e nem sequer na NATO.

Exatamente. Portugal tinha, apesar de tudo, um historial de multilateralismo económico e político. A Espanha não estava na NATO nem na EFTA, era muito mais fechada. Talvez tivessem menos prática do que nós. O regime do Franco foi sempre considerado, e julgo que muito justamente, mais duro que o nosso - e muito mais próximo do nazismo.

Esteve nos Jerónimos, na assinatura do Tratado de Adesão?

Não, estava em Washington.

Foi encarregado de organizar a Presidência Portuguesa de 1992.


Primeiro, foi essa fase do pedido de adesão. Depois fui para Nova Iorque para as Nações Unidas, vim para chefe de gabinete do secretário de Estado Leonardo Mathias que se ocupava da cooperação, fui para Washington. O Leonardo Mathias e eu já andávamos juntos há dez anos e combinámos que no posto seguinte isso acabava. Só que ele foi convidado para ir para Representante Permanente e disse-me: "tu és das poucas pessoas que já mexeu naquilo, portanto vens comigo". Lá fui eu para o tal lugar extraordinário de "Antici" que tem o nome do senhor que criou um grupo que era o Comité de Representantes Permanentes [COREPER]. Li num livro inglês sobre a Europa que isso significava The Ancients, uma espécie de sábios vindos da história remota...

O que não correspondia à verdade.

Ainda sugeri aos Antici que criássemos uma espécie de maçonaria, uma coisa secreta.

Ainda tem a t-shirt que lhe deram quando saiu dessa função, de "super-antici"?

Devo ter. Foi um irlandês muito cómico que me deu. Na diplomacia estamos sempre a mudar. Quando um tipo já está há três ou quatro anos sabe muito mais do que os outros que chegam - depois com o tempo também vão sabendo. Eu nessa altura era dos mais antigos.

Gostou de andar sempre a mudar de casa, de país, de clima? Habituou-se bem ou já estava farto?

Desde fevereiro de 2012 até agora, bati o record de viver no mesmo sítio. Nunca tinha vivido sete anos no mesmo sítio em toda a minha vida. Comecei com o meu pai. Se alguém me dissesse que ia partir fosse para onde fosse aquilo mexia-me cá dentro. Agora confesso que prefiro estar quietinho.

Está a saber-lhe bem?

Muito bem, agora nem quero ouvir falar de andar de avião. Só a ideia de ir para o aeroporto já me põe deprimido três dias antes. Partir, ir, conhecer outras coisas é a coisa melhor que há. Varia-se, não se está a fazer sempre o mesmo, na rotina. Mas há na diplomacia dois setores completamente diferentes. O multilateral - a ONU, onde estive em Nova Iorque, a União Europeia - que é o que gosto mais. Eu gosto de negociar. Todos os dias se tem de negociar nem que seja uma vírgula. Gosto disso.

E o outro é o bilateral, as embaixadas?

Sim, tive a sorte de ter dois postos bilaterais que são ainda mais difíceis do que os multilaterais - Luanda e Washington. Naquela altura, Washington era a maior bilateral do mundo e a única com poder. Portugal nunca percebeu isso bem, não sei porquê. Nós tínhamos cinco diplomatas e três ou quatro técnicos, e os ingleses tinham 80 diplomatas. O colega Freitas Ferraz, que está agora presidente do Instituto Diplomático, era o quinto na nossa embaixada, e um colega dizia-lhe: "Tu vês o teu embaixador todos os dias? Eu só o vejo na festa de Natal".

Tinha de participar em todas as negociações?

Todos nós fazíamos tudo. Os outros ficavam espantadíssimos porque nós estávamos ao corrente de todas as áreas. Os únicos que tinham capacidade de coordenação eram os ingleses, o Foreign Office. Não sei se ainda têm, aquilo degradou-se muito. Tinham uma carreira extraordinária e uma capacidade de coordenação que sempre me fez inveja. Eu também tinha, em Washington, o acompanhamento do Congresso. Isso era fascinante. A primeira vez que cheguei ao Congresso pareceu-me o princípio do primeiro Star Wars, todos no Império à espera de ver se o Imperador fala com eles. Ali estava toda a gente, desde os governos de esquerda radical, Cuba, os soviéticos, os guatemaltecos, a Nicarágua, tudo ali a ver se levava algum, independentemente da cor política. E outra coisa era ir às reuniões das comissões dos negócios estrangeiros da Câmara dos Representantes - agora chamam-lhe a Casa - e ver ao meu lado o soviético a tomar notas. E eu: "Mas como é que estão a negociar com a União Soviética?" e eles: "Devem fazer assim", e o outro a tomar notas ao meu lado. Extraordinário.

Isso é que era mesmo estar no centro do que se passa, não era?

Isso era fantástico, aquele sistema.

As embaixadas eram pouco para si?

Eu tentava ter imaginação para fazer coisas, e fazia.

Esteve em Dublin, na Haia, em Roma.

Na Haia estive um mês e meio. Em Roma foi fantástico, tive a sorte única de ter [Paulo Cunha e Silva]. A parte cultural é absolutamente fulcral na nossa relação com a Itália. A promoção cultural é fundamental também para a parte económica. É pelo reconhecimento da qualidade da História e da cultura de um país que se avalia também os produtos. Quando vemos algo feito na Dinamarca sabemos que é bom, na Bulgária já não sabemos. É fundamental assentar essa projeção. Por exemplo a Espanha faz uma propaganda enorme com a história do Cristóvão Colombo, que lhe dá um prestígio em todo continente americano - exceto no Brasil - e o Colombo, como dizia o Adam Smith - o Adam Smith! - faz parte do processo do empreendimento de navegações portuguesas. Por acaso foi o outro rei que pagou, mas tudo o que ele sabia - ou melhor, que não sabia, porque ele não percebia o que se estava a passar...

Mas isso tem por trás uma estratégia, não?

Uma estratégia e também querermos que as pessoas saibam o que nós fizemos. Um embaixador que está em Portugal o dia inteiro a ouvir os portugueses a dizer mal de Portugal, vai pensar que de facto o país é mau. Nós gostamos mesmo de dizer mal, dá-nos um prazer particular.

Ou então dizemos que somos os maiores.

Tem dias. Eu vejo todos os dias todas gente a dizer mal da educação portuguesa. Porém, nenhum outro país da nossa dimensão tem tanta gente à frente de instituições relevantes - estou a falar da minha área - multilaterais. Tivemos o presidente da Comissão, dois representantes do secretário-geral das Nações Unidas, o Guterres como Alto-Comissário dos Refugiados - o Times punha-o entre os 50 homens mais importantes do mundo - e depois secretário-geral das Nações Unidas. Eu pensava que era impossível o [António] Vitorino ir para este lugar dos refugiados [diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações]. No nível imediatamente abaixo, desde o chefe da polícia da ONU que não sei se ainda é o português, mas foi durante muitos anos, até ao chefe dos serviços jurídicos da ONU, e mais seis ou sete. Nenhum país da nossa dimensão tem isto. A nossa educação não deve ser assim tão má.

Na verdade, a qualquer parte do mundo onde vamos encontramos sempre um português.

O Oliveira da Figueira. Vou no dia 1 [de fevereiro] a uma conferência sobre os 90 anos do Tintin, e lá se falará do Oliveira da Figueira.

Foi responsável por toda a operação da presidência Portuguesa em 1992, com todos os episódios do Centro Cultural de Belém - estava pronto, não estava pronto. Teve de ocupar-se de tudo?

Houve uma boa preparação. Estávamos todos muito cientes de que tínhamos de dar uma imagem de boa organização, por ser a primeira presidência. Em primeiro lugar, nós devíamos presidir um ano e meio depois da adesão e o governo decidiu passar, e muito bem. Muita gente criticou mas fizemos muito bem, quando lá chegámos já sabíamos o que devíamos fazer. Estamos a falar de coisas materiais, não de filosofia.

De alta política?

Nada de alta política, era só organizar as coisas. Eu vim em outubro de 1990 para preparar a reunião que ia haver em 1992. Isto deu muito tempo para preparar. Tive uma grande ajuda, porque era grande amigo do diretor do protocolo, que tinha sido Antici grego, e do chefe de gabinete do secretário-geral, que era quem representava o secretário geral no grupo Antici, ficámos sempre muito amigos. Tivemos a sorte de ter aquele sítio maravilhoso. Havia uma emoção completamente louca. Uma funcionária do Ministério da Cultura veio ter comigo - "nós vamos fazer uma tourada à terça-feira, um teatro à quinta". E eu explicava: "mal acaba a reunião eles vão-se embora".

Havia a ideia de que as pessoas vinham para cá e ficavam?

Sim, de que vinham para cá 500 mil pessoas. Mas eles vêm às reuniões e imediatamente a seguir vão trabalhar, fazer o relatório da reunião. Era o que nós todos fazíamos quando íamos às reuniões deles. E depois "vamos fazer uma concessão para explorar o restaurante". Como? Só vem ao restaurante quem está na reunião e somos nós que pagamos! Em toda a parte é assim, há um refeitório para as pessoas que estão na reunião e quem paga é o país que tem a presidência. Mas correu magnificamente. Um dinamarquês disse que nunca tinha visto um conselho europeu tão bem organizado. Só correu mal uma coisa.

Então?

O ministro João de Deus Pinheiro, que era professor na Universidade do Minho, resolveu fazer no Paço dos Duques em Guimarães o Gymnich, a reunião informal dos ministros de negócios estrangeiros, só com eles, não está mais ninguém das delegações. A primeira reunião foi no castelo alemão chamado Gymnich, daí o nome. Eu disse ao funcionário do protocolo que fosse ver quantos aquecedores havia, e quantos aquecedores havia na cidade toda. Eram 38, contando com os dos bombeiros. O conservador do palácio era um senhor encantador mas que achava que nunca havia frio. Na véspera houve um jantar lindo, numa sala medieval, espetacular, passou-se para uma varanda onde se cantou o fado, fazia calor, as senhoras estavam de décolletés. No dia seguinte chego lá e naquela sala enorme estavam três aquecedores e um frio dos diabos. Então os aquecedores? Não vieram. Fiquei um bocadinho zangado. Passado um bocado vejo o Genscher sentado à mesa de sobretudo e com os três aquecedores. A Alemanha quentinha e resto da Europa frio. A Alemanha é assim.

O que acha que vai acontecer no processo do Brexit?


Desde que isto começou que digo ao meu colega que trata cá do Brexit que isto vai acabar com outro referendo. Toda a gente dizia que nunca a Inglaterra fará dois referendos - não sei porquê, por causa da Escócia fizeram vários. A minha previsão é de bom senso. Olhando para a História, normalmente os decisores políticos não têm senso nenhum e tomam as piores decisões para eles e para toda a gente - veja-se as guerras todas, a Primeira, a Segunda. Hoje a hipótese do segundo referendo é falada por muitos, desde o Tony Blair ao Gordon Brown. Mantendo uma narrativa irónica, a Inglaterra está num momento Monty Python da sua política. Um primeiro-ministro faz um referendo para acabar com os anti-europeus, perde. A primeira-ministra antecipa eleições para reforçar a maioria, perde a maioria. Isto então é Monty Python vintage. E assim sucessivamente. Eles estão a discutir várias soluções, todas más. Alguém me chamava a atenção para isto: o Corbyn não sabia que existia a Irlanda do Norte e uma fronteira quando fez o referendo? Ainda hoje li sobre The oblivion of the Northern Ireland border. É um problema do arco-da-velha. Como estive na Irlanda e gosto muito do país, gostaria muito que isto acabasse com a Irlanda toda unida, mas não é isso que vai acontecer.

Está convencido de que haverá um segundo referendo?

Estou convencido de que a única saída sensata desta situação é ela [Theresa May] prorrogar o artigo 50 e pôr a hipótese séria de fazer um segundo referendo. Porque a saída, brusca ou não brusca, é um desastre, é uma coisa sem pés nem cabeça, para eles e para nós, para toda a gente. Aquela ideia dos 350 milhões de dólares, de que saem da União da Europeia e ficam com todas as vantagens, nenhuma das desvantagens e não pagam...

A Sociedade das Nações nasceu em 28 de junho de 1919, o que significa que as Nações Unidas vão fazer 100 anos. Foi uma boa iniciativa?

Magnífica. Está a falar com a pessoa que negociou Timor por parte de Portugal. Timor é um dos maiores êxitos das Nações Unidas, uma negociação extraordinária. Como dizia o Jaime Gama, é muito difícil tirar um território ao quarto país do mundo que já o tem há 25 anos, sobretudo quando está a uma enorme distância. Sem as Nações Unidas nada disto teria sido possível.

Continua a ser uma boa ideia ou a burocracia emperra tudo?

Continua a ser. É como a história da CPLP, havia pessoas que achavam que era a reposição do império português, não é. Que era uma espécie de União Europeia, não é. Que era uma espécie de Nações Unidas, não é. A CPLP, como diz o Adriano Moreira, e muito bem, é uma organização de afetos, uma comunidade de afetos e acho muito bem que exista. O facto de ela existir já é bom e depois faz muito mais coisas do que as pessoas julgam. As pessoas não sabem nem um terço, não têm noção dos conflitos que as Nações Unidas conseguem diluir. Como dizia o meu colega António Monteiro, citado na primeira página do The New York Times, as Nações Unidas são a psicologia de grupo do mundo, em vez de se fazer uma guerra vai-se lá, faz-se um discurso muito agressivo contra um país e a coisa vai acalmando. Isto para não falar de tudo o que as Nações Unidas fazem, por exemplo o Programa Alimentar Mundial, os Refugiados, os Direitos Humanos, a FAO...

Antes de sair o livro sobre Timor Leste, que escreveu com a jornalista Bárbara Reis, tem aqui o seu "Passei pela Europa". Também foi uma boa ideia, a União Europeia?

A criação da União Europeia é o momento mais lúcido da História. É a única vez na História em que uma geração conseguiu transmitir à geração seguinte uma experiência recente, do horror que foram as duas guerras e do que estava a acontecer na União Soviética, na China. Uma época horrorosa do século XX e nós conseguimos fazer esta coisa extraordinária. Só o facto de ter a mesma moeda, e estou a falar de uma perspetiva egoísta, não económica nem financeira, o não ter de andar a trocar de moeda, não ter que ficar três horas nos aeroportos, é uma maravilha.

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