"A normalidade é uma capa onde se pode esconder o mais terrível"

Eliete é o nome do novo livro de Dulce Maria Cardoso, a autora entrevistada esta semana no Começo de Conversa.

Acaba de lançar Eliete, um novo romance que, como nela é habitual, demorou anos a concluir. Quando estava pronto, apagou-o e escreveu-o de novo, como faz desde que um vírus lhe deixou mudo e quedo o computador, com Os Meus Sentimentos pronto a seguir para a editora. Eliete, o nome que Dulce Maria podia ter recebido, é um livro sobre a identidade, enquadrado por Salazar e sob uma capa de normalidade. Uma vida com a internet e as redes sociais a mudar as relações antigas, num mundo que a escritora observa com inquietação mas sem preconceitos.

Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás os Montes, na aldeia da Fonte Longa, concelho de Carrazeda de Ansiães, em 1964. Aos seis meses foi com a mãe para Luanda, para se juntarem ao pai que estava lá a trabalhar. Quis ser escritora porque queria viver num mundo de histórias, mesmo se não sabia como se fazia para chegar à literatura.

Associamos sempre o nome de Dulce Maria Cardoso a Luanda por causa de O Retorno, o seu livro mais conhecido, mais discutido.

Talvez o mais amado.

Acaba de lançar o grande romance Eliete, um livro de grande fôlego, que certamente não foi escrito em seis meses.

Foram muitos anos. Atrevo-me a dizer que quase todos os meus livros levam muitos anos, ainda que depois o processo de escrita, da passagem para o papel, seja rápido, devido àquele meu método anormal de apagar tudo.

Estou curiosa em relação a isso. Escreve tudo e depois apaga?

Depois de muitos anos e de muitas versões. Só posso reescrever porque durante anos ando nisto das versões e dos acertos. Quando chego a um resultado final já está tão na minha cabeça que posso reescrever. Como ainda foi há pouco tempo, acho que ainda conseguia reescrever Eliete.

Isso quer dizer que ainda não está a escrever outro?

Eu terei que continuar com a Eliete.

Uma vez perdeu um romance inteiro?

O segundo, Os Meus Sentimentos. Em termos formais, é um romance muito complicado e que me demorou muitos anos. Sou muito lenta. Já perto do fim, recebi um email - ainda havia disquetes - com um palhaço para clicar com a seta no nariz. Até nem costumo fazer isso mas devia estar maçada e acedi ao pedido. E não aconteceu nada. No dia seguinte, tinha o computador preto, sem reagir.

Não havia hipótese de recuperar?

Não.

Como se reage a uma perda dessas? Certamente tinha mais coisas no computador.

Sim, mas o que me inquietou mais na altura foi o livro, porque tinha andado anos a escrevê-lo. O resto, as fotografias e essas coisas todas, é irrecuperável mas não se tem aquela relação do investimento de anos. Foi aí que decidi: ou me fecho e rescrevo isto tudo de memória ou nunca mais pego nisto, porque já não tenho como fazê-lo, já estava muito cansada do assunto. Então fechei-me literalmente, numa corrida contra o tempo, a rescrever o romance. Quando acabei, achei que estava muito melhor do que o que eu tinha feito, porque de alguma maneira tinha conseguido livrar-me da tralha toda, daquelas frases que estão a mais mas deram tanto trabalho que deixamos ficar.

Estava lá o essencial?

Sim. Escrevo com muitos atalhos, porque como escrevo à procura de um caminho vou por atalhos que são becos sem saída. Quando rescrevo, consigo livrar-me desses becos, daqueles capítulos chatos que só estão lá para que eu descubra um caminho. Não aconselho o método a ninguém, mas serve para mim.

Apaga mesmo tudo ou guarda uma cópia?

Apago tudo porque sou muito preguiçosa. Nunca conseguiria, se não apagasse tudo. É muito violento.

Qual é o momento em que apaga?

É um momento complicado mas também é um momento de libertação. Sei que vem aí muito trabalho, há mesmo uma exaustão física, não é brincadeira. Escrevo doze horas por dia. Com mantimentos, aguento-me a escrever muito tempo, mas debilita-me fisicamente. Para mim resulta. É como se fosse uma limpeza que nenhum editor consegue fazer. Nem eu consigo fazer, porque é a limpeza da memória.

É uma espécie de peneira?

É. Conheço profundamente as personagens, sei o que lhes aconteceu, não ando à procura, e isso liberta-me para ter mais atenção à forma, à palavra.

Quanto tempo demorou a fazer tudo?

Neste romance foi mais complicado, e é por isso que vai haver outro romance. Percebi que não estava a funcionar, era como se não conseguisse uma construção acabada, como se estivesse ainda em obras. Acho que escrevo em coautoria com as personagens. Eu tenho mão no romance, naquilo que publico, e é um processo extremamente racional, muito pouco afetivo nessa altura. Mas na construção, nesses tais anos, eu tenho uma relação com as personagens como se conhecesse um amigo, elas vão-se revelando. E às vezes calam-se, são muito caprichosas. E a Eliete...

Não se calou?

Não se calou, continuava para além de uma ideia que eu tinha. Percebi que esta parte estava feita e estava certa e que depois tinha de fazer as outras, ou a outra, o que vier aí.

Não sabe ainda se é só um volume ou se são mais?

Não sei. Ela já me contou várias coisas lá para a frente.

Ela conta como? Na sua cabeça?

Sim, na cabeça. O romance é enquadrado pela figura do Salazar e, para ver o Salazar na vida da Eliete, há uma série de mistérios e de segredos que são complexos. O Salazar enquadra ali a vida normal. O romance, para mim, é sobre a identidade e ao questionar-me sobre a identidade, a da Eliete, a minha, e por arrasto a do país, eu percebi que era herdeira do Salazar. Possivelmente seremos todos.

Em que sentido?

Numa maneira de existir, num conformismo, numa resignação, numa ideia de respeitinho. Não é respeito, que eu aprecio muito, mas respeitinho. Uma pouca capacidade de reivindicar. Foi uma ditadura muito longa e que fez muita mossa, não só naquela altura, com aquilo de que as pessoas facilmente se apercebem. Havia a censura, os presos políticos, uma série de coisas terríveis e nomeáveis, mas havia um modo de ser que contaminava. Essa tal normalidade que não tem as erupções da tortura, não tem picos de sofrimento ou de horror, para mim é mais perigosa.

Porque é o que permanece?

É o que passa, o que se infiltra, o que forma e deforma. É mais perigosa. O Salazar enquadra o romance, ao princípio e no fim com um parágrafo, e agora a Eliete continua a falar e será tratado mais profundamente.

Traz ao romance novos fenómenos, como as redes sociais, o viver agarrado ao telemóvel. Isto inquieta-a?

Inquieta-me porque a mudança inquieta sempre. Foi propositado que chamei a esta primeira parte A Vida Normal. Por isso gosto muito da capa da Vera Tavares, da editora Tinta da China, que mostra uma coisa a afundar-se, neste caso Cascais. Cresci em Cascais mas nunca tinha escrito nada passado lá. Como isto é sobre a identidade, disse "vamos lá a Cascais". Tendo a distanciar-me muito, mesmo quando escrevo sobre o que me aconteceu, como n" O Retorno. Tendo a deixar que a ficção faça o seu trabalho. Neste caso, achei engraçado brincar com isso, com referências minhas.

Estão ali muitas referências antigas, a lojas, espaços, pessoas.

As pessoas vou tentando pô-las, e canções e filmes, mas com parcimónia para não parecer um catálogo.

E as redes sociais?

Isso tem a ver com a tal mudança. Esta é a geração que ainda conseguiu esperar que o telefone tocasse e ter as conversas trocadas, e tem na mesma o telemóvel. Os miúdos já não vão ter isso. Isso torna-nos diferentes. Quem passou por essa transição é necessariamente diferente. Não estou a dizer que é melhor nem pior, não tenho esse tipo de juízo de valor. As redes são a mesma coisa. É a primeira vez que a humanidade está tão comunicante, digamos assim.

E ao mesmo tempo não comunicante?

Esse é o paradoxo. A palavra destes tempos é a solidão, quando tudo nos torna mais próximos, não só a tecnologia, que foi uma mudança terrível - terrível no sentido do tamanho, da importância, do valor - nas nossas vidas. Aconteceu o mesmo nos transportes. Podemos andar por todo o lado e estamos cada vez mais sozinhos, Isso tem de ser inquietante e tem de se pensar sobre isso. Eu não tenho preconceito algum nem cruzada alguma contra as redes ou a internet, pelo contrário. Acho uma vitória imensa, uma espécie de descoberta da roda outra vez. Mas são instrumentos. É como se tivéssemos descoberto outra vez a eletricidade mas em vez de a sabermos usar, em vez de produzir luz, começássemos só a apanhar choques. É o que está a passar-se. Nós estamos, como crianças, a usá-las de forma excessiva e desorientada e estão a virar-se contra nós. Mas isso não é culpa do instrumento.

É culpa da nossa utilização?

É culpa do pouco pensamento associado a isso. Curiosamente, há uma elite pensante que diz que as redes sociais não interessam nada. Mas não: mudaram-nos e a maior parte da nossa vida passou a ser virtual. Inclusivamente, como está no romance, o sexo é muito virtual embora, por definição, precise do corpo. Nós estamos a mudar e não perceber isso é perigoso.

Como o livro demorou anos a escrever, a realidade foi impondo novos temas?

Estes tempos também têm isso, é tudo muito vertiginoso. A disciplina de História servia muito para isso - temos de aprender com a História para não repetirmos os mesmos erros. Mas era tudo mais lento. Agora, está sempre tudo a mudar tão depressa e de forma aparentemente caótica. Acho que não é assim tão caótico, nós é que podemos não saber estabelecer as ligações: estando a ordem instituída, quando vem a mudança quem comanda esse caos? Não acho que não tenha a mão de alguém, acho que tem. De interesses vários. Não saber isso e não estar atento faz com que estejamos, por um lado, armadilhados, estamos na roda sem saber o que estamos a fazer, e por outro lado, estranhamente, estamos a ser manipulados, somos vulneráveis, extremamente frágeis.

E vamos aprendendo com os erros?

Não é também inocente o facto de a avó ser demente e ter 80 anos. Nós, deste lado do mundo, estamos a comportar-nos socialmente como um corpo se comporta, estamos a ficar dementes. Três quartos de século é o suficiente para esquecermos o que não devíamos nunca esquecer. E na verdade estamos a a assistir a um reaparecimento lento desses valores. De alguma maneira, a tal normalidade que instituímos e os valores que tivemos como normais durante anos estavam a falhar e não demos conta, não tratámos deles. Como a Eliete não tratou do casamento. Há sempre este paralelo entre aquela vida familiar e o que está a acontecer. E na verdade ser mal amado, ser mal cuidado, tanto diz respeito a uma relação como a um país, a um cidadão. Não me admiro assim tanto com os fenómenos do Brasil ou dos Estados Unidos.

Porquê?

Porque, lá está, estávamos a ser mal cuidados.

E estávamos a cuidar-nos mal a nós próprios?

Sim. E estavam a cuidar mal de uma larga maioria, e essa maioria sentia-se desconfortada e continua a sentir-se mal, fora do sistema, sente-se estagnada. Começa a haver uma falência quando os pais percebem que os filhos não vão ter melhor vida. Esse é o pressuposto, e é isso que os pais querem. Nós somos muito animais, há muito esta coisa da biologia, apesar de termos reuniões de condomínio e de conduzirmos, coisas que nos afastam muito da biologia. Esta ideia de que o meu filho vai ter melhor vida do que eu ...

...é um motor?

Sim. De repente percebo que o meu filho vai ter uma vida pior, por muito que eu me sacrifique, e isto cria um enorme mal-estar. Depois é aproveitar esse mal-estar. A base está criada para o desejo de mudança. Quem a aproveita? Também se pode aproveitar para o bem, e para fazer as tais revoluções que acontecem. Quero ainda acreditar, de forma otimista, que estamos num tempo pré-disruptivo, antes do temporal, que se pressente como os cães sentem. Sentimos que vem aí o temporal. Podemos ainda proteger-nos de forma a que o temporal seja benéfico. Porque às vezes os temporais são benéficos, não são sempre negativos.

A avó, apesar de estar demente, não se esquece do que queria deixar.

A avó tem a ver com aquilo dos três quartos de século, porque me incomoda muito nós estarmos tão esquecidos do que aconteceu há tão pouco tempo. Isso é mais metafórico mas tem a ver com a ideia de por que estamos a prolongar tanto a vida às pessoas se não sabemos o que fazer com elas? Se as pessoas mais velhas se tornam facilmente um fardo, o que é que estamos a fazer? Que políticas vêm a ser estas? É legítimo, é justo, é aceitável que se faça uma operação ao coração de uma pessoa que tem Alzheimer? Em Inglaterra, por exemplo, instituem que a partir dos 70 anos já não se fazem operações, a não ser que as pessoas paguem, é um critério económico. Cá ainda se fazem porque temos um Serviço Nacional de Saúde que, infelizmente, já teve melhores dias. Como se decide isto?

Estamos num tempo de perplexidades, com imensas escolhas que temos de fazer?

Toda esta questão dos mais velhos tinha a ver com a transmissão do conhecimento. Neste momento, as pessoas estão convencidas de que no Google há tudo, e de facto há quase tudo.

Falta o quê?

Substituímos a velha máxima do "só sei que nada sei" por uma outra que é muito perigosa: "só sei que tudo posso saber". Temos esta ideia. Mas falta o tempo e falta a atenção. Porque ter imensa informação num mar digital é dispersivo. Nós não aprendemos de forma dispersa, temos de concentrar-nos. E essa transmissão de conhecimentos que vinha, que era o nosso processo - os mais velhos, a escola, etc. - está a falhar redondamente porque num telemóvel há tudo.

Ficamos pelas primeiras informações que nos aparecem e podem não ser as essenciais, e não são escolhidas por nós.

E não são trabalhadas, acima de tudo. A informação tem de ser trabalhada para dar origem ao conhecimento, e o conhecimento tem de ser trabalhado para dar origem à sabedoria. Tudo isto implica muito tempo para que seja digerido, para dar origem a novas situações. Mas há outra coisa pior, a ideia da possibilidade. Neste momento, quer nas relações afetivas, como está bem explicado, ou pelo menos tentei, no livro, quer no conhecimento, nós temos a ideia de que temos sempre mais. Não vamos investir muito nisto, porque temos milhares de coisas. Vemos um link que não nos agrada e passamos para outro, para outro, para outro. Não era assim. É fácil de ver que isto se torna incomportável. Somos uns papagaiozitos a repetir as tais frases. Por isso é que há as notícias falsas, por isso é que os presidentes têm sido eleitos nas redes sociais mentindo não sei quantas vezes ao dia, porque ninguém confirma, ninguém tem tempo.

A Eliete é uma espécie de Madame Bovary do século XXI?

Que bonito dizer isso. Era bom que fosse. Gosto muito da Madame Bovary, já disse aliás várias vezes que foi um dos livros que me formou e me tornou parte do que eu sou. Em certo sentido sim, ela sente o mesmo tédio. O adultério já não é um choque.

Mesmo assim ela sente que será sempre encarada como uma prostituta.

Isso é outra questão. Essa também é uma grande mudança destes tempos. Escrever um livro sobre uma mulher que é adúltera... como a Eliete diz, ter um marido e um amante toda a gente tem. O trunfo é ter o casamento ideal dos filmes e dos livros. O adultério, de alguma maneira, também se banalizou, porque passou a ser muito frequente e, agora, porque a infidelidade passou a ser outra coisa, este "roça-roça virtual", como ela diz.

Ela usa muitas vezes a palavra traição.

Sim, mas considera mais grave uma fotografia que tira às pernas para pôr no facebook do que inscrever-se no Tinder. Onde está agora a traição? É importante para mim saber se essa traição se consuma, se é necessário um corpo ou se basta a cabeça, já que nós pertencemos aos nossos pensamentos. Acredito que qualquer pessoa tenha tido fantasias com desconhecidos, o problema é o tempo, a duração e a frequência.

E depois há o passo que ela dá, primeiro dizendo que é um jogo e depois entrando no jogo muito a sério, já não é só virtual.

O Jorge [marido de Eliete] tem os jogos do computador, caça pokemons. E ela tem o Tinder, que a princípio ela acha que é um jogo. Mais uma vez, estando insatisfeita, estagnada naquela casamento, não sendo suficientemente feliz para estar imune a esta prisão da possibilidade, e não estando também suficientemente infeliz para se separar, está naquele meio termo, tudo isto surge muito sedutor. Essa vida normal tem uma radiografia da traição. A traição não é uma coisa que lhe acontece de repente, é uma ideia que vai germinando como os pèzinhos de salsa da avó. Isso tem que ver com a tal normalidade. Nós vamos aceitando como normal aquilo que conhecemos. Deixamos de reparar. Damos um passo e passamos a estar nesta realidade, isto passa a ser normal. Depois damos outro passo e, desde que encontremos justificação para ir de passo em passo, conseguimos cometer as maiores atrocidades.

Porque não há regresso? Porque é impercetível?

É impercetível. A normalidade é uma capa onde se pode esconder o que há de mais terrível, o que há de mais absurdo, o que há de mais disparatado, e nós já não reparamos.

Seria possível fazer um paralelo com o nazismo, por exemplo? A realidade vai avançando e torna-se normalidade o que era terrível antes? É preciso um olhar de fora?

Sim. Nós somos agentes e já estamos armadilhados, anestesiados, e fazemos parte do processo. Daí a importância da arte e de algum desconforto que os artistas terão de sentir para ter aquele olhar que é o olhar de uma criança: o que é isto que está a acontecer e que não percebo? A normalidade é uma máquina que vai avançando e engolindo, ou um quarto escuro onde tudo é permitido. As coisas mais absurdas e terríveis vão acontecendo sem que haja um olhar crítico sobre isso. Quando damos conta já estamos do outro lado, como a Eliete já está do outro lado sem perceber bem o que lhe aconteceu. A princípio ela não queria aquilo e até tem aquilo bem justificado. O marido andava a caçar os pokemons, ela ali a brincar a fazer match com uns homens, a copiar a cara da australiana.

A sua construção como escritora também avança por patamares. Primeiro nem sabe muito bem o que é ser escritor, vai procurando em vários sítios, até tira um curso de datilografia porque acha que um escritor escreve à máquina.

É a ingenuidade com que cheguei à escrita e ao meio literário. A figura do editor, o que se faz, eu não sabia. Só sabia que queria passar a vida a fazer isto, ter histórias na cabeça, viver noutros mundos que não aquele em que vivo. Não quer dizer que os mundos que eu crio sejam mais confortáveis, quer dizer que estou fazer um caminho. Estou na tal procura de um entre os infinitos caminhos possíveis para seguir. Os livros têm-me ajudado a fazer essa busca de vida, do que eu quero, através dos livros, dessa possibilidade de ser muitas. Por isso digo que me afasto muito. Por exemplo, em relação à Eliete, não posso ter uma vida mais diferente da dela.

Como apareceu a Eliete na sua vida?

Não sei bem. Só sabia que queria ir buscá-la à normalidade. Até agora as minhas personagens são sempre ou muito diferentes, como por exemplo a Violeta de Os Meus Sentimentos que é muito gorda, ou o Afonso de O Chão dos Pardais que é muito rico, ou o homem do Campo de Sangue que nem sequer tem uma identidade, ou então vivem circunstâncias históricas extremadas, como o Rui de O Retorno. Com a Eliete, eu sabia que para saber da mudança tinha de ir à normalidade, porque é na normalidade que se consegue perceber mais a mudança. Numa situação anormal a mudança não se faz sentir de forma tão dramática. E sabia que queria uma pessoa que não tivesse nada que a distinguisse dos outros.

Uma pessoa banal?

Banal, como ela própria diz, mediana em tudo, na inteligência, na beleza, na família, na condição social. É um desafio muito grande porque habitualmente é preciso haver um gancho. Ela teve outro nome e, até eu perceber que isto era sobre a identidade, não desenvolvia. Eu escrevia, escrevia, há partes que se salvam mas aquilo ficava desgarrado. De repente percebi que ela tinha de se chamar Eliete.

Porquê?

Por causa de uma brincadeira com a identidade e comigo. Eu sempre persegui a normalidade porque sempre me esteve vedada, por circunstâncias da minha vida em que muito cedo fui exposta a uma série de coisas, e não estou só a falar do retorno, e também por opções minhas. Optei muitas vezes por caminhos com poucas pessoas e avistei sempre a maioria e aquela normalidade invejável como inatingível, senti muita sedução por isso. Mas os outros rapidamente me punham no lugar dizendo "nem penses, fica lá na tua esquisitice". Esta sedução não era só em termos filosóficos, era também pessoal. Percebi: vou brincar com isto, vou ver o que poderia ter sido. Eu poderia ter-me chamado Eliete. O meu pai estava já em Angola quando eu nasci. Eu em miúda, não percebendo aquilo da gravidez e o que implicava, dizia que o meu pai já estava em Angola há um ano quando eu nasci, o que os zangava muito e eu sem perceber. O meu pai achava que eu ia ser rapaz, porque tenho uma irmã mais velha e, vá-se lá saber porquê, ele queria um rapaz. Enviou à minha mãe por carta quatro nomes, dois de rapaz, normais, Manuel e Francisco, e para as raparigas, mandou umas fantasias e uma era Eliete.

Dulce não fazia parte?

Era o outro nome mas a minha mãe também não gostou, tanto que lhe acrescentou Maria para ficar Doce Maria, a conselho do padre. Eram dois nomes esquisitíssimos que a minha mãe nunca tinha ouvido, nem um nem outro, e escolheu o menos mau. Fiquei sempre a pensar quem seria a Eliete, onde é que o meu pai foi buscar esse nome. E então aí está ela, a Eliete.

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