A pedofilia é a "maior crise da Igreja em séculos". E a grande luta do papa há seis anos

O papa Francisco prometeu, quando foi eleito há seis anos, tolerância zero no combate à pedofilia por elementos do clero. Mas estes escândalos são o maior problema que tem enfrentado.

O tema do abuso sexual de menores por elementos da Igreja Católica ganhou maior visibilidade, no último ano, com os casos que foram sendo revelados um pouco por todo o mundo: o que já levou ao afastamento de cardeais e bispos.

O papa chegou mesmo a convocar uma cimeira mundial de conferências episcopais, para debater a questão e tentar encontrar soluções. O combate à pedofilia tem sido o grande combate do papa Francisco, desde que foi eleito pelos seus pares há precisamente seis anos.

Ouvido pela TSF, António Marujo, especialista em assuntos religiosos, afirma que este pontificado vai ficar marcado pelos abusos sexuais na Igreja Católica.

O repórter do jornal digital Sete Margens lembrou que o papa Francisco tem dado uma atenção prioritária às vítimas e defende que esse é um bom caminho para recuperar a confiança na Igreja Católica.

"Há muitos crentes hoje dececionados com o que se passa. Há pouco tempo entrevistei o porta-voz do episcopado chileno que dizia que a grande maioria dos crentes perdeu a confiança absoluta na sua hierarquia. Isso para uma instituição que repousa, ou devia repousar, sobre a confiança, sobre as relações fraternas é muito trágico", sublinha o jornalista.

"O papa não consegue sozinho mudar este estado de coisas. Mas creio que vai no bom caminho quando insistia, por exemplo, com a necessidade de os diferentes presidentes das conferências episcopais ouvirem vitimas", acrescentou.

Para António Marujo, o líder da Igreja Católica tem uma missão difícil pela frente, mas que vai ficar para a História.

"Se alguma coisa fica, ou pode ficar, deste papa é a sua vontade de purificar a comunidade dos crentes desta tragédia absoluta que se abateu sobre os católicos do mundo inteiro. Eu estou em crer que esta é a crise mais grave, pelo menos, desde a reforma protestante de há cinco séculos", considerou.

"Hoje, nós estamos a ver situações muito paralelas. Hoje, volta a contar sobretudo a luta pelo poder, pelas honrarias, um grande afastamento em relação ao que são valores essenciais que a Igreja diz querer propor à sociedade e, portanto, se alguma coisa se pode dizer é que este papa quer de novo recentrar a Igreja no caminho de onde nunca devia ter saído", afirma António Marujo.

Um papa revolucionário

Nas declarações à TSF, o especialista em assuntos religiosos lembra que a atenção que tem sido dada à questão dos abusos sexuais está a esconder outras preocupações que o papa tem trazido a público, o que interessa a uma certa oposição dentro da igreja.

"Desde logo ao nível da politica e da economia, das injustiças que grassam pelo mundo fora, do problema do racismo, do crescimento da xenofobia, do aumento da intolerância em relação aos imigrantes e aos refugiados, a todo esse universo", disse António Marujo, acrescentando: "Portanto, há aqui obviamente uma estratégia da parte de muito gente, desde logo no interior da Igreja Católica, que o que quer é que se fale destas questões. Por um lado, ainda bem que elas são faladas, para ver se o papa consegue limpar a casa de vez, mas, por outro lado, têm esse objetivo de fazer esquecer as restantes preocupações do papa, que são muitas e que são muito importantes também."

Apesar da oposição que enfrenta, mesmo dentro da Igreja Católica, António Marujo defende que as reformas propostas pelo papa, assim como o caminho que escolheu seguir, vão continuar no próximo pontificado.

O especialista em assuntos religiosos não duvida que Francisco é um papa revolucionário: "Não somos nós que dizemos. É o papa que diz que quer propor uma revolução dentro da Igreja. Ele fala da revolução da ternura várias vezes. Parecendo à primeira vista que é uma coisa assim apenas da ordem apenas dos afetos. É muito mais do que isso. É uma revolução que se preocupa com os mais frágeis, com que estão abandonados nas margens da sociedade, com aqueles que são excluídos do sistema económico e politico e que hoje são milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. Ora é tudo isso que o papa propõe baseado numa coisa muito simples que é retornar ao evangelho, centrar a igreja na sua matriz e propor essa linguagem, essa proposta à sociedade contemporânea. Ele chama a isso a revolução da ternura. Portanto, é de facto um papa revolucionário nesse sentido."

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