Agua-pé palheta em malga de barro

Uns dizem que faz mal à saúde, outros chamam-lhe o champanhe do povo. Durante séculos a água-pé foi acompanhando os magustos um pouco por todo o país, mas com especial incidência nas Beiras e em Trás-os-Montes.

Trata-se de um vinho mais fraco, com gás (apenas em determinadas zonas de Portugal), e que era dado pelos patrões aos trabalhadores por ser um vinho mais barato.

Os mais audaciosos espremem as uvas em casa dentro de um alguidar, acrescentam água e deixam ferver dizendo tratar-se de água-pé. Mas, o processo requer alguns (poucos) cuidados a mais.

Em plena Bairrada, entre as aldeias de Catraia-Norte e Várzeas, na freguesia do Luso, a TSF entrou numa adega familiar e encontrou quem ainda produza água-pé para dar de beber aos amigos na época de São Martinho.

A torneira abre-se e deixa derramar no chão o líquido grená translúcido durante alguns segundos. Só depois Eduardo Rodrigues ampara a água-pé com a malga de barro. Porquê desperdiçar? "Pode ter moscos na torneira e assim está limpinha", denota.

Está limpinha e saborosa atesta Eduardo Rodrigues, que marca encontros pontuais com David Pinheiro para provar a Água-pé. "É vinho fraquinho. É vindimado, espremido e colocado dentro do pipo a ferver. Não vai ao tanque, metemos no pipo direto e por isso é que ela fica palheta", explica o produtor.

Discutem o processo de fabrico. Um diz que não vai ao tanque ou lagar, o outro tinha quase a certeza que em miúdo via o pai a colocar as uvas e a pisá-las no tanque, misturando depois a água. Mas, estão de acordo em relação à qualidade do que bebem. "Fica palheta e com gás, caso contrário fica morta", justifica David Pinheiro.

Na Catraia Norte, em plena Bairrada fizeram-se 12 almudes de água-pé, o mesmo é dizer 240 litros. Na aldeia vizinha de Várzeas não havia casa onde a água-pé em altura de São Martinho não fosse rainha. Mas, já não é fácil encontrar quem se dedique a fazer a bebida que noutros tempos acompanhava qualquer magusto, mas que servia para outras ocasiões. "Levávamos para a caça um garrafão e bebíamos a olho. Um garrafão para cinco manos e desaparecia tudo".

E quanto ao grau? A pontaria saía afetada? "Não tem mais de oito graus". Pouco álcool, que obviamente afeta quando bebido em grandes quantidades. A pontaria, em jornadas de caça, era sobretudo feita ao garrafão, dependendo da qualidade da água-pé.

Eduardo Rodrigues levou a água-pé para a "castanhada" (nome dado ao magusto na Bairrada) da aldeia de Várzeas. Foi de garrafão na mão, mas para beber água-pé "tem de ser numa malga, não pode ser em copos, nem chávenas, nem canecas, nem nada".

Já na aldeia, à volta de um magusto feito com caruma/agulhas dos pinheiros, as castanhas saltam negras, enfarruscam as mãos e fazem companhia à tradicional água-pé. "Está ótima, está mesmo muito boa e para acompanhar agora só mesmo umas castanhas".

E apesar de o São Martinho ser dado a bom tempo e a dias de sol, a água-pé para ficar no ponto precisa de frio, muito frio.

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