Plástico em Portugal: da Bota Botilde à exploração espacial

A exposição Plasticidade, no Museu de Leiria, conta o triunfo do plástico através dos objetos do quotidiano, numa viagem de 90 anos

Brinquedos, espremedores de citrinos, telefones, sandálias e até a Bota Botilde, popularizada pelo concurso 1,2,3, nos anos 80. No Museu de Leiria, a história do plástico em Portugal é percorrida através de objetos do quotidiano. O plástico está em todas as casas e a pesquisa dos investigadores da Universidade de Lisboa convida a pensar o equilíbrio entre o consumo e o ambiente.

Por meio da sociedade Nobre & Silva, Leiria surge na origem da indústria de plásticos em Portugal e no Museu de Leiria há um lugar reservado para o primeiro artigo saído da linha de produção: alpercatas com sola de borracha. "Procuram-se", lê-se no documento que constitui o item número 2 da exposição Plasticidade.

Com a Nobre & Silva, que aparece meses depois da SIPE, de Lisboa, inicia-se em Portugal a transformação de plásticos, que hoje estão em toda a parte. E para contar a história dos últimos 90 anos, a investigadora Sara Marques da Cruz reuniu uma centena de objetos, doados por empresas e particulares, que responderam ao apelo lançado pelo Município. Incluindo os binóculos utilizados pelo capitão do navio Gil Eanes nos anos 60.

Na exposição Plasticidade, há também triciclos, rádios, serviços de chá, caixas de pão, cantis, pratos e copos de aviões da TAP, farolins de autocarros, cântaros, o rádio La La La e o cinzeiro Joe Cactus desenhados pelo designer Philippe Starck, a cassete amarela que é o primeiro registo dos Silence 4, implantes para medicina e o protótipo de uma cápsula de exploração espacial ao serviço da Agência Espacial Europeia, numa recolha que chega até aos dias de hoje. Mas o percurso começa com o plástico exibido ao lado de moedas romanas, louça do século XVIII e imagens religiosas, num exercício que evidencia como diferentes materiais são escolhidos para os mesmos fins, ao longo dos tempos.

Vânia Carvalho, coordenadora do Museu de Leiria, lembra que a história da cidade e do plástico se confundem, o que não impede o discurso pedagógico sobre a defesa do ambiente: "Não nos abstemos de discutir as questões ambientais, antes pelo contrário. São óbvias e têm de ser discutidas", afirma. Mas, em Leiria, o plástico é uma questão identitária. "Um dia teríamos de fazer uma exposição sobre o plástico. Escolhemos uma boa altura, que é a altura em que as notícias todas são sobre como o plástico é o maior vilão. Será que é? Será que são as pessoas que efetivamente não têm uma série de preocupações que deveriam ter?"

Com a explosão do negócio, nos anos 40, as novas fábricas mudaram a paisagem do concelho e empregaram a população que até aí só trabalhava no campo, explica Sara Marques da Cruz. Uma convivência mais evidente na zona da Gândara, com oficinas, hortas e residências lado a lado.

A exposição Plasticidade inclui testemunhos em vídeo de antigos operários, mas apresenta o plástico na relação com vários domínios, incluindo as artes plásticas. Faz parte do projeto O Triunfo da Baquelite, liderado pela investigadora Elvira Callapez, da Universidade de Lisboa, que sublinha a importância económica e social do setor e o modo como se impôs: "Era um processo de imitação, era fácil. Com uma "maquinazinha" numa garagem com um pozinho tinham-se as rolhas, os frascos para perfumes, alpercatas".

Os visitantes são também convidados a refletir sobre o impacto do plástico no planeta, em especial nos oceanos, que determina uma mudança de comportamentos.

Segundo Elvira Callapez, a indústria está a adaptar-se à legislação mais recente e a pesquisar novos materiais, que a exposição também dá a conhecer. Dos bioplásticos aos compósitos. O que a leva a concluir que "o plástico nunca vai desaparecer", porque "cumpre muitos objetivos" e "resolve muitos problemas".

Leiria continua a ser um polo importante nos plásticos em Portugal, com produtos cada vez mais complexos, de que são exemplo os componentes para a indústria automóvel. E o vice-presidente do Município, Gonçalo Lopes, sublinha que a riqueza produzida beneficia outras atividades na região: da cultura - o Teatro José Lúcio da Silva foi uma doação à cidade de um dos sócios da Nobre & Silva - ao fabrico de moldes na Marinha Grande. A Câmara de Leiria pretende agora aproveitar a investigação realizada para um futuro museu da indústria.

A exposição Plasticidade está patente no Museu de Leiria até dezembro de 2020.

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