Américo Amorim. De rei da cortiça a imperador da energia

Desde o século XIX que a família se dedica à indústria da cortiça. Era na fábrica dos pais que o menino Américo tinha brincadeiras de meninice, até se tornar no empresário mais rico de Portugal.

Américo Ferreira de Amorim nasceu a 21 de julho de 1934, na freguesia de Mozelos, em Santa Maria da Feira. Filho de Américo Alves de Amorim e Albertina Ferreira, recebeu dos pais o sentido e a responsabilidade do trabalho, sendo educado, desde a meninice, no ambiente da pequena empresa da família, cuja origem remonta a 1870, ano em que foi fundada a primeira fábrica para a produção manual de rolhas de cortiça para as garrafas de vinho do Porto.

Américo Amorim costumava dizer que praticamente nunca brincou. Ou foi ensinado a converter as próprias brincadeiras em trabalho útil. Por isso, desde criança que passava todos os seus tempos livres ajudando os pais quer nas tarefas de casa, quer na própria empresa onde o seu pai angariava o sustento da família.

Frequentou a escola primária na sua aldeia natal, e logo a seguir começou a trabalhar regularmente na pequena fábrica de cortiça, tal como os irmãos, sob as orientações e o rigor educativo dos pais. Mais tarde retomou os estudos concluindo o curso geral do comércio, escolhido pelo pai para que o rapaz pudesse ser mais útil ao negócio da família.

Concluída aquela formação, ingressou nos quadros da empresa "Amorim & Irmãos", que havia sido fundada em 1922 por seu pai e tios. Esta seria a primeira do universo de empresas que viriam a constituir a "Corticeira Amorim, SGPS, SA". Américo Amorim passou então a trabalhar nos serviços administrativos, onde aprendeu os segredos de bem comprar a matéria-prima, e bem vender os produtos transformados.

O salto para a modernidade dos derivados de cortiça

Na sequência da era das rolhas, outros produtos derivados da cortiça viriam estimular o espírito empreendedor de Américo Amorim. Por isso, com os seus irmãos, participou na fundação da "Corticeira Amorim", da "Ipocork" e da "Champkork". Era então chegado o momento de dar o salto para o aproveitamento total da fileira da cortiça, criando uma série de produtos derivados, destinados às mais diversas indústrias.

A "Corticeira Amorim" organizou-se em cinco unidades de negócio, numa lógica integrada de aproveitamento total de todos os produtos da cortiça, acabando, na prática, com qualquer tipo de desperdício. As cinco unidades de negócio do grupo incorporaram matérias-primas, rolhas, revestimentos, aglomerados compósitos e isolamentos.

Nesta nova fase de desenvolvimento, Américo Amorim passou a liderar todo o negócio em Portugal, fabricando produtos para incorporação em indústrias tão diversificadas e exigentes como a aeronáutica, a construção, a indústria vinícola, etc. O poder de inovação que Américo Amorim imprimiu ao negócio tornou-o no maior industrial mundial do setor, representando 30% da transformação mundial de cortiça.

Tirando partido do facto de Portugal ser o maior produtor mundial de cortiça, e, simultaneamente, detentor da maior área florestal de sobreiro, Américo Amorim introduziu práticas de desenvolvimento sustentável do setor, apostando forte na inovação e investigação. Adquiriu enormes montados de sobro, e passou a assegurar o escoamento total de toda a produção de cortiça produzida no país, deixando assim à liberdade dos produtores venderem a matéria-prima a quem entendessem, mas na certeza de que as suas empresas assegurariam a absorção da totalidade da produção dos montados.

O salto para outras áreas de negócio

Já consolidado como um dos maiores empresários nacionais, Américo Amorim fundou uma outra holding, a "Amorim - Investimentos e Participações, SGPS, SA", através da qual passou a diversificar os seus negócios, nomeadamente com pesados investimentos no setor da energia, do turismo e da banca.

Nos últimos anos, Américo Amorim estendeu os seus investimentos a diversos continentes, e nas mais variadas áreas. Tornou-se um dos principais acionistas do Banco BIC Português, a terceira maior instituição bancária de Angola.

Em nome individual Américo Amorim concentrava participações sociais de relevo em vários outros negócios, nomeadamente na Galp Energia e no Banco Popular espanhol, onde era o terceiro maior acionista. De igual modo tinha fortes investimentos nas áreas imobiliárias e no turismo.

Segundo a revista Forbes, Américo Amorim era, em março deste ano, o homem mais rico de Portugal, com uma fortuna avaliada em mais pouco mais de quatro mil milhões de euros, à frente de Alexandre Soares dos Santos e de Belmiro de Azevedo.

Todavia, Américo Amorim sempre teve uma vida relativamente discreta, e muito longe das excentricidades típicas de alguns multimilionários. Em agosto de 2011, quando a crise financeira do país afetou drasticamente o seu império, ao ser questionado por um jornalista sobre a sua disponibilidade para pagar um imposto extraordinário sobre as grandes fortunas, declarou: «Não me considero rico. Sou apenas um trabalhador».

Ao longo da sua vida, Américo Amorim foi agraciado com múltiplos prémios, homenagens e condecorações, que lhe foram atribuídas pelas mais diversas instituições públicas e privadas. Entre outras, relevam a comenda da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial, em 1983, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, que lhe foi atribuída pelo Presidente Jorge Sampaio em 2006.

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