Arminda todos os dias olha para cima e agradece

Há um mês que a vida no concelho da Amadora passou a ser gravada. É a primeira autarquia do país a recorrer à videovigilância para reduzir a criminalidade. Em geral, a população está satisfeita.

Foi a 11 de maio que a autarquia conseguiu finalmente instalar 103 câmaras que gravam imagens nos locais considerados mais perigosos. Pequenas câmaras redondas, como globos oculares, colocadas no topo de postes metálicos, semelhantes aos postes de iluminação pública.

"Há uma aqui no jardim, ali atrás daquelas árvores, tem outra ao pé da estação dos comboios e do outro lado, há uma mesmo à frente da Câmara Municipal". José Mesquita deu-se ao trabalho de procurar as câmaras neste triângulo crítico em termos de segurança. É um bom roteiro.

Helena vive há décadas nesta zona do centro da cidade, às portas do centro comercial Babilónia. Hoje encontramo-la na rua porque ainda é dia. "Tenho medo, quando são aí umas seis ou sete horas fecho-me em casa. Já fui assaltada, achei que o homem me ia esganar. Tentou levar-me o fio do pescoço...". Desde então o medo ficou-lhe entranhado na vida, "acho que com as câmaras está melhor, mas se eles puserem uma meia na cara, como é que a polícia vai saber quem foi?".

Ninguém pode dizer que não sabe que está a ser filmado. Tantos são os sinais de aviso. Nas praças, jardins, rotundas e junto a locais muito frequentados, lá está a placa ou o cartaz gigante a garantir que nada escapa, agora, aos olhos das autoridades.

"Constrangedor!" Soraya resume a situação numa palavra. "Acho que é uma falta de respeito filmarem as pessoas em qualquer circunstância. A gente nem se sente à vontade para dar um beijinho na rua". O namorado, Leroy, concorda, mas o que o incomoda mesmo é a ideia de que todos os criminosos do país estão na Amadora. "Porque é que tem de ser só aqui. Porque não fazem isto em Lisboa, onde há tantos turistas, tantos assaltos?"

Mesmo à frente da estação de comboios, Arminda tem uma banca de flores. Há muito tempo. Já viu de tudo e todo o tipo de crimes. "Eu como estou aqui e vejo tudo, às vezes até ajudo a polícia a dizer para onde é que eles fugiram. Era todos os dias, com telemóveis, malas, carteiras, uma correria com as coisas roubadas mesmo aqui".

Ao lado da banca de flores está uma das câmaras de vigilância. Para Arminda é como se fosse uma proteção divina. Explica porque é que tem o osso do peito tão saliente e dois dedos da mão esquerda tortos: "Tenho sido uma vítima, aqui onde estou. Já me assaltaram várias vezes. Os dedos foram partidos por causa dos esticões para me roubarem o fio de outro. Noutro assalto partiram-me o externo, lançaram-me as mãos ao pescoço para me arrancar o fio outra vez".

Mas resistiu, e o fio de outro nunca mudou de mãos. "Já não o trago é ao pescoço. Tenho-o sempre em casa e de vez em quando vou olhar para ele. Tenho muito orgulho em não o ter deixado roubar." Agora, Arminda todos os dias olha para cima e agrade.

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