Atum que vale ouro. Os portugueses que arriscam tudo nos mares da Madeira

Meia dúzia de barcos ainda resistem na pesca do atum no Porto Santo, mantendo a técnica ancestral de salto e vara. A TSF acompanhou estes pescadores e foi descobrir como procuram fazer frente à concorrência dos barcos espanhóis.

Passava pouco das 5h00 da manhã quando o despertador tocou. Às 6h00, ainda sem o dia clarear, a cacimbar, lá chegámos ao porto de Porto Santo. De luz acesa, atracado, agarrado ainda a terra, está o Amazónia: a pequena traineira que há de levar-nos mar adentro. Na vontade dos seis tripulantes que compõem o Amazónia está um carregamento total da traineira com atum, mas Arnaldo Dias, o mestre da embarcação, sabe que são mais os dias em que este cenário não acontece do que aqueles em que vêm para terra de sorriso no rosto.

As águas estão ainda frias. Estão a demorar a aquecer este ano. E águas frias significam menos atum. Talvez lá para finais de setembro, inícios de outubro, as águas estejam no seu ponto forte.

Mas a temperatura da água não é o único problema da meia dúzia de embarcações de Porto Santo, que resistem neste porto da ilha da Madeira. O cerco aperta-se na costa africana e é cada vez menos o atum que sobe até aos mares da Madeira.

E de quem é a culpa? Arnaldo não pensa na resposta: "Aqui estamos lixados, não há hipótese. Ainda ontem estavam aqui encostados à Madeira dois ou três barcos deles [os espanhóis]. E eles têm uma capacidade que nenhum barco dos nossos tem. A água salgada fica logo água doce. Nós temos um tanquezinho".

O problema é conhecido das autoridades portuguesas. Lá mais abaixo, no Golfo da Guiné, com dispositivos de agregação de peixe, os cercados espanhóis retêm grande parte do atum. "Há 27 mil dispositivos localizados no mar. Os mercadores não são seletivos e alteram as rotas migratórias", explica à TSF Luís Ferreira, diretor regional das pescas da Madeira. "Temos mostrado o nosso descontentamento", afirma.

A capacidade e a potência das embarcações portuguesas tem melhorado, mas a arte de pesca é a mesma de há séculos: a salto e vara. É uma arte de pesca mais artesanal, e por isso com menos impactos ambientais, com o atum a ser pescado um a um.

Se é possível mudar esta situação? Sim, mas será difícil. Até porque a solução é política. Mas, também mostrando que a forma de pescar a cerco afeta os recursos existentes. "É difícil de conseguir porque a pesca de cerco foi autorizada e os pescadores têm os seus investimentos, mas não devíamos estar a permitir tantos dispositivos", acrescenta.

Lá no cimo do Amazónia, todos os olhos são poucos para avistar as cagarras. São elas que nos indicam onde pode estar uma boa mancha de atum. Arnaldo vai ao leme do Amazónia de binóculos postos nos olhos e procura estes pássaros da família das gaivotas. Uma vez encontradas em grande quantidade pode significar um bom cardume de atum. E, uma vez encontrado o atum, até porque "é um peixe estúpido", este cola-se ao fundo da embarcação e persegue-a, acabado capturado na totalidade.

Uma ilha de assaltos e pilhagens a "fisgar" o turismo

Para trás, em direção ao alto mar, deixámos a ilha de Porto Santo, descoberta há 600 anos por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, no meio de uma tempestade, no regresso do norte de África, o que originou o nome da ilha, este porto que é santo. E também a pesca é hoje uma pequena ilha comercial no Porto Santo. Há toda uma história ligada ao mar, mas que está a desaparecer, sobretudo porque há falta de mão-de-obra. "Há muita gente desempregada, mas que não quer trabalhar. Nós chamamo-las, mas elas não querem vir. Querem estar é no café", lamenta o mestre Arnaldo Dias.

Se por um lado o turismo cresce no Porto Santo, por outro decai a pesca e o número de pescadores.

José Idalino Vasconcelos é o presidente da Câmara Municipal da ilha dourada, considerada como a pérola do atlântico. Ele que até era empresário do ramo do turismo, e de humildes famílias de pescadores, sente que é preciso fazer alguma coisa para combater a morte eminente da pesca em Porto Santo. Talvez junto das escolas: "Se calhar, alertá-los para a importância do mar". Até porque peixe não falta na costa porto-santense.

Enquanto navegamos à volta daquela que foi ilha de pescadores e onde cada vez são menos os barcos que partem para a pesca em alto mar, sabemos que há muitos dias que não compensam o trabalho e a despesa, porque há que pagar aos pescadores, o gasóleo da traineira, o gelo, o tempo perdido, e esperar pela espécie mais tardia e mais abundante nos mares da Madeira: o atum gaiado.

Pedro Dias, Carlos Alves, Duarte Teixeira, Alberto Martins e José Silva são alguns dos pescadores com quem falámos para esta reportagem e alguns dos que resistem na pescaria, na ilha dourada que nos anos 70 via a maior parte das mulheres trabalhar numa fábrica de conservas que hoje não existe, tal como não existem os profetas e as profecias de outrora, a extração de cal, e o engarrafamento de água gaseificada.

Hoje, o que dá nome à ilha e está em forte crescimento é o turismo. É aqui que brota um mar de oportunidades. Nélio Mendonça, da Mar Dourado - Desportos Náuticos, leva-nos por um percurso em mar alto. Os turistas chegam, sobretudo, com vontade de ver golfinhos. Connosco vão ingleses, alemães, americanos, e alguns portugueses. "A nossa viagem é ilhéu de cima e ilhéu da cal. Por vezes fazemos o ilhéu do ferro. À volta da nossa ilha existem seis. Não é em todos os lados que temos uma reserva marinha com tanto peixe como esta tem", diz.

Mas, a viagem de duas horas passa também junto à costa para apreciar fauna e flora únicas do Porto Santo, e formações geológicas que, no mundo, só se encontram na ilha dourada, como é o caso do cabeço das laranjas, composto por fósseis de algas vermelhas, o maior afloramento do mundo, explica Vítor Meneses ao passarmos pelo Ilhéu do farol ou ilhéu dos dragoeiros.

E a pesca de que falávamos ao início, também ela é tema, nas visitas turísticas. Chegou a ser de tal maneira intensa, que há agora sítios no Porto Santo que são reservas marítimas, onde a pesca é proibida.

Pouco mais de 40 km2 de terra, com mais de 600 anos de história: de assaltos, de pilhagens, de profecias, de areias douradas e de pesca a salto e vara. Terra de gente humilde e acolhedora.

O negócio da cal desapareceu nos finais dos anos 70, na mesma altura em que fechou portas a fábrica de conservas de peixe, e na mesma era em que as casa de Porto Santo deixaram de ter a secar ao sol, escalado (aberto ao meio), o atum gaiado. "Abriam, talhavam, enchiam de sal e punham ao Sol umas duas a três semanas", recorda Romero Mendonça. "Hoje em dia já não se vê ninguém a fazer isso. A tradição acabou".

As tradições acabam e a que está ligada à pesca está a perder-se, mas não a ligação ao mar e ao que se pode dele aproveitar como turismo.

Cresce o número daqueles que chegam ao Porto Santo para banhos de praia e sol, na ilha que tem a coragem de passar um ano inteiro sem saber o que é chover.

Pescado na Madeira e vendido a preço de ouro no Japão

Há cinco espécies de atum (gaiado, voador, patudo, albacora e rabilho) e todos chegam em quantidades diferentes. Grande parte do atum pescado nos mares da Madeira é para exportação: o Japão é o destino principal, e os japoneses estão disponíveis para pagar muito, garante o Chef Cordeiro, curador do Festival Gastronómico Rota do Atum, organizado pelo Hotel Vila Baleira.

O atum pescado por embarcações porto-santenses é descarregado e pesado no Porto Santo, mas depois é levado em gelo para a Madeira para iniciar o circuito comercial. Só o Hotel Vila Baleira, nesta pequena ilha, consome cerca de sete toneladas de atum por ano, e foi aqui que o atum foi homenageado em Festival pela primeira vez, pela importância que representa na economia local.

E é acompanhados pelo chefe Cordeiro e pelo chefe Manuel Santos, desta unidade hoteleira porto-santense, que voltamos a embarcar, e voltamos ao Salto e Vara. Espera-nos no porto o Ponta do Espartel, uma embarcação madeirense com mais de 27 metros.

Jorge Sousa é o mestre do Ponta do Espartel e tem ao seu comando 16 pescadores. Pescam apenas de abril a novembro e há que, nestes sete meses, juntar dinheiro para o ano inteiro.

Depois de seis dias em alto mar, o Ponta do Espartel traz no convés cerca de 6 toneladas de atum. "Paramos o barco, o peixe fica por baixo e vamos pescando. Em média ficamos quatro a cinco dias e depois vem outro barco substituir-nos", esclarece.

A pescaria nem foi má, mas poderia ser melhor ou não estivesse condicionada a pesca do rabilho, a maior espécie de atum, mas que não abunda, e que pode chegar mesmo aos 560 kg por exemplar.

O atum rabilho estava em vias de extinção e por isso é uma espécie protegida. A Direção Regional das Pescas da Madeira, garante Luís Ferreira, o diretor, está a lutar para uma alteração deste controlo apertado à pesca do rabilho.

Por cada exemplar destes pescado, as embarcações têm de trazer para terra 19 atuns das outras quatro espécies. As preocupações começam a voltar-se agora para o atum patudo. Estudos acerca da sua biomassa mostram que os stocks estão a diminuir.

Nos anos 90, a Madeira tinha uma quota de pesca desta espécie de cerca de 360 toneladas. No total das cinco espécies, a quota portuguesa (Madeira, Açores e Algarve) é alterada de três em três anos e varia consoante a biomassa e os stocks existentes. "Para este ano, no caso do atum patudo, andará por volta das 3500 toneladas, o voador 2200 toneladas, e no rabilho 470 toneladas, embora a maior parte seja dirigida para o Algarve", enumera Luís Ferreira.

Parece muito, mas quando se fazem as contas, o rendimento dos armadores é muito baixo. Quando não se avista atum, e por forma a pagar as contas pescaram-se garoupas e pargos.

Foi o que o Amazónia fez no dia em que a TSF acompanhou a faina em alto mar. Atum nem vê-lo.

O peixe que trazemos para Porto Santo recebe o gelo que o irá preservar na viagem até ao Funchal. O atum pescado pelos pescadores porto-santenses viaja demais. Só as unidades hoteleiras da ilha consumiriam grande parte. Ele vai voltar, mas com menos qualidade e a um preço mais elevado. Para descontentamento dos chefes de cozinha das unidades hoteleiras locais.

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