A manifestação que saltou das redes sociais para o Palácio de Belém

Centenas de pessoas responderam a convocatórias pelo Facebook. Quase não se conheciam mas acabaram todos a cantar o hino nacional e a gritar "tira férias". Muitos à ministra, alguns ao Governo.

Ninguém sabia muito bem ao que ia. Os primeiros a chegar olhavam em volta, tímidos, à procura de sinais: bandeiras, palco, alguma coisa. Mas não havia nada. Foi só o apelo e as pessoas foram.

João Galrinha foi pelos avós que morreram quando fugiram de carro na aldeia de Relvas, em Santa Comba Dão. "Viram a parte de baixo da casa arder e decidiram fugir de carro, morreram carbonizados". A voz de João foi uma das que mais sobressaiu quando se gritou "Vai de férias!", o desafio irónico à ministra da Administração Interna.

Grande parte da manifestação foi passada em silêncio, no jardim frente ao Palácio de Belém, às escuras e vazio. Alguém pedia um microfone, entre os organizadores questionava-se o que fazer. Pedir um minuto de silêncio, agradecer a presença das pessoas? Entre os manifestantes improvisava-se. Alguém trouxe uma caixa de velas e cumpriu-se a ideia de fazer também uma vigília pelas vítimas dos fogos.

Manuela Vasconcelos foi movida pela aldeia de Arganil, a aldeia do avô, da família, que desapareceu. Traz um pequeno cartaz, ou melhor uma folha de papel com um desenho, "foi a minha filha que desenhou esta noite quando lhe disse que vinha à manifestação". O desenho tem cores muito fortes, o verde e o vermelho. As árvores e as chamas em cima de uma casa. "Sinto uma grande revolta, somos o país mais seguro do mundo para os turistas, mas não é seguro para quem cá vive".

À medida que o tempo passava, a chuva aumentou e as pessoas foram-se soltando. Os slogans também foram endurecendo, depois de cantarem o hino nacional, vieram assobios, e depois dos assobios as palavras de ordem: vergonha e demissão foram as mais gritadas. Primeiro dirigidas à minsitra da Administração Interna, depois a António Costa.

Algumas pessoas mantiveram-se em silêncio, de vela na mão, debaixo do chapéu-de-chuva. Isabel mantinha o olhar duro, "vim aqui porque me sinto desamparada, os portugueses sentem um grande desamparo", e o que poderia dar-lhe algum conforto, nesta altura? "Não sei, talvez só uma palavra, uma atitude. Tudo menos indiferença".

Ninguém ouviu o Presidente da República. Marcelo estava em Oliveira do Hospital, os manifestante sabiam, mas não deixaram de ficar ali algumas horas, de olhos postos no Palácio de Belém.

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