A app portuguesa que quer ser a voz de quem tem problemas na fala

Um grupo de alunos do 3.º ano de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra criou a Clave de Fala, uma aplicação de telemóvel para facilitar a comunicação a quem tem problemas. Está disponível a partir desta quarta-feira e é totalmente gratuita.

Pedir uma indicação, marcar uma consulta, fazer um pedido num restaurante. São coisas simples do dia-a-dia, que se tornam complicadas para quem tem problemas na fala. A pensar nisso, um grupo de alunos de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra desenvolveu uma aplicação de telemóvel que facilita a comunicação a quem tem limitações na voz.

O desafio surgiu na disciplina de Processos de Gestão e de Inovação - os alunos tinham de desenvolver uma ideia inovadora no mercado. A inspiração veio de um dos elementos do grupo. "O Cláudio é limitado de voz. Nasceu com problemas auditivos e, por isso, não fala como nós; tem algumas dificuldades na fala", conta Joana Lameiras, uma das autoras da aplicação. "Ele explicou-nos que às vezes, por exemplo, quando ia às compras, a dar o número de contribuinte sentia algum embaraço porque as pessoas não o percebem bem. Nós pensámos numa maneira para dar a volta a este problema; mesmo evitando a fala, que permitisse a comunicação".

Joana Lameiras, Cláudio Gomes, André Correia, António Eloi, Pedro Silva e Telma Portugal lançaram-se ao trabalho e criaram a Clave de Fala - uma aplicação de telemóvel que permite a quem tem problemas de voz emitir frases básicas e, assim, comunicar.

A Clave de Fala funciona de forma muito simples. Ao entrar, o utilizador deve escolher uma de seis categorias: Saúde, Transportes, Direitos, Alimentação, Compras e Direções. Depois, seleciona a frase que deseja. Telma dá o exemplo da categoria 'Saúde': "Dentro dessa categoria encontra subtemas como 'Hospitais e Centros de Saúde' e surgem frases como 'Qual é o hospital mais próximo' ou 'Qual é o autocarro que vai para o hospital mais próximo'".

São pedidos de informação que facilitam o dia-a-dia: "Qual é a praça de táxis mais próxima?", "Tem este produto noutra cor?", "Queria marcar uma consulta".

Para chegarem às frases mais úteis, a experiência de Cláudio foi fundamental, mas contaram também com a colaboração da Associação Portuguesa de Limitados da Voz.

Para além disso, a aplicação permite editar as frases já existentes, para que o utilizador as possa adequar às necessidades que tem. E está já prevista uma outra funcionalidade em que é possível registar informações básicas, que vão do número do cartão do cidadão, ao tamanho das calças ou ao nome de um medicamento. A aplicação "aprende" com o perfil criado e com as ações do utilizador, de forma a sugerir a melhor frase possível a qualquer momento.

António Eloi, um dos inventores, garante que ainda não existia nada deste género. "Das pesquisas que fizemos, concluímos que as ofertas que existem no mercado português são bastante limitadas, porque não têm um menu intuitivo o suficiente para comunicar de forma rápida e eficaz. Para além disso, a maioria das ofertas obrigam a um pagamento, o que não se enquadra muito num projeto social; alguém que já tem problemas ter ainda de pagar algo que devia ser gratuito para todas as pessoas".

A "Clave de Fala" é grátis. O grupo acredita que comunicar deve estar ao alcance de todos. Também por isso, o código que construíram para esta aplicação vai estar em domínio público. "Qualquer pessoa, investigadora ou não, pode contribuir para o desenvolvimento deste projeto. E com o código público, ninguém pode usar este tipo de serviço para extrair dinheiro de pessoas que necessitem. Não faria muito sentido termos um código privado quando queremos ajudar as pessoas", explica António.

Todos os contributos são bem-vindos, para tornar a aplicação ainda melhor. A aplicação está disponível para o sistema Android a partir desta quarta-feira e pode ser descarregada aqui . Foram os alunos que suportaram os custos envolvidos. Também já construíram o código para iOS, mas é mais caro e por isso ainda não conseguem disponibilizar. Joana garante, no entanto, que o desejo é chegar a todos os que precisem de uma nova voz. "O nosso objetivo é mesmo ajudar todas as pessoas e criar o melhor produto possível. Por isso mesmo, vamos continuar a fazer esta aplicação funcionar e queremos tornar isto o mais global possível".

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