Entrevista TSF

O futuro sorri à ciência nacional. A convicção de uma das mais conhecidas cientistas portuguesas

Elvira Fortunato foi uma das figuras do ano ao vencer uma bolsa europeia de 3.5 milhões de euros. A verba chega em janeiro para um ano que a cientista acredita que vai ser bom para a investigação nacional.

"Não me posso queixar, digo sempre que sim, mas este ano foi um bocadinho diferente", começa por dizer Elvira Fortunato à TSF. Com 54 anos, é um dos nomes mais conhecidos e respeitados na ciência portuguesa. Em jeito de balanço, a cientista pioneira mundial na eletrónica de papel sublinha que "em termos pessoais, profissionais e científicos", este ano "foi muito bom, melhor do que outros".

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O facto de ter vencido pela segunda vez uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação contribuiu em muito para esse balanço positivo. No caso, a verba é de 3 milhões e meio de euros e vai começar a ser executada a partir de janeiro. "Vou ter cinco anos para desenvolver este projeto. Daquilo que queremos fazer, é um bocadinho na mesma linha do que investigamos, novos materiais, a sustentabilidade dos materiais, usar materiais para eletrónica que existam na natureza", aponta a investigadora da Universidade Nova de Lisboa.

"Vamos muito utilizar tecnologias disruptivas usando a parte digital, dos lasers, da impressão, para desenvolver estas coisas todas. E, depois, há um conceito muito interessante que é novo: aquilo que vamos tentar fazer - e que nos propusemos a fazer com este projeto - é, em vez de ter um circuito integrado em que tenho de integrar vários dispositivos e integrá-los para fazer uma função, aqui vai ter só um dispositivo - imagine, um sensor - que é capaz de fazer várias funções. Tenho aquilo a que se chama função integrada em vez de ter um circuito integrado. É um conceito novo e é isso que vamos explorar tendo por base estes materiais com que trabalhamos", diz com entusiasmo Elvira Fortunato à TSF.

A bolsa europeia vai ajudar na contratação de recursos humanos, mas, acima de tudo, vai possibilitar dotar a região de Lisboa de tecnologia que ainda não tem: "um microscópio eletrónico de transmissão de elevada resolução, quase que à escala com resolução atómica". Traduzindo, Elvira Fortunato indica que este equipamento "vai permitir correlacionar o funcionamento daqueles dispositivos, daqueles sensores, exatamente com a forma de como os átomos se vão ligar uns aos outros, com a estrutura do próprio material". "Abaixo de Aveiro, não existe equipamento nenhum com estas características. Vai ser também uma forma de dotar a região de um equipamento de elevada resolução. No fundo, não só resolver os problemas internos do nosso centro de investigação, mas disponibilizar este equipamento para a comunidade científica", explica.

Mas e a ciência em Portugal em 2018?

"O balanço que faço é positivo", começa por dizer a investigadora e aponta logo dois motivos à cabeça: "houve um aumento significativo do número de projetos aprovados, houve também um aumento significativo do número de contratos ao nível do emprego científico". Ainda assim, há uma coisa importante e que está em défice na comunidade cientifica - a estabilidade.

"Nunca sabemos quando é que vai abrir uma nova call para projetos. Pode demorar dois anos, três anos, um ano. O financiamento é sempre uma peça muito importante mas, mais importante do que o próprio financiamento, é saber que financiamento vamos ter, seja muito ou pouco. Ter alguma estabilidade e ter alguma programação", refere à TSF Elvira Fortunato. "Fazemos investigação científica, temos alunos, temos projetos, fazemos previsões, mas temos de ter algum alcance de alguns anos. Temos de saber se vamos investir agora nesta área, se vamos investir noutra, e isso depende um bocado das ferramentas que existem", sublinha.

Olhando para 2019

Depois de salientar que em 2018 houve aspetos positivos ao nível dos projetos científicos e dos recursos humanos, a cientista portuguesa lembra ainda os "Laboratórios Colaborativos" apoiados pelo governo. Em linhas gerais, são projetos que pretendem ligar universidades e empresas. Algo que é fundamental para o futuro: "por vezes, nas universidades, temos projetos magníficos, temos um conhecimento enorme mas falta-nos a outra parte que é a inovação, transferir o conhecimento para o mundo real, para as indústrias. Falta na Europa e falta ainda mais no caso português".

É com este desafio que Elvira Fortunato lança o futuro da ciência nacional e até de forma otimista. Questionada se o futuro sorri a Portugal em termos de ciência, a professora da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa não tem dúvidas: "acho que sorri". Ainda assim, alerta que os cientistas têm de alargar horizontes quando se pensa em financiamento. "É evidente que não podemos só estar dependente dos fundos nacionais ou dos projetos a nível nacional, os investigadores vão ter sempre de concorrer a outras fontes de financiamento, sejam fontes europeias, sejam projetos com empresas", diz.

Voltando à ideia base da ligação academia-indústria, Elvira Fortunato lembra que, por vezes, há empresas que não sabem o que é que as universidades têm. "A nível científico somos muito bons e isso até é reconhecido pela comunidade científica internacional, mas no tecido empresarial não têm esse conhecimento. Existe uma separação entre estes dois mundos. Penso que, cada vez mais, vamos ter de trabalhar com eles", alerta a cientista.

Afinal, diz Elvira Fortunato, "tudo isso vai alavancar-nos para que consigamos fazer cada vez mais uma ciência melhor e mais útil à sociedade. A sociedade quer ver retorno e é para a sociedade que nós trabalhamos", conclui.

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