De um matadouro fazer vida

Parecerá um paradoxo, mas é essa a ideia da câmara do Porto: transformar o antigo matadouro municipal numa âncora da zona oriental da cidade.

O desenho é da primeira década do século passado. Jorge Garcia, o arquiteto que agora lhe dá a volta para o devolver à vida, é quase setenta anos mais novo. Mas passou boa parte da vida que já tem com vista para o edificado: "nasci ali, cresci ali, e sempre me identifiquei com aquele lugar, com aquele edifício. Por isso nunca me passou pela cabeça destruir-lhe o perfil".

Reportagem de Artur Carvalho sobre a recuperação do antigo matadouro municipal do Porto

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Jorge Garcia é o responsável do projeto de arquitetura para a reabilitação do matadouro municipal do Porto que ontem foi apresentado na Trienal de artes, arquitetura e design de Milão.

Quando estiver recuperado, o espaço vai acolher o Museu da Indústria, fechado há vários anos, mas também artes e ofícios tradicionais - cada vez com mais mercado -; e, entre outros negócios, empresas já firmadas que possam chamar outras que empreguem de gente dali.

Dali, Campanhã, território degradado, frágil, pobre. É "outro mundo", se comparado com o Porto que, tão perto mas tão longe, vibra a ocidente. Naquela espécie de face escura da cidade, é preciso começar por algum lado. De um matadouro pode fazer-se vida? Pode, diz Rui Moreira, o presidente da câmara, e não é uma convicção de última hora.

"O matadouro insere-se numa estratégia que foi pensada pela minha candidatura. Nós dissemos na altura ao que vínhamos, que para nós havia três pilares: a cultura, a coesão social e a economia. E dissemos que isso devia ter como principal enfoque Campanhã. Falamos naquilo que era a cidade abandonada, a cidade que se tinha desindustrializado, os espaços que estavam disponíveis. Está lá tudo. Pensávamos, e continuamos a pensar, que através da cultura era possível promover, quer a coesão social, quer quer a economia e é o que vamos fazer no matadouro".

E essa ideia colhe, há interesse, expectativa dos que vivem à volta sobre o que ali vai ser feito? O arquiteto que desenhou o renascimento do matadouro diz que sim.

"Estão sempre a questionar o que é que vai acontecer, o que é que vai surgir ali. Dizem que estão ansiosos que algum dia haja uma mudança. E isso, obviamente, dá-nos uma força extra e uma responsabilidade também acrescida para que aquilo fique o melhor possível e que, realmente, todas aquelas pessoas possam usufruir do que ali está a ser feito".

É trabalho de recuperação que será realizado sobre o edificado. Mas, haverá uma parte nova. Um edifício a uma cota mais alta que espreitará para o outro lado da VCI, à altura, mais coisa, menos coisa, da estação de metro do estádio do Dragão. Rui Moreira explica o propósito.

"A construção da VCI quase que afundou o matadouro, que parece que está escondido debaixo da estrada. Aquilo que vamos fazer é elevá-lo através da construção de um edifício que fará a ligação ao outro lado. Acreditamos que essa travessia, que não terá tráfego automóvel, vai ser muito importante do ponto de vista da mobilidade entre a Corujeira, onde vive muita gente, e o outro lado, o do estádio do Dragão, com todas as suas valências. Convém sublinhar que nós não iremos fazer aquilo que, para mim, seria o erro fatal. Não vamos construir no espaço reabilitado parques de estacionamento, vias dedicadas, nada disso. Vamos utilizar o que já existe".

O presidente da Câmara do Porto, no entanto, não tem ilusões. Não haverá milagres, efeitos súbitos. Rui Moreira está consciente de que décadas de abandono não se corrigem de um dia para o outro.

"Tal como aconteceu no centro histórico, em que a reabilitação urbana começou em 2005, 2006, e só hoje começa a ser visível, é preciso pensar que estamos a falar num projeto que tem de ter continuidade e que, seguramente, demorará dez a vinte anos até poder ter um impacto verdadeiramente transformador de uma zona que está muito debilitada e que tem sido postergada pelos poderes públicos".

Aprovado o projeto de arquitetura, seguir-se-á o concurso que vai decidir quem faz a obra. A reabilitação do matadouro municipal do Porto está orçada em 10 milhões de euros.


Reportagem da TSF em Milão, a convite da Câmara Municipal do Porto.

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