"É um desgosto. Não se admite!" Em Ferreira do Alentejo, os jornais desapareceram das bancas

Foi só durante uma semana, o suficiente para gerar uma onda de preocupação na vila alentejana. De 1 a 8 de janeiro, mais de 3 mil habitantes estiveram sem qualquer posto de venda de jornais.

"Aqui em Ferreira, em sítio nenhum". É com uma expressão de desencanto que uma moradora de Ferreira do Alentejo explica que, por estes dias, não há um único ponto de venda de jornais nesta vila do distrito de Beja. Ainda não sabe da boa nova. Ali ao fundo da Avenida General Humberto Delgado, na papelaria que funciona no edifício do supermercado Minipreço, os jornais voltaram a ser expostos.

É coisa com poucos dias pelo que, para boa parte dos munícipes, prevalece o sentimento de indignação pelo facto desta vila, sede de concelho, estar privada das notícias em papel. Por exemplo, na "Papelaria do Miguel", jornais, nem lê-los. Explica o proprietário que não vende jornais e revistas "há cerca de duas semanas" porque o "senhor onde ia comprar, deixou de ter".

Calos Baltazar, dono de um posto de abastecimento, era o fornecedor de jornais em Ferreira do Alentejo. Este empresário tinha desde 2016 contrato com a VASP, a distribuidora de jornais e revistas, só que a mudança de instalações das bombas de gasolina levou Carlos a cessar o contrato. André, o filho, diz que desde "31 de dezembro de 2018" que deixaram de vender jornais.

A decisão não foi acolhida com indiferença. "Recebemos muitas queixas de clientes que reclamavam pelo facto de uma capital de concelho não ter nenhum sítio de venda de jornais e revistas." Apesar das queixas, não está no horizonte de André e do pai retomarem o negócio. "Como complemento ao negócio do posto é mais uma ajuda. Agora, estando isolado apenas o negócio dos jornais e revistas, tendo em conta que cada vez se vendem-se menos jornais - é um mercado que cai 10% a 15% todos os anos -, é um negócio pouco aliciante."

Desta forma, a população de Ferreira do Alentejo acordou para o primeiro dia do novo ano sem notícias, pelo menos aquelas que podem ser lidas em papel. A seca durou uma semana. Nada fácil para quem está habituado a comprar jornais todos os dias, como é o caso da comerciante Maria Fragoso. "Compro o Correio e o Record, tenho casa de comércio e já se sabe...". No caso de Maria, não houve como contornar a falta de jornais. Durante uma semana, os clientes ficaram privados deste bem, que por aqueles dias era ouro.

Maria e outros moradores de Ferreira não ficaram de braços cruzados. Que o diga Florbela, a proprietária da única papelaria que hoje vende jornais. "Era uma insistência muito grande. Até havia pessoas que me diziam assim: «Mas o que é que você está aqui a fazer? Não tem jornais e revistas, está aqui a fazer o quê? O melhor é fechar a porta»".

Florbela foi sensível aos argumentos e, por sugestão do marido, arranjou uma forma de contornar o problema. "Eu vivo em Aljustrel, venho todos os dias às 8h00 para aqui, passo por Montes Velhos, trago os jornais. À noite, quando sobram, entrego, deixo lá - ele já me deu uma chave para deixar lá na caixinha - e as pessoas vão ficando minimamente satisfeitas". Em boa hora Florbela tomou esta decisão. A proprietária da papelaria explica que "de certa maneira traz mais pessoas e as pessoas acabam por jogar mais um joguito nos jogos da Santa Casa, começa-se a ter outro movimento".

Por esta altura, entra no estabelecimento uma cliente habitual, que, percebendo o teor da conversa, aproveita para deixar um lamento: "Uma terra destas tão grande...é um desgosto. Não se admite". A desilusão esteve para ser maior, já que, revela a cliente, chegou a aventar-se a possibilidade de não serem apenas os jornais a deixarem de ser vendidos. "Também me disseram que ia deixar de haver raspadinhas. A conversa já andava aí. Até raspadinhas ia deixar de ter". Não passou de um boato. Os jogos da sorte continuam a ser vendidos, tal como os jornais mais procurados entre os perto de 3. mil habitantes de Ferreira do Alentejo: "30 Correios da Manhã', 20 'Records', seis 'Bolas', três 'Públicos', dois 'Is'... Jornal de Notícias, a Visão, a Sábado e depois as revistas habituais". Não vende tudo. A procura não é muito elevada e a que existe é entre as gerações mais antigas. "Isto é mais aquela faixa etária acima dos 40. Os mais jovens, é raro. Preferem a internet."

Quanto à possibilidade de vir a firmar um contrato com a VASP, a proprietária da papelaria torce o nariz: "Atualmente, é muito difícil alguém pegar neste ramo de início, porque há muita exigência nas garantias bancárias... Se eles facilitassem mais... Andámos todos aqui a guerrear uns com os outros para pegar neste ramo. Como eles não facilitam, a coisa é complicada".

Por agora, vai valendo a solução de recurso encontrada por Florbela - garantia de que a população de Ferreira do Alentejo pode continuar a saber mais, assim não faltem os jornais.

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