Eça à mesa da Casa do Conde

Um menu queirosiano, opíparo e sápido, servido no palacete Silva Monteiro, sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), abriu um ciclo de jantares temáticos, em que a figura central, na primeira fase dos encontros à mesa, é um vulto da literatura portuguesa.

A casa apalaçada, considerada «a mais bonita do Porto», é o enquadramento perfeito para estabelecer, à mesa, esse lugar de celebração, a ligação entre o mundo das letras e da gastronomia, harmonizada com vinho, elemento sempre presente na cultura portuguesa.

Em particular o vinho verde, «único no mundo, logo, muito ligado à história de Portugal», como sublinhou Manuel Pinheiro, presidente reeleito da CVRVV e anfitrião do evento.

Senhor do mundo, o conde Silva Monteiro, um brasileiro torna viagem que que fez fortuna em terras de Vera Cruz e foi importante figura da cidade do Porto a nível cultural, económico, social e filantrópico, materializou num belo edifício muitas das referências estéticas apreendidas nas viagens que efetuou.

A casa, situada na portuense rua da Restauração, com jardins deslumbrantes que são privilegiadas varandas sobranceiras ao Douro, denota bom gosto, revela sumptuosidade e opulência

A escadaria em cantaria lavrada, os estuques de inspiração italiana, a sala árabe, os frescos da singular claraboia e o salão de baile transportam-nos para os anos oitocentos,

Nessa viagem à segunda metade do século XIX, conduzida com mestria por Joel Cleto, nada mais saboroso que fazer retemperadora pausa para degustar alguns dos pratos imortalizados pelo autor de A Cidade e as Serras, uma das obras em que as referências gastronómicas são servidas em doses generosas.

O emblemático arroz de favas

Do restaurante de Tormes, local mítico do universo queirosiano, em Santa Cruz do Douro, trouxeram António Pinto (pai) e o chef José Pinto (filho) os ingredientes para confecionar «a comidinha dos moços da quinta», no dizer de Jacinto, o fidalgo nado e criado em Paris.

Para entrada, um surpreendente pastel de massa tenra de lampreia de escabeche, forma hábil de contornar a aversão de muitos ao ciclóstomo,

Uma versão criativa e diferente «duma lampreia de escabeche que mandara o procurador em Montemor» do desembargador Nuno Velho.

Para confortar o estômago, o caldo de galinha com fígado e moela «rescendia. Estava precioso; o seu perfume enternecia». Nem mais. De tal modo estava saborosa que, tal com Jacinto, «ataquei aquele caldo». Mais que três vezes.

No universo gastronómico de Eça de Queirós, que honrou o jantar com a sua presença, protagonizada por Rafael Pereira, e com Ana Pinto no papel da cunhada Maria Benedita, destaca-se o emblemático frango alourado com arroz de favas.

É um dos pratos do restaurante de Tormes, no concelho de Baião, onde a ementa de inspiração queirosiana tem sido aposta ganha pela família Pinto, que gere, igualmente, a Pensão Borges, espaço bem conhecido daquela vila.

A travessa, a transbordar, como refere Eça, não foi pousada sobre a mesa, mas o arroz de favas e o frango alourado servidos com elegância. De garfada, em garfada, « com a lentidão de frade», imitando Jacinto, foi inevitável parafrasear o escritor, tão deliciado se sentia o palato: «Ah! Destas favas, sim! Que delícia».

O vinho «fresco, esperto, seivoso»

Para uma harmonia perfeita, «o vinho amável destas serras» ao redor de Tormes não podia faltar. Para trazer, pela qualidade, a ventura.

Com a chancela da Quinta da Covela, uma edição com rótulo Champs Elysées 202 para exportação, foi servido um vinho elaborado com as castas arinto e avesso, daqueles que, como Eça considerava, «entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo».

O prato mais substancial foi acompanhado com um Covela 100 por cento avesso, um verde de eleição elaborado por aquele produtor, responsável pelo trabalho de enologia, graças à parceria com a Fundação Eça de Queirós.

Para além dos prazeres da mesa expressos na vasta obra de um dos elementos da Geração de 70, membro dos Vencidos da Vida, outros aspetos da gastronomia na obra do escritor, que não descrevia receitas, como foram revelados, com eloquente saber e humor, pelo historiador Gonçalves Guimarães, membro da Confraria Queirosiana, e que até trauteou o hino daquele grupo.

A terminar, não houve «distribuição de cavacas e merengues de Guidães, às raparigas e crianças», como em A Cidade e as Serras, mas chegou à mesa uma sobremesa divinal que teria levado Eça ao paraíso: cavaca (divinal) e gelado de queijo de cabra (fantástico) sobre uma rodela de ananás. Uma criação do jovem chef José Pinto, brilhante como as luzes da amada Paris de Jacinto.

Num cenário tão requintado, nem faltou o som do violino de Lécio Ribeiro, virtuoso intérprete de composições contemporâneas de Eça de Queirós e do conde Silva Monteiro,

Uma viagem ao mundo gastronómico queirosiano e ao século XIX.

Camilo Castelo Branco a seguir

Este ciclo tem continuidade no próximo dia 25 de maio. Camilo Castelo Branco será a figura central do próximo jantar temático, em que Isabel Pires de Lima é a oradora convidada.

O chef Renato Cunha (restaurante Ferrugem) apresentará um menu camiliano, baseado na obra A Brasileira de Prazins e confecionado com produtos tradicionais do Minho.

A fechar este ciclo denominado «Regresso à Casa do Conde», no dia 29 de junho, Joel Cleto irá desvendar o universo do Conde Silva Monteiro e o chef Hélio Loureiro preparará um jantar de inspiração oitocentista para finalizar o «Regresso à Casa do Conde», designação deste ciclo cultural integrada nas comemorações dos 110 anos da Região Demarcada dos Vinhos Verdes.

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