Alienação Parental

"Os filhos são usados como instrumento numa guerra que não é deles"

Assinala-se esta terça-feira o Dia Nacional de Alerta para a Alienação Parental. Uma forma de violência entre os pais que atinge, invariavelmente, os filhos. Conhecemos a história de Matilde.

O pior já passou. "Consegui recuperar bem, com o apoio da minha mãe, da minha família materna e... deixou marcas, é verdade, mas sinto que ultrapassei isso e que agora estou bem, estou feliz e a fazer exatamente aquilo que eu quero com a minha vida. Não me atrapalha agora, agora não me atrapalha".

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Tinha 12 anos quando, fruto do divórcio, começou a viver de forma alternada com os progenitores. Passado pouco tempo "começou a haver uma série de incumprimentos por parte do meu pai. Houve temporadas em que eu não via a minha mãe". Explica Matilde que o afastamento não foi imposto, pelo menos de forma declarada.

"Fazia parecer como se fosse ideia nossa (Matilde tem dois irmãos), do género: vocês não querem ir para a vossa mãe, pois não? É um género de manipulação que não dá muito bem para explicar e nós acabávamos por fazer sempre aquilo que achávamos que ele queria".

Foi também para agradar ao pai que Matilde e os irmãos começaram a distanciar-se não só da mãe, mas também de toda a família materna. Um afastamento alimentado. "Começaram a ser criadas memórias falsas. Eu ainda agora pergunto à minha mãe se é verdade ou não, e sei que não é. Memórias que nos foram impostas e que não correspondem à realidade".

Apesar do esforço da mãe para combater a imagem negativa que dela era criada junto dos filhos, a verdade é que essa imagem acabou por, muitas vezes, levar a melhor. Valeu a persistência. "A melhor coisa que a minha mãe fez e a família materna também, mas mais a minha mãe, foi nunca terem desistido de nós. Nós ligávamos a dizer que não gostávamos da minha mãe... coisas muito feias (...) mas sempre soubemos que a nossa mãe nunca desistiu de nós porque ela ia ver-nos à escola quase todos os dias. Sabíamos que ela estava lá".

Apesar das dificuldades, Matilde também lutou pela mãe quando se encheu de coragem para dizer ao pai que não se sentia completa. "Eu disse-lhe que queria ter uma mãe e o discurso era que ele fazia o papel de pai e de mãe".

"Houve um dia que nós fomos passar com a nossa mãe - era um dia estipulado pelo tribunal - e eu percebi que estava farta, que não conseguia mais ficar. Não sei o que é que se passou na minha cabeça mas decidi ir viver com a minha mãe, assim, de repente, nesse dia". Matilde recorda a estupefação com que o pai acolheu a decisão da filha. Hoje não mantêm contacto.

"Decidi cortar relações com o meu pai, foi uma decisão minha. - Porquê Matilde? - Porque não consegui desculpar muitas coisas que foram feitas. Foi-me tirada muita coisa. Estive muitos anos afastada da minha mãe e da minha família. Não consigo perdoar... Eu vivo bem com isso! Tenho uma família que me ama e que eu amo e vivo bem com isso".

O presidente da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos defende uma "mudança de paradigma" para lidar com o fenómeno da alienação parental.

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