Equipa da revista feminina do Vaticano demite-se em bloco por causa de pressões

A diretora da revista considera que as pressões aumentaram depois de a revista ter publicado uma investigação sobre os abusos sexuais de freiras por parte do clero. António Marujo fala de uma "oposição declarada ao papa".

A fundadora e as editoras da revista feminina do Vaticano demitiram-se em bloco. Numa carta aberta ao Papa, a que a Associated Press teve acesso, a diretora da revista "Mulheres Igreja Mundo", Lucetta Sacaraffia, defende que há uma campanha para as desacreditar e pressão para serem colocadas sob o controlo direto dos homens.

O especialista em assuntos religiosos, António Marujo, considera que a notícia é preocupante. O jornalista do jornal digital Sete Margens lembra que a diretora da revista não tem posições radicais, nem sequer defende a ordenação de mulheres e acredita que esta é uma prova de que no interior do Vaticano há uma guerra cada vez mais declarada e aberta contra o papa Francisco.

"Estamos a falar de uma equipa que nem sequer podemos dizer que seja uma equipa de feministas extremistas. Eu tive oportunidade de conversar algumas vezes com a diretora da publicação que é uma historiadora reconhecidíssima em Itália que andou pelos movimentos de esquerda da década de 60 e que depois se aproximou do catolicismo e ela, por exemplo, não é uma mulher que defenda sequer a ordenação de mulheres. Estamos a falar em alguém que podemos dizer que tem uma posição relativamente moderada dentro da Igreja, embora conteste muito a sujeição das mulheres no interior de muitas estruturas católicas."

Na carta aberta e no editorial, que será publicado a 1 de abril, a diretora da revista considera que as pressões aumentaram depois de a revista ter publicado uma investigação sobre os abusos sexuais de freiras por parte do clero. António Marujo lembra uma conversa que teve com Lucetta Sacaraffia que o próprio Papa queria que essas investigações fossem reveladas.

"Uma das coisas que ela me disse numa das conversas que tivemos é que no Vaticano havia pessoas interessadas em trazer à luz do dia também o que se passa a esse nível dessa realidade dos abusos de clérigos sobre freiras. Ela deu-me a entender, não me afirmou claramente, mas deu-me a entender, que também o papa estaria interessado nessa divulgação."

O papa está, na visão de António Marujo, "a enfrentar uma oposição declaradíssima, aberta, mas que ao mesmo tempo não se conhecem os rostos, eles não vêm à luz do dia dizer o que andam a fazer", algo que considera "profundamente lamentável".

O jornalista do jornal digital Sete Margens, especialista em assuntos religiosos, considera que, neste caso, o papa Francisco vai ter pouca margem de manobra, mas acredita que continuará a lutar por um lugar para as mulheres na Igreja.

"Essa ideia de dar a voz às mulheres, de por as mulheres, como dizia o papa num documento, a fazerem perguntas profundas à Igreja vai continuar seguramente a ser proposta pelo papa. Em relação a esta publicação há, de facto, um problema. Provavelmente, a publicação ou vai acabar ou terá um outro rumo. Creio que dificilmente a equipa poderá voltar atrás, a não ser que houvesse aqui um grande volte-face. É, de facto, um problema sério para o papa que já tem vários à sua frente e este será mais um, sem dúvida nenhuma."

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