Espancados, torturados e isolados. As memórias dos presos políticos

Passados 45 anos da libertação dos presos políticos, a TSF visitou a antiga Fortaleza de Peniche, futuro Museu Nacional da Resistência e da Liberdade e registou as memórias de quem foi preso por resistir à Ditadura.

Na Fortaleza de Peniche, José Pedro Soares e Domingos Abrantes guiam a visita através do Parlatório. Era aqui que os presos recebiam as famílias. A sala coberta de azulejos brancos tem uma cabine ao centro. Há um balcão e vidro até ao teto.

"As pessoas não se tocavam. Os presos entravam por outro lado e deste ficavam os familiares", conta José Pedro. Apenas uma rede colocada nos cantos permitia que as famílias conversassem com os presos.

Domingos Abrantes recorda o barulho ensurdecedor dos dias de visita. "Sobretudo aos fins de semana, se isto estava cheio, com toda a gente a falar... era inaudível."

Um aparato de jornalistas, fotógrafos e técnicos assistem a esta visita guiada, dias antes da abertura ao público. O Museu Nacional da Resistência e da Liberdade inaugura em 2020, mas a partir deste 25 de Abril algumas zonas vão estar já abertas.

Nesta sala, vão ser apresentados testemunhos em vídeo dos familiares que visitavam os antigos presos, sobretudo filhos, agora adultos. Está prevista uma exposição com imagens e documentos, como a correspondência para a família.

Afonso Assunção Rodrigues e a mulher, Helena, também vieram. São convidados a mostrar como era, para a fotografia.

Afonso dá a volta e passa para o lado de lá. Senta-se num banco. Helena olha-o nos olhos. Estica mão, encosta-a ao vidro; do outro lado, a de Afonso. Como há 47 anos, quando estava preso.

Helena baixa a cabeça. Afonso não contém as lágrimas.

"É a mágoa do que causámos à família. Isso castigava-nos...", desabafa.

No boletim da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos de 1972 está publicado um relato de Afonso datado de 30 de junho de 1971, o dia em que foi detido em casa, levado para a sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso e depois transferido para Caxias, antes ainda de ir para Peniche, onde passou dois anos.

"Os espancamentos... Lembro-me de ser espancado. Doía muito, mas a grande dúvida era se a gente não se aguentava e fazia alguma declaração que podia comprometer camaradas... Essa era a dor maior."

Lê-se no relatório que, no primeiro dia, "foi explorado pelo Chefe Rosalo o facto de a mulher estar grávida e estando muito nervosa poder vir a abortar". Quatro dias depois, aconteceu.

"A minha mulher perdeu o filho. Quando fui preso, ela abortou. E tudo isso era um grande castigo", conta.

Afonso só soube um mês mais tarde. Esteve em isolamento total durante dois meses. Está escrito no boletim:
"Total de horas sem dormir - tortura de sono = 275,5
Total de horas de interrogatório extra = 131,5
Total de dias isolado = 77"

Afonso foi libertado da Cadeia de Peniche a 28 de fevereiro de 1973. O nome dele está no memorial dos presos políticos. Entre os 2510 nomes, encontra-o. "Está aqui. Este. Afonso Assunção Rodrigues", aponta.

"Veja bem... Há pessoas que são mesmo merecedoras disto. Mas não seria o meu caso. Fiz os mínimos..."

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