"Estamos habituados, em Portugal, a ver os pobres como pessoas geralmente dóceis"

Investigador da área de Sociologia do ISCTE alerta para a necessidade de mudar políticas, sob pena que confrontos como os desta segunda-feira, após a manifestação de moradores do Bairro da Jamaica, se torne preocupante.

O sociólogo Luís Capucha considera que a rápida mobilização dos jovens do Bairro da Jamaica, que esta segunda-feira protestaram em Lisboa, não pode ser ignorada e corre mesmo o risco de se tornar preocupante. Em declarações à TSF, o sociólogo explica que Portugal está habituado a ver os pobres como "pessoas geralmente dóceis."

"Os nossos emigrantes foram sempre bastante dóceis, mesmo quando foram muito mal-tratados. Nunca tivemos, de uma forma generalizada, problemas como este", considera Luís Capucha, referindo-se aos protestos que acabaram em violência esta segunda-feira.

O sociólogo alerta que estas situações "são comuns noutros países mais desenvolvidos e com problemas sérios deste tipo." Luís Capucha alerta que nessas situações, em especial naquelas em que se verificam confrontos, "não é raro a polícia adotar atitudes muito agressivas, às vezes até a roçar o racismo, quando lidam com essas comunidades e com estes jovens."

Estas situações acabam por gerar réplicas mais agressivas, pelo que o que se observa em Portugal é "um sinal do fruto dos tempos, do que pode acontecer com o crescimento do racismo, da xenofobia e da exclusão social. É um sinal preocupante", alerta o investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.

O facto de este protesto ter ocorrido no Terreiro do Paço e não no Bairro da Jamaica é também, sublinha Luís Capucha, algo que merece especial atenção por ter sido inédito, uma vez que em Portugal "não há uma grande tradição destes conflitos extravasarem os bairros onde têm lugar."

O investigador explica que estes confrontos abertos são "comuns dentro dos vários bairros - nomeadamente na área metropolitana de Lisboa - entre moradores de um grupo e de outro, entre certos grupos de moradores e a polícias", mas os moradores "virem para o centro da cidade protestar" constitui uma "novidade."

"Se forem tomadas medidas no sentido de, efetivamente, aceder às necessidades e ambições destes jovens, o problema não crescerá", entende o sociólogo. A solução poderá então passar por "políticas sociais mais capazes de promover a integração destes jovens, melhorar o desempenho das escolas, melhorar o acesso ao mercado de trabalho, assegurar condições de trabalho dignas - em vez de condições de trabalho indignas que são, muitas vezes, as únicas oportunidades que têm", contribuindo para que os problemas se tornem "episódicos."

Caso contrário, "pode ser que haja aqui um caldo possível de se repetir mais vezes."

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