Há uma visita guiada que resgata a história africana escondida nas ruas de Lisboa

Durante quatro séculos de escravatura, foram transportados mais de 12 milhões de escravos africanos. Portugal foi responsável pelo tráfico de 5.8 milhões de pessoas, a grande maioria foi enviada para o Brasil.

Naky Gaglo faz a chamada de presença para ter a certeza que as quase 20 pessoas que se juntam à African Lisbon Tour encontraram o grupo certo. Chegam de várias latitudes. Americanos, ingleses, belgas e brasileiros. O ponto de encontro é no Terreiro do Paço em Lisboa, ou neste contexto, o sítio que representa a chegada de muitos escravos a Portugal através do Tejo. "É um dos meios de circulação com que muitos africanos chegaram nos barcos, onde foram desembarcados. Então o Terreiro do Paço é um dos lugares e há muitos mais".

Naky Gaglo, guia da African Lisbon Tour, é natural do Togo. Chegou a Lisboa há quase cinco anos e percebeu que as ruas da cidade estavam vazias de uma história que é preciso resgatar. "O que falta, não só em Portugal mas em muitos países europeus, é uma presença física da história africana. Estou a falar do nome de ruas, de museus, de estátuas que não existem".

Para falar de escravatura e de como era feita em Portugal e na Europa, o togolês foi procurar mais informação e muniu-se de conhecimento no trabalho de Isabel Castro Henriques e Pedro Pereira Leite, criando uma visita guiada para trazer uma alternativa aos vários percursos turísticas que já existem em Lisboa. "A maior parte dos tours aqui são sobre a história portuguesa. Então tive a ideia de criar uma coisa que seja uma alternativa ao que já existe no país", conta.

Três momentos significativos

A história que Naky conta começa em 1444. Portugal, que detinha grande parte dos navios, traz para Lagos as primeiras 235 pessoas provenientes de África, marcando a primeira transação de escravos no país.

Depois do domínio português até 1620, juntam-se outros países europeus ao tráfico de escravos. O negócio dura até à abolição da escravatura no século XIX. Portugal está entre os últimos países a abolir a escravatura. Só em 1878 é que colocou um ponto final definitivo no tráfico de escravos em todo o império português.

Os olhos dos turistas arregalam quando Naky conta, por exemplo, que o Poço dos Negros marca o local onde muitos escravos foram enterrados em Lisboa. "A rua Poço dos Negro tem várias explicações históricas mas a mais importante é a carta do rei D. Manuel I, que ordenou a construção de um poço, para onde atiravam os corpos das pessoas [negras] que [quando morriam eram atiradas para a] rua. Hoje a rua Poço dos Negros para algumas pessoas representa a imagem desta carta".

Os turistas passam também pelo miradouro de Santa Catarina e preparam as máquinas fotográficas para captar a vista. Naky conta que também aqui se atiravam os corpos dos escravos encosta abaixo à espera que o Tejo os levasse.

A história invisível de Lisboa

A belga Melat Nigussie escolheu este percurso porque quer saber mais sobre a história que não se vê na fotografia. "É muito fácil fazer simplesmente uma visita por Lisboa, mas estou mais interessada em conhecer a história invisível de cada cidade e, neste caso, são as histórias da comunidade negra, das pessoas africanas e de descendência africana em Lisboa".

A turista quer entender como o papel central de Portugal no tráfico de escravos e no colonialismo se reflete na cidade de Lisboa. Garante que é importante falar desta história porque "explica muito sobre as relações geopolíticas e sobre a história de África".

Cibele Kojima de Paula, uma brasileira a viver na Alemanha vai fazendo perguntas, surpreendida pela informação que vai chegando. "A gente aprende que a história aconteceu de uma maneira mas que, na verdade, tem um grande capitulo da história que a gente não aprende".

As heranças da história são pesadas, sobretudo no caso do Brasil que recebeu a grande maioria do comércio escravo: 5 milhões de pessoas.

"O tema do colonialismo é muito difícil porque as pessoas ainda têm o imaginário que foi bom. Enquanto a gente não escutar que o colonialismo foi ruim, também não tem uma dimensão de como foi", nota Cibele Kojima de Paula.

A brasileira considera que o sofrimento gerado pelo tráfico de escravos não é central quando se fala de colonialismo. "Se uma pessoa fala de ditadura, você tem imagens na sua cabeça de tortura, do que é que foi, da dimensão da dor, de um imagem mais humana do que significou tudo aquilo. Quando a gente fala sobre nazismo, as pessoas pensam nos campos de concentração, pensam em todo o sofrimento. Mas quando se fala de colonialismo, as pessoas pensam que já está tão longe, tão ultrapassado. Parece que não têm uma visão de que eram seres humanos que passaram pelos piores tipos de tortura", lamenta.

Naky também defende que é preciso falar da história que por mais negativa que seja. "Que façamos desta história uma coisa de educação para o nosso povo porque é uma herança para todos. Não se pode esquecer uma história porque não foi boa. Uma história é uma herança como qualquer família, que seja boa ou não, é preciso conhecer e contar".

Mas nem só de histórias se faz esta visita. A paragem numa loja de produtos africanos na Calçada do Garcia refresca as gargantas e já todos pensam na cachupa do jantar que vai fechar a visita.

Depois da visita, há sempre um jantar de convívio num restaurante africano. Naky quer criar uma família em cada visita guiada. "Além do tour, quero que as pessoas fiquem em contacto. Felizmente é o que acontece. Ficam amigos. A ideia não só fazer uma tour, mas criar uma amizade e criar grupos para sempre".

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