Sociedade

Ginja de Óbidos e Ginja de Alcobaça podem incluir fruto de outras origens

No Oeste, a criação de um registo de indicação geográfica para proteger os licores ginja de Óbidos e de Alcobaça está a provocar um braço de ferro entre os autores da candidatura e a Direção Geral de Agricultura.

Em causa está a origem do fruto utilizado na produção das bebidas, que algumas empresas importam da Polónia e de outros países de Leste.

Na correspondência trocada com a Direção Geral de Agricultura, a Associação dos Produtores de Maçã de Alcobaça (APMA) diz que a candidatura não deve ser "o instrumento para baralhar ou enganar consumidores", nem para "branquear um processo escondido". A associação, que pretende registar a indicação geográfica dos licores Ginja de Óbidos, Ginjinha de Óbidos e Ginja de Alcobaça, revela que alguns produtores "adquirem o fruto nas mais variadas origens do mundo" e comercializam "o produto final como produto regional e tradicional". Daí, defender um projeto exclusivamente com ginja da região certificada (IGP). A Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRADR), pelo contrário, propõe ginja da região certificada (IGP) "ou outras com características físicas, químicas e organoléticas similares".

"Para ser registável, nós temos de reportar a esse nome as condições de produção atuais", argumenta Cristina Hagatong, chefe de divisão da qualidade e recursos genéticos da DRADR. "Neste momento presente, o que é registável, é Ginja de Óbidos e Ginja de Alcobaça nos termos em que elas já são feitas atualmente".

A responsável confirma que os produtores de licor do Oeste já compram ginja fora da região. "Já utilizam, precisamente pela notoriedade do nome, ginjas de outras proveniências, que têm as mesmas características", adianta. Um dos motivos é o preço, mais barato. Outro é a oferta inferior à procura. "A produção de matéria-prima fruto naquela região é insuficiente para a produção de licor que é feita naquela região e que o nome é comercializado como Óbidos e Alcobaça", completa.

À luz do regulamento europeu 110/2008, a indicação geográfica das bebidas espirituosas identifica uma qualidade, reputação ou característica. Não apenas a matéria-prima. "Pode ser a notoriedade do nome" ou "uma característica que seja atribuída à origem geográfica, que pode ser o método de fabrico", explica Cristina Hagatong.

De acordo com a DRADR, não há ginja certificada na região de Óbidos e Alcobaça, apesar de, desde 2013, existir um registo de indicação geográfica "Ginja de Óbidos e Alcobaça" que designa os frutos da cultivar "Galega" obtidos em sete concelhos. Mas a APMA, que está a liderar a candidatura, garante que pelo menos um produtor em Alcobaça está em condições de obter a certificação. Acredita também que a defesa da ginja da região ia combater a importação de fruto da Polónia e de outros países do Leste da Europa, fruto mais barato, e incentivar a instalação de novos pomares no Oeste.

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