Manuel Alegre

"Qualquer dia, qualquer 'bicho careta' entra" no Panteão Nacional

Embora considere que "se alguém merecia as honras de Panteão, com certeza era o José Afonso", Manuel Alegre defende que é preciso ter cuidado para evitar a banalização das honras.

Manuel Alegre defende que é preciso estabelecer regras em relação às transladações para o Panteão Nacional. Ouvido pela TSF, o histórico socialista pediu um "debate sereno" sobre o assunto, sem "precipitação emocional".

"Tem que haver uma reflexão muito séria, regras muito estritas, tempo necessário para que haja uma meditação sobre a projeção da vida das pessoas na memória e na sociedade, porque, senão, caímos na absoluta banalização do Panteão", defendeu Manuel Alegre. "Qualquer dia, qualquer 'bicho careta' entra", ironizou.

"Fizeram-se propostas que levavam para o Panteão pessoas, não por mérito ou por feitos excecionais, mas pelos cargos que tinham exercido (ou seja, os chefes de Estado) - isso não pode ser!", reclamou.

Manuel Alegre refere outros nomes que também poderiam ter sido propostos, como José Saramago ou Miguel Torga, e que teriam lugar no Panteão, mas sublinha a necessidade de reflexão: "Há muita gente que não está no Panteão e que devia lá estar, portanto, é preciso muito cuidado. Senão qualquer dia temos de fazer outro [Panteão]". "Morre alguém muito conhecido e, pumba, Panteão! Não pode ser", reafirmou.

Sobre Zeca Afonso, que conheceu pessoalmente, Manuel Alegre afirma compreender a posição da família, que rejeita as honras de Panteão para o músico.

"Fui e sou um grande amigo e admirador do Zeca Afonso, conheci-o muito bem. Foi a pessoa mais despojada que conheci - num poema que lhe escrevi, chamei-lhe um "franciscano laico"", recorda Manuel Alegre.

O político e poeta acredita que o músico "não gostaria muito" de ser homenageado. "Acho que a família interpretou bem o seu sentir", constata, embora não tenha dúvidas de que "se alguém merecia as honras de Panteão, com certeza era o José Afonso".

Manuel Alegre considera, no entanto, que há figuras que pertencem ao país e que, por isso, nem a vontade da família pode contrariar a honra do Panteão Nacional "Havendo um grande consenso, deve prevalecer. A partir desse momento, a pessoa pertence ao país - a menos que haja, da parte do próprio, uma manifestação expressa de que não quer ir para o Panteão", concluiu.

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