Reportagem TSF

"A Fábrica da Azeitona". Reportagem TSF num Alentejo a mudar rapidamente

Milhões de oliveiras, água, seca, pesticidas e muitos imigrantes ilegais da Ásia e de África que enchem os campos alentejanos. O retrato de uma mudança rápida.

Numa altura em que 95% do país continua em seca moderada ou severa e a tendência a longo prazo, com as alterações climáticas, será para mais anos de pouca chuva, associações ambientalistas e agrónomos da Universidade de Évora alertam que o Alentejo está a usar mal a água que tem.

O retrato de um Alentejo onde a mudança está a ser muito rápida à boleia da água do Alqueva é feito na Reportagem TSF desta semana. Mudanças que estão longe de ser pacíficas.

Ninguém parece ter dúvidas em falar mesmo numa revolução na economia e na paisagem da região onde hoje já se vê verde todo o ano, como salienta a reitora da Universidade de Évora, mas vários contestam que o caminho seja o mais correto, garantindo que a aposta em culturas de regadio, sobretudo em olivais intensivos, está a ser exagerada e vai ter consequências graves no futuro.

A associação ambientalista Quercus pede ao governo que não autorize mais olivais intensivos na região e Mário Carvalho, docente e agrónomo na Universidade de Évora, partilha dos mesmos receios.

O professor catedrático do Instituto Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas salienta que já hoje "guiamos quilómetros a fio e só vemos olivais intensivos e super-intensivos, agravando a gravidade dos problemas ambientais e para a biodiversidade da região devido ao uso de pesticidas", tudo subsidiado pelo Estado que vende a água de Alqueva "abaixo do preço de custo", apenas beneficiando os empresários que apostam nestas culturas.

"O Alentejo", que tem 55% da área agrícola do país, "deslumbrou-se com a água de Alqueva", defende a reitora e também agrónoma Ana Costa Freitas: "Estamos a esgotar as reservas indiscriminadamente sem conhecer a água que existe na região".

Nada rende tanto no Alentejo como a azeitona

Numa altura em que o preço do azeite está em máximos nos mercados internacionais, há milhões de novas oliveiras a ser plantadas na área de influência do Alqueva no Baixo Alentejo mas também no Alto Alentejo, perto da Barragem do Maranhão que em pleno inverno tem apenas 22% da água que pode armazenar numa zona já cheia de olival intensivo.

Do lado do governo, um despacho conjunto de 2017 de vários ministérios admite que o novo regadio do Alqueva levanta "preocupações económicas ou ambientais" e o crescimento do olival intensivo no Alentejo põe questões que pedem "investigação urgente".

No entanto, o presidente do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, para onde a TSF foi encaminhada depois de questões enviadas ao Ministério da Agricultura, desdramatiza.

Nuno Canada garante que essas preocupações estão a ter resposta efetiva, a agricultura do Alentejo é cada vez mais inteligente e usa menos água, sendo sustentável no longo prazo, numa visão partilhada pela Olivum (Associação de Olivicultores do Sul) que representa as empresas com cada vez mais olivais intensivos na região.

Azeitonas que dependem dos imigrantes

O presidente da associação que representa os grandes olivicultores, Cortez Lobão, salienta que os novos olivais que estão a ser plantados, chamados de super-intensivos, muito mecanizados, exigirão ainda cada vez menos mão-de-obra 'importada', travando os casos de milhares de estrangeiros, muitas vezes ilegais, que enchem a região na época da apanha da azeitona.

Maria Antónia Pires de Almeida, alentejana de Avis e investigadora do ISCTE que na tese de doutoramento investigou a Reforma Agrária da década de 1970, salienta que o Alentejo que conheceu "já não existe".

Está a alterar-se toda a estrutura económica e social sem, de facto, trazer riqueza e pessoas para a região, numa altura em que a falta de população se agrava pois o novo regadio, afirma, dá muito pouco trabalho a portugueses.

O agrónomo Mário Carvalho, tal como a Associação de Agricultores do Baixo Alentejo, sublinha que boa parte desta nova agricultura só é viável não apenas pela água barata do Alqueva mas também porque há imigrantes que aceitam ordenados baixos e condições de trabalho que nenhum português aceitaria, com Pires de Almeida a salientar que "não quer viver num país onde há pessoas a trabalhar nestas condições e a viver em contentores".

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