A história da fotografia: "Apagava aquilo que nunca mais ia arder"

A aldeia estava em chamas, por isso Joaquim Dâmaso teve de recuar. Regressou e deparou-se com Maria do Rosário, que calava o fumo com um regador. "A fotografia retrata o desespero, solidão e velhice."

A pele enrugada denunciava as muitas histórias na bagagem. As lágrimas eram uma carta de amor à terra queimada, negra, de luto. A roupa cheirava à besta que arruinou a vida àquela gente. Tinha um pau na mão direita para se amparar e o regador laranja na mão esquerda, para calar o fumo que saía por baixo dos pés. Maria do Rosário, de 84 anos, foi fotografada no regresso a casa por Joaquim Dâmaso, do jornal Região de Leiria. Esta é a história da fotografia em Enchecamas, uma aldeia de Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria.

"No dia anterior foram evacuados. Ela não queria sair, era a casa dela. Depois a filha convenceu-a a ir embora. Fugiram para uma aldeia ao lado, onde ficaram durante a noite", começa por contar à TSF o fotógrafo. "Voltaram na segunda-feira. A primeira coisa que nos disse foi 'não há aqui nenhum bombeiro'. E apagava aquilo que nunca mais ia arder. Eu percebi logo que andava à toa. Aquilo não ia arder. Começou a choramingar. Chama-se Maria do Rosário, tem 84 anos. Vive nessa aldeia de Enchecamas, em Figueiró dos Vinhos. É um bom retrato do que encontrei por lá: pessoas de muita idade, muito desapoiadas; tem também o estado em que ficou, a imagem preta."

Joaquim Dâmaso revela à TSF que o contacto com a senhora não foi fácil. "Ela, ao princípio, não estava a entender muito bem o que eu perguntava. Ao mesmo tempo, estava com ar vazio, com o regador dela e o pauzito. Tinha uma mobilidade muito fraca. Estava num declive, por isso acabámos por ajudá-la a descer para a beira do caminho. Demorámos um bocadinho a estabelecer contacto com ela..."

O fotógrafo tinha andado por ali perto no domingo, o segundo dia do devastador incêndio de Pedrógão Grande. "Estávamos numa aldeia e começámos a descer por ali abaixo. Estava a arder outra aldeia. Como tinha dito que não queria andar a fotografar incêndios, fomos lá abaixo com voluntários que iam entregar bens aos bombeiros. Mas disseram-nos que aquilo estava a ser evacuado e voltámos para trás."

O regresso era inevitável. "Achámos que tínhamos de voltar e foi o que fizemos. A primeira coisa que fizemos foi ir à tal terrinha. Quando chegámos lá, foi uma coisa rápida. Olhei e vejo uma senhora no meio de um relevo, com um regador. Travei a fundo, puxei travão de mão. Foi repentino. Disse ao meu colega: 'está aqui a imagem'. E fomos falar com a senhora."

Quando olhou para o trabalho final, uma reportagem de 16 páginas no Região de Leiria, ficou satisfeito: "estava ali resumido o meu trabalho [neste incêndio]. Às vezes andas a fotografar 500 mil coisas e falta esta sensação de que está ali tudo. Não é a primeira vez que faço incêndios, mas esta foi a fotografia que melhor retratou esta situação: desespero, solidão e velhice".

Joaquim Dâmaso, de 44 anos, estudou fotografia em Lisboa e trabalha no Região de Leiria há 17 anos, sendo que já colaborou com Expresso, Público e jornal i.

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