Pessoas e Causas

A história do jovem que vivia com medo até encontrar o teatro

Alex Horta sofreu bullying na escola, acabando por ser acolhido pela unidade de saúde W Mais, que acompanha pessoas em situação de perda, abuso ou negligência.

Quem vê Alex Horta nos ensaios do grupo de teatro da W Mais nem imagina que, até há pouco tempo, era dos atores mais tímidos do grupo. "Eu antes não falava muito. Tinha problemas de fala. Passava a maior parte do tempo calado porque tinha muito medo de falar", conta.

Tinha medo de falar porque preferia passar despercebido. Desde cedo foi vítima de bullying na escola. "Desde muito novo tive - e ainda tenho - um problema de acne. Quando ia para a escola, a maior parte do tempo era gozado. Não podia entrar na cantina da escola que começavam a ir-se embora, a dizer: o monstro chegou. Quando saía da escola, seguiam-me e começavam a dar-me porrada, a cuspir-me. Não me queriam lá", recorda.

Acabou por sair da escola, encontrando refúgio em casa. Ainda assim, continuou a enfrentar tempos difíceis com a morte da bisavó, a quem era chegado, e o suicídio de um amigo. "Foi um tempo muito difícil para mim porque eu não tinha ninguém. A minha mãe passava muito tempo a trabalhar e ainda passa. Então eu não conseguia falar com ninguém, passava os dias sozinho, fechado no meu quarto".

Alex Horta começou a ser acompanhado por um psicólogo e por uma assistente social que lhe apresentaram o projeto W Mais. O jovem confessa que "não tinha fé nenhuma nisto", pensou que seria mais um grupo onde não se integraria mas acabou por ser surpreendido. "Criou-se aqui uma família. Então, eu não tinha necessidade de ter medo. Se tivesse algum problema, bastava vir para aqui porque tinha aqui a minha família", garante.

Foi nesta unidade de saúde que Alex Horta começou a ver a luz ao fundo do túnel e encontrou um caminho através do teatro terapêutico. Gostou e foi ficando. "É teatro mas é mais uma família. A Sónia é a mãe que nos acarinha a todos, que nos ajuda imenso, seja problemas lá de fora. Somos os filhos da Sónia".

Sónia Santos é psicóloga e coordenadora do núcleo de adolescentes na Unidade W Mais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Faz parte de uma equipa que recebe diariamente pessoas em situação de perda, abuso ou negligência.

A psicóloga explica que a W Mais é uma unidade de saúde que aposta na promoção de comportamentos saudáveis e na prevenção de comportamentos de risco. "Nós apostamos acima de tudo na relação. E para nós, a relação é muito potenciada pelo contacto com os utentes", acrescenta. A unidade conta com uma equipa multidisciplinar que inclui psicólogos, uma enfermeira, uma técnica de serviço social e animadores socioculturais.

Desde crianças a adultos, a Unidade W Mais recebe pessoas com vários tipos de problemas. Além das consultas de psicologia, os profissionais da W Mais acreditam que é possível ajudar os utentes através da arte. "Temos biodança, grupos de expressão criativa, escrita criativa, o teatro terapêutico. Temos uma panóplia de artes que ajudam estes jovens a potenciar o melhor de si", explica Sónia Santos.

O acompanhamento de cada utente é desenhado à medida através de uma tripla triagem e de um plano terapêutico individual. "No caso do Alex, nós percebemos que além de terapia individual, ele precisaria de um grupo de pertença, onde sentisse que o seu lugar estava assegurado e que não era vítima de bullying, para mudar o seu padrão e a sua autoimagem", exemplifica. Alex Horta foi também encaminhado para o Ocupa-te+, um grupo para jovens em situação de desocupação e em risco. O jovem de 18 anos foi integrado num grupo de teatro terapêutico porque, de acordo com Sónia Santos, "os jovens conseguem muitas vezes trabalhar as questões que através da palavra não conseguem".

Nos dois anos que Alex tem sido acompanhado na W Mais, a terapeuta conta que é bem visível um antes e um depois. "Ele sentia-se um bocadinho num buraco negro. E de repente temos um Alex muito colorido, aberto para o mundo e com alguma confiança relativamente ao projeto de vida", recorda.

Alex está orgulhoso do caminho que tem feito nos últimos anos mas começa já a preparar o futuro. Gostava de estudar psicologia ou animação sociocultural, "como se faz aqui". Para já, sente-se bem na W Mais e voltará sempre, nem que seja de visita. "É uma segunda casa, as pessoas que estão aqui são muito importantes para mim".

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