Sociedade

A informática e os teclados de madeira que dão esperança aos cegos de São Tomé

Reportagem no primeiro curso de braille e informática para cegos, num país onde a maioria não tem computador em casa.

Maria da Cruz tem 36 anos e ficou cega aos 28. Um medicamento mal prescrito pelo médico e que tomou durante meses causou uma alergia que começou por lhe queimar a pele "da cabeça aos pés" até que chegou aos olhos: "Era como um fogo...", descreve, emocionada, esta mulher com dois filhos que viu a vida mudar completamente e passar a estar totalmente dependente de terceiros.

Maria é um dos doze alunos do primeiro curso de braille e informática para cegos no Centro de Formação Profissional de São Tomé e Príncipe, mais conhecido como centro Budo-Budo, bairro nos arredores da capital onde está situado.

Um centro que nos últimos 15 anos recebeu 5,2 milhões de euros do Estado português no âmbito da cooperação para a formação profissional, na luta contra a pobreza, neste pequeno país ao largo de África onde dois terços das pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza.

As formações dadas neste centro são várias. Por exemplo, técnico de reparação de aparelhos de frio, cabeleireiro, auxiliar de ação educativa ou contabilidade.

A solução dos teclados de madeira

O último curso, que arrancou na semana passada, é, no entanto, uma novidade: braille e informática para cegos, num país onde a esmagadora maioria da população nem tem computador em casa.
Um desafio, como admite o formador de informática, António Assunção, que obrigou a soluções criativas. Por estes dias andam a desenvolver teclados de madeira, com as saliências do braille, para que os alunos treinem, em casa, a disposição das letras nos teclados reais que usam nas aulas e, se tudo correr bem, num futuro emprego.

Num país onde as ruas estão cheias de buracos e as bengalas dos invisuais têm de ser grossas e redondas na ponta para evitar armadilhas, este curso é uma esperança para quem é cego e não tem qualquer rendimento.

Maria da Cruz espera sair daqui com conhecimentos que lhe permitam entrar no mercado de trabalho. Esperança que se repete nas palavras de Eugénia Neto, aluna e presidente da Associação de Cegos de São Tomé e Príncipe, que sublinha que o desejo é ser "uma pessoa formada".

Hoje, detalha Eugénia, os cegos nesta aula "não têm rendimento nenhum. Imagina como é... Já pensou um adulto a depender a 100% de outra pessoa?"

A TSF viajou até São Tomé e Príncipe a convite do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

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