Aliu cegou aos 11 anos mas a música e o desporto têm sido uma boa bengala

Aliu Baio perdeu a visão aos 11 anos de idade. A entrada numa escola inclusiva, onde se dedicou ao desporto e à música, e o tempo que passa no Lar Branco Rodrigues têm sido essenciais para enfrentar os desafios da cegueira adquirida.

Aliu Baio tem 24 anos e é natural da Guiné-Bissau. Nasceu com problemas de visão no olho direito e um acidente acabou por deixá-lo totalmente cego. "Em 98, houve uma guerra civil em Bissau. Estava com os meus avós e com os meus irmãos e estávamos a brincar na estrada, porque passavam carros de hora a hora. Vimos um carro cheio de tropas a vir na nossa direção e corremos todos para as plantações de caju. Eu fui a correr e não vi uma folha ou um pau, que me picou no olho que estava bom".

Não conseguiu ser atendido num hospital de imediato devido ao clima de guerra que o país enfrentava. Foi perdendo a visão e, quando foi operado, não havia muito a fazer em Bissau.

A junta médica enviou-o para Portugal na tentativa de salvar a visão. "Os médicos disseram logo que eu ia deixar de ver. Já estava quase cego, praticamente", recorda. Tinha 11 anos.

Inicialmente, a adaptação a Portugal não foi fácil. Praticamente não saía de casa. "Há uma dificuldade para as pessoas com deficiência e as pessoas à volta delas: têm sempre um receio enorme de tropeçarmos na pedra mais próxima, cairmos e partirmos a cabeça", conta.

A entrada numa escola inclusiva - a Helen Keller no Restelo - foi fundamental para Aliu começar a nova caminhada. "Foi uma diferença do dia para a noite. Mudou a minha vida completamente porque arranjei muito amigos naquela escola".

"Não tinha medo das bolas"

A entrada na nova escola permitiu-lhe também aprender novos desportos. "Jogava [futebol] com eles, ficava ao pé da baliza. Quando ouvia algum colega aproximar-se, metia-me à frente. Não tinha medo das bolas. Mesmo eles, sabendo que sou cego, nunca me excluíam. Participava nos torneios de futebol, nas corridas de velocidade, em tudo. Foi a partir desse momento que realmente percebi que a mudança foi para bem melhor", conta.

Do futebol, passou para o goalball onde joga pelo Sporting mas não ficou por aqui. "Fiz karaté também, fui até à faixa laranja. Faço judo, recentemente fui campeão nacional de judo na categoria menos 100 kg. Fiz vela também durante quatro anos no Clube Naval de Cascais, fui vice-campeão nacional. Fiz esgrima durante um tempo, consegui o quinto lugar num torneio internacional".

Mas se tiver que escolher o que mais gosta de fazer Aliu não tem dúvidas que é a música que lhe arranca os pés do chão. "Acho que nasceu comigo".

Toca piano, saxofone, bateria, instrumentos que o levaram até à escola Escola de Jazz Luiz Villas-Boas. "Para mim foi um admirável mundo novo. Quando entrei para lá, fui com a sensação que sabia muito, então cheguei lá e caí na realidade. Afinal não sei mesmo nada. Tenho de começar do zero. Não desvalorizando o trabalho que o outro professor teve comigo, claro que não. Mesmo de mim, afinal tenho de aprender muito mais, tenho de ser mais humilde comigo próprio".

No meio de tantas atividades, Aliu ainda consegue tempo para a faculdade. Está no primeiro ano de Psicologia na Universidade Autónoma de Lisboa. O pouco tempo que resta passa-o no Lar Branco Rodrigues na Parede.

Lar Branco Rodrigues

A instituição da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa "destina-se a dar apoio residencial a pessoas que não habitam na zona de Lisboa", explica a diretora, acrescentando que acolhem pessoas cegas que estejam a fazer cursos de formação profissional, ou estejam ensino secundário ou universitário.

Ana Silva refere que também dão apoio na reintegração e inclusão social, de forma a preparar os utentes para um mundo novo lá fora. "São pessoas autónomas quando chegam cá do ponto de vista da sua mobilidade. Nós aqui apoiamos em trajetos novos em que eles não saibam. Desenvolvemos muitas atividades também internas, do ponto de vista cultural. Temos as tertúlias culturais, temos algumas atividades mais ligadas à educação, a questões de história, alguns apoios a nível do inglês. Depende do grupo que nós temos", explica a diretora do Lar Branco Rodrigues.

De momento, a instituição acolhe 22 pessoas mas tem capacidade para 27. Uma delas é o Aliu, que chegou ao lar com 17 anos. "Penso que o Aliu, quando terminar o seu percurso universitário e arranjar um emprego, vamos trabalhar no sentido dele realmente viver sozinho. É outra questão que nos preocupa: é que eles venham a ser pessoas que não dependam das instituições", explica Ana Silva.

Aliu considera que o Lar Branco Rodrigues, localizado na Parede, tem sido fundamental para encarar o dia-a-dia de uma forma normal. "Chegar aqui e ver: afinal estão aqui imensas pessoas que estão na mesma situação que eu e vivem na mesma, vão aos seus cursos, têm os seus amigos, têm as suas namoradas".

Para Aliu, viver no Lar Branco Rodrigues foi um ponto de viragem. "Se já tenho tudo, se já sei andar na rua sozinho, vou para todo o lado sozinho, se sei fazer tudo o que uma pessoa normal visual saber fazer. Então, eu sou uma pessoa completamente normal".

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