Trabalho

Assédio sexual no trabalho: mulheres deixaram de ignorar

Portugal ainda é dos países com mais casos. Mas números desceram e as mulheres passaram a contestar muito mais os 'avanços' dos chefes ou dos colegas.

Cerca de 16,5% dos portugueses já foram vítimas de assédio moral no local de trabalho e 12,6% já estiveram envolvidos, como vítimas, em casos de assédio sexual.

A conclusão é de um estudo que é apresentado esta quarta-feira pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE). O documento sublinha que os números portugueses são várias vezes superiores às médias da Europa que se ficam pelos 2% no assédio sexual e 4% no assédio moral.

Na divisão por sexos, as mulheres são claramente as maiores vítimas de assédio sexual, 14,4%, contra 8,6% nos homens.

Apesar de Portugal ficar muito mal na comparação com outros países europeus, os autores do estudo sublinham que o país avançou muito nas últimas décadas.

Em 1989, ano do primeiro estudo do género, 34,1% das mulheres portuguesas diziam ter sido alvo de assédio sexual no trabalho.

Da inação para a reação rápida

Além da grande descida do número de mulheres alvo de situações como insinuações sexuais, atenção sexual não desejada, contactos físicos e agressões sexuais ou aliciamento no trabalho, o estudo revela outros dados que considera positivos.

As mulheres têm hoje uma "maior capacidade de reação", tendo passado "da inação para a demonstração imediata de desagrado".

Cerca de 52% das mulheres contam que mostraram logo desagrado com a situação, mais do dobro face ao que acontecia há duas décadas e meia (24%), tendo subido bastante, também, as que mostraram irritação, um sentimento de ofensa ou as que confrontaram imediatamente o homem exigindo que a situação não se repetisse.

Do outro lado, as mulheres que faziam de conta que não notavam o que estava a acontecer diminuíram de 49% em 1989 para 22,9% em 2015.

Além do assédio sexual, o estudo, feito pelo Centro Interdisciplinar de Estudos de Género do
Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) também avaliou o chamado assédio moral. Situações como isolamento social, perseguição profissional, intimidação ou humilhação pessoal, numa espécie de bullying no emprego.

Tal como no assédio sexual, as chefias são os principais atores do assédio moral. E a maioria dos trabalhadores alvo optaram por esperar que a situação de não se repetisse ou não fizeram nada por medo de serem despedidos ou de sofrer outras consequências profissionais.

O estudo conclui que as "más condições laborais, a precariedade, a redução de efetivos nas empresas e as más práticas organizacionais contribuem para que ocorram formas de violência psicológica gravíssimas que afetam a saúde e o bem-estar de milhares de trabalhadores, conduzindo-os por vezes a situações limite".