Casa de Chá da Boa Nova. A arquitetura que convida o mar para jantar

Visita guiada pelo arquiteto João Rapagão, conhecedor da obra de Álvaro Siza Vieira.

Esta Casa de Chá, edifício público classificado como monumento nacional, foi renovado em 2014 e, nessa altura, concessionado ao chef de cozinha Rui Paula. Depois de ter estado muitos anos fechada e em degradação, a Casa de Chá foi recuperada e devolvida à cidade. Mas da ocupação popular inicial passou a uma ter uma frequência selecionada.

A Casa de Chá pode no entanto ser visitada fora do horário das refeições, com visitas marcadas através da Casa da Arquitetura.

Como é que sem imagem, só com o som, vai o arquiteto João Rapagão conseguir transmitir todas as sensações que a obra de Siza Vieira transmite? Casa de Chá da Boa Nova, 1963.

"A entrada na Casa de Chá acontece a partir do momento em que estes dois muros se entrelaçam e começam uma espécie de ascensão, como se fosse a subida à Acrópole. Há aqui uma espécie de ritual. O percurso vem já ao longo deste muro que entretanto abre para criar uma pequena praça de receção. A partir daqui fazemos esta entrada.
Uma das grandes qualidades deste projeto é precisamente neste ponto, em que o Siza vai fazendo rotações sucessivas. A primeira subida de escadas é dirigida ao horizonte e ao mar e o arquiteto vai convidar-nos a fazer estes quatro quadrantes através da subida progressiva desta espécie de narrativa que vai quebrar a 90 graus constantemente para atingir o alpendre da Casa de Chá".

Cá fora, o mar.

"Aquele volume branco principal é claramente para marcar a entrada da Casa de Chá e fica aqui anunciada esta espécie de obra incrustada, aninhada nas rochas, que liberta a cobertura.
A cobertura parece flutuar. Esta ideia do vidro entre os panos brancos da parede e a cobertura que flutua é claramente para projetar o mar e dirigir as pessoas até ao horizonte e ao mar".

Cá fora o mar. Lá dentro, o mar.

"Aqui acontece esta descida em direção ao mar. Há esta convergência das paredes. O próprio teto desce inclinado para apertar e depois fazer esta revelação em que a cobertura nivela o nível do mar. É claramente uma peça repousada no mar e que flutua, fruto destes panos de vidro todos - que não deixam de ser quadros abertos para o mar.
Temos também o fogo presente, esta ideia da terra que está por trás e onde a peça parece encaixada e estas janelas magníficas. Quando abertas, a cobertura continua como um plano único, livre, contínuo, do interior para o exterior. Leva a sala até ao mar e traz o mar até à sala".

Siza desenhou a Casa de Chá da Boa Nova com 25 anos, estava a terminar o curso de Arquitetura.

"Uma das suas inspirações era Alvar Aalto, graças às revistas, porque na altura não havia a possibilidade de viajar como hoje. Nas poucas publicações que chegavam a Portugal, o Alvar Aalto era uma das influências. De alguma forma, também se sente aqui um pouco de Frank Lloyd Wright, que vai ser uma grande influência na obra seguinte, que é a Piscina das Marés. As plantas de Frank Lloyd Wright vão influenciar muito a Piscina das Marés.

Mas aqui ainda há uma presença muito forte de Alvar Aalto neste jogo das madeiras. Esta obra também é muito importante porque anuncia aquilo que o Siza virá a ser nesta primeira fase, ainda com as coberturas inclinadas, com volumes com alguma organicidade".

Em 1956, a Câmara Municipal de Matosinhos abriu um concurso para aqui instalar um equipamento com fins turísticos. Venceu o concurso o arquiteto Fernando Távora, que entregou o projeto a um dos seus colabores, Álvaro Siza, que dava os primeiros passos na carreira.

"Eu lembro-me de vir cá nos finais dos anos 80, início dos anos 90, e era um sítio de eleição para as famílias, era um sítio muito popular, era frequente encontrar-se esta casa cheia. Aquilo que vemos hoje aos fins de semana nos centros comerciais acontecia aqui. A porta estava aberta, as pessoas entravam e saíam, viviam muito este espaço. E eram famílias populares, não era preciso nenhum 'pedigree' para aqui estar".

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