Sociedade

"Com rendas de 600 a cinco mil euros, quantos livros teria de vender?"

Alfarrabista há 20 anos, na Rua das Flores, no Porto, João Soares recebeu ordem de despejo. Já está à procura de um novo espaço. João Soares fala numa cidade descaracterizada.

João Soares, 72 anos, é o proprietário desta livraria, no número 40 da Rua das Flores. Na montra anunciam-se descontos de 50%, um pouco abaixo está escrita a frase: "Lê a tua vida com atenção".

Atravessamos as portas altas vermelhas, de madeira, à entrada uma lousa apresenta a Livraria João Soares Alfarrabista. Lá dentro centenas e centenas de livros deixam apenas dois estreitos corredores livres.

"Isto é um negócio de loucura minha, o primeiro livro usado que comprei foi em 1955. A partir daí comprei sempre e depois comecei a ir à Feira da Vandoma para trocar livros. Trabalhava num banco e para espairecer aproveitava os fins de semana para visitar feiras e comprar mais livros, até que a minha mulher deu a ideia de abrirmos um negócio."

João Soares recebeu os primeiros clientes no dia 1 de janeiro de 1998, paga 85 euros de renda, mas investiu parte das suas poupanças neste espaço.

"Isto que está a ver é um pequeno paraíso no resto do prédio. Eu fiz o telhado, a iluminação, o chão... gastei cerca de seis mil contos".

João Soares confessa que aos 72 anos as surpresas são poucas mas esta abalou-o, durante três décadas trabalhou como bancário, sempre no centro do Porto e diz que não reconhece a cidade do Porto.
"A Rua das Flores está descaracterizada, não tem nada a ver com o que era. A língua que se fala aqui é o inglês".

O edifício de três andares, que desde 1930 tem um negócio no piso térreo, tem que ficar desocupado até ao final do ano. João Soares já pensou no destino das centenas de livros. "Vou vender alguns, outros guardar e continuar à procura de um espaço compatível".

Tem clientes que o visitam todas as semanas e muitas histórias para contar. "Um dia um sujeito entrou aqui e passou pela área das letras e veio pagar um livro de matemática superior e eu perguntei como é que ele veio pagar um livro de matemática. Ele confessou que tinha estado na livraria há uns dias, não tinha dinheiro e escondeu o livro, porque não é fácil um matemático trazer um livro de poesia nem um matemático comprar um livro de poesia. Não sei quantos livros andarão por aqui escondidos".

João Soares garante que ainda não desistiu do sonho dos livros. "Se alguém souber de um espaço compatível agradeço que me diga, com 72 anos não vou estorvar muito".

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