Incêndios

Estudo conclui que fugir de casa foi fatal para muitas vítimas de Pedrógão

Avaliação pedida pelo Governo a especialistas em fogos florestais já permitiu perceber que se as pessoas "permanecessem nas suas casas teriam mais probabilidades de sobrevivência".

O coordenador do estudo encomendado pelo Governo para perceber o que se passou no incêndio de Pedrógão Grande admite que a maioria das vítimas que estavam na sua habitação e fugiram do fogo teriam mais probabilidades de ter sobrevivido se tivessem ficado em casa.

Esta é uma das conclusões a que já foi possível chegar em menos de um mês de avaliação do caso com base na experiência de fogos do passado e nas análises ao terreno onde se encontraram, por exemplo, muitas casas intactas apesar de terem estado vazias no momento em que as chamas andaram por perto.

À TSF, o coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que lidera o trabalho, explica que "de um modo geral a recomendação que fazem é que é muito preferível ficar em casa ou na aldeia se não há a hipótese da pessoa se retirar a tempo em segurança".

Questionado se no caso de Pedrógão Grande já foi possível perceber se a maioria das pessoas que fugiram teriam sobrevivido se ficassem em casa, Xavier Viegas responde que "sim": "Não posso dizer isso como regra geral e absoluta, mas como regra sim, as pessoas que permanecessem nas suas casas teriam mais probabilidades de sobrevivência".

Uma das metas do estudo em curso, que estará terminado a meio de outubro, será perceber o que levou as pessoas a saírem ou não de casa.

Até um australiano enviou um relato do fogo

As palavras de Xavier Viegas surgem numa altura em que passa pouco mais de uma semana que o Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais fez um apelo a quem viveu de perto este grande fogo, que atingiu vários concelhos, para que envie fotos, vídeos e testemunhos na primeira pessoa.

O coordenador da equipa diz que o balanço do apelo tem sido muito positivo e recebem perto de uma dezena de contactos por dia que têm ajudado a perceber melhor o que se passou no terreno com relatos 'ricos'.

Um dos depoimentos que ficou na memória de Xavier Viegas chegou de um australiano que tem casa na zona e fez questão de recolher relatos de outros estrangeiros da região que ilustrou com fotos, num trabalho detalhado e minucioso.

Outro testemunho marcante chegou de uma família inteira que viu as chamas de perto e que intitulou esse texto com a frase: "Estamos vivos".

O investigador da Universidade de Coimbra conta que depois de receberem este depoimento esteve com a família e acompanhou-os nos lugares onde enfrentaram as chamas, sublinhando que o documento que enviaram estava "muito bem feito, claro, com horas, fotografias e vídeos que mostram o incêndio quando este andou perto da sua casa".

Xavier Viegas admite que são relatos como estes que, a par do trabalho das equipas que andam no terreno, serão importantes para perceber aquilo que correu bem e mal no trágico incêndio de Pedrógão Grande, o mais mortal alguma vez registado em Portugal com 64 mortos.

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