Morreu Jorge Miguéis, o homem que organizou 66 eleições em Portugal

Comissão Nacional de Eleições recorda uma pessoa que "dedicou a vida de trabalho às questões eleitorais".

Quando se reformou chamaram-lhe "o senhor eleições" e os números ajudam a explicar o título: Jorge Miguéis esteve 41 anos na administração eleitoral organizando 66 eleições, a começar na primeira do regime democrático, para a Assembleia Constituinte, em 1975, e a acabar nas últimas eleições legislativas de 2015.

Jorge Miguéis era o mais mais antigo e experiente quadro em processos eleitorais do Estado depois de ter sido responsável pelo antigo Secretariado Técnico dos Assuntos para o Processo Eleitoral (STAPE), pela Direção-Geral e pela Secretaria-Geral da Administração Interna que lhe sucedeu, organismos de que foi Diretor-Geral Adjunto, Diretor-Geral e Secretário-Geral Adjunto para a Área Eleitoral.

Jorge Miguéis era agora membro da Comissão Nacional de Eleições (CNE), função que assumia desde abril de 1996, sendo o substituto do presidente - eleito de forma unânime pelos seus pares.

Numa nota publicada no seu site a CNE refere que Jorge Miguéis "faleceu inesperadamente na sua residência" e recorda alguém que "dedicou a sua vida de trabalho às questões eleitorais".

De acordo com o porta-voz da CNE, João Tiago Machado, Jorge Miguéis vivia sozinho e foi encontrado morto na sua casa na quinta-feira, depois de ter falhado um compromisso e não ter atendido chamadas na quarta-feira.

De acordo com o responsável, será feita autópsia ao corpo, desconhecendo-se ainda quando decorrerão as cerimónias fúnebres.

Jorge Manuel Ferreira Miguéis nasceu a 19 de outubro de 1949 em Coimbra e era licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

"Tinha muitas histórias para contar"

André Freire, cientista político e investigador com décadas de estudos sobre o sistema eleitoral, cruzou-se muitas vezes com Jorge Miguéis e recorda um grande conhecedor das leis eleitorais e da logística eleitoral.

O investigador do ISCTE-IUL fala em alguém que conhecia "os meandros da organização eleitoral desde os primórdios, com muitas histórias para contar", pelo que com frequência enviava os seus alunos de Ciência Política para falarem com Jorge Miguéis, "uma figura incontornável".

O título de "senhor eleições" que lhe foi dado pelos jornais quando se reformou "fazia todo o sentido", admite André Freire, recordando que estamos a falar de alguém que foi durante mais de quatro décadas um elemento crucial nos diferentes organismos que foram, com diferentes nomes, organizando eleições em Portugal.

Não por acaso, afirma o cientista político, já depois de se reformar Jorge Miguéis foi convidado para membro da Comissão Nacional de Eleições, o que prova a "sua importância e o seu grau de conhecimento sobre estas matérias".

"Uma perda para a democracia"

O Ministro da Administração Interna manifestou-se entretando "muito chocado" com esta morte, explicando, à agência Lusa, que "ainda há poucos dias tinha contactado com Jorge Miguéis sobre questões de preparação das inovações que marcarão as eleições deste ano, designadamente o voto eletrónico".

Eduardo Cabrita diz que Jorge Miguéis está ligado à história do processo eleitoral em Portugal, "podendo-se dizer que, do ponto de vista da credibilidade e da confiança dos portugueses nas suas eleições, Jorge Miguéis foi um verdadeiro pilar da democracia".

Segundo o governante, apesar de reformado Jorge Miguéis continuava a seguir "apaixonadamente todas as matérias ligadas ao bom funcionamento das eleições", sendo o seu falecimento "uma perda para o Ministério da Administração Interna, mas também para a democracia portuguesa".

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